O
terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que
esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até
à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas
com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de
outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de
qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em
que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o
copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de
horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua
maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico
de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram
onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te
cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira
humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos
momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que
me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida
certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse
não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as
emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!
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20.5.15
13.5.15
Este também é um mundo de mulheres.
As
redes sociais são um atrevimento. Rasgam-se palavras amargas sobre o voyeurismo
na televisão, mas há sempre quem nunca desista de bisbilhotar online o que foi
feito desta ou daquele. Democratizou-se a o interesse pelo alheio. Tanto, que
já quase ninguém se lembra do passado. A
sério, risca essa merda toda e nunca mais voltes a fazê-lo. Terminou assim.
A miúda que só precisava de umas botas amarelas, umas meias rasgadas, mas sempre negras e um cabelo muito comprido
e super liso. Andava sempre com uma mala XXL e nunca parecia contente. Nunca
lhe vi um sorriso, nunca lhe ouvi a voz antes desta frase. Pintava os lábios
grossos de encarnado e tinha os olhos sempre escuros. Nunca tinha companhia e
arrastava-se pelos corredores. Só me lembro disto. Antes, claro, de ouvi-la
pela primeira vez. Depois de vê-la indignada com aquela outra miúda, voltei a
encontrá-la sempre da mesma forma, algures num ponto daquele corredor largo.
Vim, mais tarde, a saber que era uma aluna de excelência. Parte dos professores
tinha uma simpatia extrema por ela. Na minha opinião, com todo o mérito. Seria
um ano mais velha do que eu. Por isso, desde que terminou os estudos, nunca
mais a vi. Soube esta semana, através de uns amigos, que é uma jovem mulher igualmente
misteriosa. Continua bonita, de lábios encarnados. Agora é profissional da área
da justiça e não lhe faltam elogios. Sequer conversamos uma vez, mas fiquei
contente por saber dela e do percurso profissional. A outra miúda, com quem
ouvi-a gritar, parece que foi um amor de juventude. É uma fortuna ter o mundo
em andamento e sangue a fluir a favor do caminho certo.
16.4.15
Afeição e simpatia recíprocas.
A
minha mãe pede-me um beijo, com a sensibilidade desmedida, nada forçada. De
quem acusa alguma saudade e não esquece os momentos idos, em que beijar o filho
petiz, resumia-se, somente, a uma opção: fazê-lo sempre. Saudades de mãe. Contudo,
fá-lo ao jeito de quem pretende mostrá-la sem assumir. Adivinho-lhe alguns
pensamentos. Antecipo-lhe algumas palavras. Acontece, uma ou outra vez. Depois
da demora, avança que já não lhe chego com o mesmo tempo e a mesma
periodicidade. Uma espécie de filho em dívida permanente. Dei-lhe, por fim, o
beijo. Os beijos. Não sei como é que funciona, mas as mães têm uma condição
especial. Um caso tão particular de dedicação. Têm poderes sem fim, desconfio. As
mães têm amigas muito diferentes. A minha, pelo menos, fez assim. Tem amizades
díspares e antagónicas. Consegue sentar-se e tomar um chá em ameno e
sintonizado silêncio. Também sabe estar numa sala cheia e gargalhar sem qualquer
vergonha. Tem ainda a capacidade de conversar, tanto, sem fim. As amigas são um
complemento do estado. Do espírito que tem tons de diva saturada. Em cada um de
nós. Ontem, éramos para ir tomar café apenas os dois. Escrevo éramos
propositadamente. Pois, numa visita surpresa, surge uma amiga da minha mãe.
Acabou, claro, por nos acompanhar. Inevitavelmente, fiquei a ouvir-lhes as
memórias. Voltamos às questões de gerações diferentes. No nosso tempo, foi o
mote de grande parte da conversa. O tempo, afinal, acabou por voar. Esta amiga
da minha mãe, de cabelo armado e super dedicada à neta, cujo objectivo é
mantê-la nas aulas de música clássica, confessou, de mão a tapar a boca,
denunciando alguma vergonha, que adora kizomba e amava ver a neta a tocar e
cantar num baile de verão. A minha mãe soltou a gargalhada típica. Em havendo
talento e vontade, há que investir. Sempre achei os coretos um palco tão digno. Nada
nem ninguém é o que parece, até lhes tomarmos uma parte da verdade. O tempo faz
milagres. E tem armadura de comédia.
9.4.15
Quebrar com força.
Podes
fotografar esta ponte. Aquela ponte. Ou outra qualquer. Podes fotografá-las a
todas. Podes, se tiveres interesse e perspectivas várias, fotografar a mesma
ponte sempre e em cada dia. Podes fotografá-la sobre o tabuleiro. Podes, se
assim entenderes, fotografá-la cá de baixo. Se gostas de estar sozinho ou com
alguém, é pormenor. Tem maiores artimanhas na objectiva e na edição.
Desprende-te disso e foca e desfoca, sem pensar ou remexer na actividade do
editor. Podes também, se não te causar enfado, fotografar todas as pontes por
onde passes. As grandes, as pequenas. As altas ou as de baixa estatura. As
longas ou as de pouca extensão. Resume-se à tua área de expressões.
Precisamente sobre uma ponte, enquanto sais para longe, toca-te o telemóvel. Do
outro lado, o lamento de mais uma relação que chega ao fim. Sem forçar ou
culpar a idade, a efemeridade tem patamares. Nas relações, por certo, não será
diferente. Depois, coisas há que se repetem. Só lhes falta, desta vez, um
lustre vistoso no centro da sala. Vai lá e concerta a ruptura. Se assim tiver
de ser, não há ponte que não alcance.
31.3.15
Encher de letras o entusiasmo.
Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga
surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom
de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser
sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara
com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra
certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem
pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os
olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento
da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado
tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios
era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a
intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar.
Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e
franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com
a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não
gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz.
Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer
e melindrar.
24.3.15
A completar.
Fecha
os olhos, compreende enquanto escutas e sentes, aquilo que te chega e se
propaga corpo acima, corpo abaixo. Enquanto leve, sem maneiras e funcionalismos
do pensamento, ela leva as mãos ao cabelo arrumado. Contudo, cabelo da moda,
mesmo arrumado, denuncia uma flagrante e nada inocente desarrumação. Enquanto ela
veste o seu casaco com quadradinhos sem fim. Enquanto se perde num passeio ao
ar livre, sobre as suas botas rasas. Enquanto permite que partilhes a cama com
ela mais do que uma noite. Ainda que, todas as noites inteiras sejam tão pouco.
Enquanto ela se preocupa em dar-te a conhecer o melhor que já lhe passou. Sabendo
que uma relação inteira proporciona, por demais, pouco tempo para dispensar uma
mostra da prosa e poesia que lemos, das peças sobre as tábuas de um teatro e da
arte em geral que se multiplica pelo cinema, museus ou na rua de um país. Tudo
o que adquirimos, aprendemos, vimos, vivemos e intuímos juntos. Tudo isto é o
amor a propagar. Mesmo sem palpitarmos. Perdemos um tanto, se olharmos para o
lado. Perdemos a faculdade do amor, se não sentirmos o verdadeiro. O entusiasmo
de ontem.
11.3.15
Símbolo químico de ambos.
Longe
de enaltecer o erudito, mas perto de dividir a sabedoria individual. Voltamos
sempre à incoerente necessidade de falar do que move todos e cada um. Juntar
pessoas com tempo para conversar, independentemente do pretexto, é ter
oportunidade para aprimorar opiniões e ler nas entrelinhas das vivências. A
riqueza existe, logo nos lembramos do mais comum e constitutivo da essência. Ele,
aparentemente despojado da necessidade de afectos, defende que deve adormecer,
assim como, amanhecer ao lado de quem lhe mexe com as emoções, com quem sinta
vontade de jurar amor eterno. Ela, de postura rija, garante que não partilha a
cama depois do sexo. Em momento algum, ouvimo-la falar de amor, tampouco, do
impulso da paixão. Ele, garante, investe na partilha dos corpos, a verdadeira
indução do acto. Ela, sem reservas, diz que aposta no toque, nas mãos que
esculpem as formas e dão dimensão e corpo às carnes. Apresentam-nos uma química
invertida e uma física que tem ameaças hipotéticas. Salve-se a humanidade. Há
esperança. Quando escutas, deixando de ouvir, percebes que já não vivemos na
média da diferença de género. Ainda que, daquelas bocas saia, somente, aquilo
que eles querem que saia.
4.3.15
Bravo.
Aquele
gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é
descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa
adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os
ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com
uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as
camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e
de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso.
Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das
conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que
já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na
minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não
me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que
com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um
gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa.
Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno
dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda
hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.
2.3.15
Sem favores à mistura, é um ponto de vista.
Estranho,
nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto
fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que
era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras,
como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do
que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no
centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e
não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora.
E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes
que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam
sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi
além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham
luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na
casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o
dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não
revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a
leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as
razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos
para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela,
meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um
Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não
sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem
novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros
passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação
– inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar
a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os
carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros.
Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha
parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa
sala era tão sui generis. Como vocês.
Fiéis à vossa razão.
26.2.15
Ainda sem data para arrancar.
As
borboletas no estômago já não fazem sentido. Ou outro bicho bamboleante
qualquer. Ou noutra zona tão ou mais digna para receber a ansiedade. Estúpido é
como me sinto enquanto escrevo estas palavras. Ouvi-las é bom, mas sinto o
contrário. É o tempo da contradição. Quem espera, desespera e é tão certo.
Semana de expectativas. De respostas que tardam. E, em sorte, respostas que
mudam vidas. Ainda assim, tenho cautela quando me falam em vidas alterar. Não acredito
logo. Nem a seguir. Volto à teoria das borboletas em desuso e em como aquelas
palavras me encheram a cabeça. Quando as ouvi, há dias, da boca de uma pessoa
que admiro e tem gana no trabalho que faz e na vida que escolheu. A ansiedade não
consome sem medo. Antes, com medida e peso. Como na aldeia, de medidas certas,
o feijão seco do vizinho e o grão da dona Ermelinda Sarapintada. Ouvi, também
há uns dias, um senhor de mãos gastas a falar-me da Sarapintada. Vendedora de
aldeia. Carregava sempre os pesos e as medidas. Valente de balança às costas. E
volto à conversa anterior. Dizia-me, com segurança nas palavras e convicção nos
sentimentos, que não se lembra da ansiedade no corpo. Talvez, nunca tenha
conhecido as borboletas interiores. Mas tem receios. Sabe, contudo,
amedrontá-los. Vive bem com isso. E, pensando bem, não escolheria as borboletas.
Toldado pelas formas tão bem definidas, ficar-me-ia por uma volta na Vespa da cor do chocolate.
19.2.15
A sociedade é tramada.
Não
nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou
quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em
grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente
frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de
algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e
guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais
fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente
estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim.
Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir
silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e
verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não
estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e
embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da
postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que
já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que
já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui.
Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial.
Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio
conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a
pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E
sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.
16.2.15
Casamento para tirar proveito.
Como
em tudo na vida, a verdade existe sempre, mas não deixa de vestir-se de uma
máscara, tantas vezes, bem mais ardilosa e rebuscada do que o mote, a verdade.
E não é diferente num bar de Portugal que imita os pubs antigos. Os verdadeiros, os britânicos. Com o comércio de
bebidas alcoólicas sem fim. Encontramo-nos lá. Fui com companhia. Estavam,
entre outros tantos, duas pessoas no balcão, que nos esperavam, como haviam
passado a indicação. Duas mulheres portuguesas, no espírito da comunidade
estrangeira que dinamizava o espaço. Que barafunda pegada. Uma confusão
desmedida. Menina liberal de escola interna, de faculdade livre e educação
apertada. Solteira por convicção na rua. Solteira por falta de oferta real, no
conforto da intimidade. Conta sem maldade. Com um copo na mão, depois outro. É
amor num dia, é carnaval no outro. Era a vida dois dias, o carnaval três. Má
sorte, lembrava ela enquanto se lamentava, pois estragaram-lhe o ano com a
união das datas. É mais fácil investir na ilusão. Soltou um foda-se e seguiu – Logo hoje que a minha mãe me lembrou que uma
mulher e jornalista nunca anda mal-amanhada e desprevenida. Caso-me com um
secador de cabelo e uma máscara para as pontas. - Vai presa por bigamia.
20.1.15
Definitiva alegação.
Missiva
pertinente e trafulha, esta de gostar sem reticências e missões infrutíferas.
Cada feitio com o seu jeito. Sem drama digno das tábuas de um teatro. Sem divas
de cartaz e cavalheiros de nome destacado. Mulheres reais, homens naturais.
Fica sereno, pássaro de livre e fiel querer. Crê nas palavras e nos braços
firmes. É ser alma inteira, comichão nas cordas vocais, paixão na pele e amor
no coração. Chega, mansa e singela, a ligação que há em nós. Cria laços até
deles não nos conseguirmos desenvencilhar. Como se não existisse eira nem
beira. Como se fosse um conhecido adágio ecléctico. Como quando a verdade exige
uma posição. Um caminho distante. Como quando festejar uma data qualquer não é
uma vontade. Assim, nada importa. Vive o ano inteiro, guarda a surpresa no
quotidiano. Chamar-lhe pelo nome, desvendar-lhe pelo olhar. É a vizinha
presença, lado a lado na companhia. Avança cada passo, não deixa de recuar
quando é o caso. Passam anos. Não se fazem contas. Não entende a ideia de concentrar.
De num dia tudo partilhar. Corpo que não precisa de sossego. Entendes isso,
génio mais lindo. Um dia feliz, é o que desejo. Seja um dia vazio, seja o dia
da comemoração do primeiro dia da relação. Aplausos. E seguem caminho num
harmonioso, contudo, distinto, acorde.
5.1.15
Prioridades biológicas de ano novo.
Diz
a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma
procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as
chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de
situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra
que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais,
efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos
trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de
vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole,
ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem
idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe
contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a
conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De
carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me
ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei
mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a
mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca.
Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois
da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver,
da esplanada fria, gente a passar.
29.12.14
Desculpem a minha pantomima invertida.
Em
tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um
desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a
café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito
de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As
mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia.
E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa
tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse
o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam
as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e
rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se
divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não
tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem
possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a
mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração
que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.
11.12.14
Em diferido. #24
Derramar
luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de
um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do
que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e
incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a
condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está
inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O
equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que
nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes
convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja
fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de
segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que
impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de
outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária
desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim.
Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para
voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.
4.12.14
Individualidade consciente.
Prevalece
a privacidade, a felicidade de ter um antes e um agora. Fumas um cigarro, mesmo
que nunca tenhas adquirido o hábito. É voltar às festas de fim-de-semana que
terminavam tarde. Tão tarde, roubávamos horas e mais horas. Sem que ninguém,
senão os convidados se decidissem entrar daquele portão grande para dentro. A
piscina, a casa no centro, o longo jardim que, sem grande esforço, perdíamos de
vista. A sala de convívio lá no fundo. A música típica do tempo em que
inventávamos que fumávamos. Um cigarro e um sem número de grades de cervejas, em
igual número bebidas várias. Rapazes e raparigas que marcaram. Estórias de
leves amores e de escondidas paixões. Num lugar distante. Tal como o tempo que
é agora longínquo. Não tanto quanto isso, mas mais na medida em que nos
sentamos e contamos os anos. Não foi há tanto tempo assim. Ela não estava lá.
Hoje partilhamos factos aos pedaços. Eu não estava noutras ocasiões dela. É o
tempo certo. Para começar, ao invés, de recomeçar. Tantas coisas novas para
contar.
19.11.14
Critério conhecido.
Não
deve ser mentira quando da infância, as palavras ganham um caminho e um
trajecto particular, e logo se fazem verdades de tanto nos servirem. Inclusive,
numa postura tremendamente traiçoeira e temida. Desde pequeno que os mais
velhos e conservadores, por certo, uma ala mais altiva da minha família, faziam
por lembrar. Numa luta desigual para com o esquecimento, que abrir a boca,
vociferando tudo quanto nos apoquentasse no instante, depressa passava para os
escombros da má educação. Rapidamente se deixa a carruagem da frontalidade e da
verdade para desmontar o outro. Melindrar a postura e, em grave instância, a
dignidade do outro. A outra pessoa. Porque a minha percepção pode estar e deve
estar moldada pelas minhas vivências, assim, facilmente ocorre serem diferentes
das outras pessoas. Não pouca gente me vem falando do mesmo ensinamento.
Questiono-me. É uma verdade explicita ou um mentira que merece atenção. Alguém
teve a sapiência de a escrever algures. Num livro. Num qualquer ensaio. Por
deles nos servirmos quando queremos a conformidade da ideia com a verdade.
Mesmo que nos acusem de ter um ar fino, havemos de nos preocupar, enquanto
houver discernimento, com males maiores.
10.11.14
Lixam-nos os filmes e as bengalas.
Deram,
algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do
desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que
foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético
quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se
pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a
emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de
gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor
lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um
amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada.
Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito.
Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas
costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem
não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas
nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo,
assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e
dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito,
é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.
6.11.14
Secou a humanidade.
Julgo
ter visto o Pai Natal. O tempo não tem pausa. E, permitam-me a infantil necessidade
de me lembrar e, por força, fazer referência ao excelso trava-línguas – O tempo
perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem - Ano de velhos relhos. Relhos
ligados de emoções, desligadas as famílias, que se distanciam. A facilidade de
depositar algures, na promessa de regressar em breve. Na boca a conversa de que
não se ajeitam as condições de os receber. Esta manhã tive oportunidade de
estar algum tempo num hospital. É público, mas podia tratar-se de um outro
regime. E perde-se o juízo na soma do homem com o abandono. Ludibriam-se vidas
e ocupações para justificar ausências e severas acções. Quem persiste, resiste.
Quem ama, cuida e rega sob e sobre tudo e todos. Aflição é pensar no que foste,
em quem és. Para onde vais. Sufocam-se as vozes daqueles velhos de cama em
cama. Voltam sempre mas nem ao telefone lhes ouvem as vozes. Não resisto
pensar, dá Deus nozes a quem não tem dentes. Desabafo de um relho homem.
Imitava um passeio num corredor de pouca luz. Na cadeira de rodas seguia de
sorriso agitado. As barbas compridas e brancas. O porte típico de quem tem
carnes. É o Pai Natal. Foi, no exacto instante em que vi, o que me assaltou a
ideia. Suportei as minhas desconfianças depois de o ouvir contar vidas. Julgo
ter visto o Pai Natal. Num corredor de hospital, com uma bata clara e um frasco
de soro ao lado. Quando nem o Pai Natal tem quem o sufoque de mimos e
companhia, mal vai o mundo. Um mundo que é uma caixa onde se esconde o pior no
fundo.
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