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2.6.16

Numa espécie de corrida a favor da psique.

Faz tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam, foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se, tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem, ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a fantasia do para sempre.

23.2.16

Locutório à mercê.

Aquele aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira, num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio. Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância. O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais. Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco, a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda. Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém. Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.

18.2.16

Compensação das coisas.

Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

15.2.16

Ora, atente no busílis.

Numa sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular. Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo. Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics. Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta. Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar, um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso, no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história. Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros, esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze. Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.

8.2.16

Um presente frio de inverno.

Enfim, cheguei. Trazia um presente entre as mãos. O frio obrigava-me a desvalorizar outras questões. Um casaco quente faz milagres, quando o conforto está longe. Tão distante que preferes não lembrar. Pior, quando o encontro é frequente, e o frio acontece. Um cachecol apropriado está no mesmo nível. Cheguei, portanto. À hora marcada. Sem exageros. Nem para diante, nem para trás. A educação faz milagres e não conheço alma na minha família, que não o defenda. São ferozes no defendimento da relevância da educação, pois claro, mas não se poupam na defesa da importância de saber receber e, melhor, de saber ser-se recebido. Numa mão, o presente. Esperei uns instantes, os necessários para que me viessem abrir a porta. E depois, receber. Conheci-a, ainda petiz. Tão imberbe que a memória, se pouco induzida, perde força. Conhecemo-nos cedo. A irmã dela também. Por força dos nossos pais, casais amigos. Sorri, entre a porta e a entrada do espaço. De presente na mão. Devolveu-me o olhar e, num passo apressado, chegou-se a mim. Um beijo feliz e as felicitações simpáticas. Comigo, as minhas irmãs. Fomos amigos de infância, até que a ausência foi forçada. A distância física venceu. Foi célere a apresentar-me o namorado. Um tipo que pendia para o absurdo, vim a aperceber-me. A irmã dela, sempre simpática, bem vestida. Tudo isto, ela é capaz de misturar com um ar meio snobe. E, se me recordo, é uma inspiração para a aniversariante. A irmã ofereceu-se para me trazer uma bebida, falámos uns largos minutos, todos monopolizados por ela. Gabou-me a farpela e o bom aspecto. Sê simpático, pensei. E, sem esforço, devolvi-lhe. Jantámos numa mesa comprida, cheia de gente. Muita conversa, muitos copos a pedir saúde e felicidade. Fiz por sair no momento certo. Nessa altura, intersectado pela irmã da aniversariante. Um convite para seguir para outro lugar e dançar até ao sol raiar. Recusei, forçosamente. Trocámos um beijo, e voltou a salientar o meu bom aspecto. Agora, sem presente entre as mãos, sorri e prometi que íamos ter tantas oportunidades para tomar algo e dançar sem fim. Abrem-me a porta e, com as minhas irmãs, seguimos para o nosso destino. O frio aborrece. A noite é estreita. Afunila situações e junta pessoas. No compromisso, se pensares, não há espaço para soluções de circunstância. Mesmo que lá fora esteja frio. Mesmo que lá longe estejas tu.

14.12.15

A primeira letra.

Sentado algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho. A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante, tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante, nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas. Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances. Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros, passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato, não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar. Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação. Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim. Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti, nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

2.12.15

Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.

No Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa, resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados, perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que, imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa. Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante, de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção. Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem. Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar aquela imagem. Não me livrei de uma selfie a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente. No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona daquelas feições?

30.11.15

A ocasião propõe a relação.

O cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual, engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar desgosto pela vida alheia.

26.11.15

Em diferido. #42

Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

16.11.15

Entre nós.

Entre cá e lá. Permite-me a saudade e os sentimentos revoltados que use a palavra que continuas a imaginar colada a mim, pensar sintonizado com a picuinhice que lembra a alma vazia, desenhar a vontade de ter certezas. Em cada palmo, sentimentos colhidos, factos salpicados e novas perspectivas. Suspende-se a respiração, adivinhas a loucura reinventada. Nos dedos, tintas felizes. E desenhando, fica na pele a certeza. Na ausência forçada, um tanto instante saborosa. Entre a distância, a despesa física e obrigada. Entre o pé aqui e o braço ali. Entre as imperfeições de estar longe. Embrenhados nessas horas que desassossegam a psique. Que mordem as carnes, que dão forma à fome do desejo. Entre cá e lá. Entre nós. Nessa gigantesca ginástica, nesse áspero incómodo. Entre cá e lá, neste mundo de disparates, desenhar-te-ia o mundo na pele. Corpo, tela de arte elevada a qualidade. Neste percurso, percorrido entre o espaço, por saber-te verdade, aprender-te na lealdade. Restar-nos-á, nunca a fraquinha memória perdida em nenhures, mas sempre a pele despida, o mundo nas mãos. Entre cá e lá, está tudo bem. Voltas de lá, como sempre, a lembrar-nos a pressa, nesse caminho certinho e seguro. A comunicação, a presidente da união.

29.10.15

Dérbi (mais ou menos).

A boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz. Ide, ide.

6.10.15

Início de citação.

Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

2.9.15

Nomes fictícios. #3

O Felipe não quer casar. Não é uma questão de tempo ou de vivências. É peremptório. Sempre que o assunto é casório. Repete-se, quantas vezes se multiplicam as questões. Verdade lhe seja entregue, não baixa a capacidade de voltar a sacudir as letras, formando-as resposta. Afirma, de mão passando na barba desfeita, e pelas linhas do rosto, acentuadas pela nudez, que casar não é ser-se. É estar-se. Ele não é muita coisa. Sabe que está muitas outras. Por outro lado, entende-se incapaz de gostar muito tempo. Não saberia viver, suportando alguém, num longo prazo. Sempre o soube. Escassos os namoros longos. Apreciou, sem forçar, os relacionamentos efémeros. O casamento, ilusões desfeitas, não é para ele. Diz, de expressão suportada na voz e com ar displicente, que para o homem, casar é ceder o lugar. Há homens que se desfazem desde tenra idade. O Felipe não esconde a desmedida relação e atracção pelo lugar primeiro. Pelo vazio da enganada liberdade. Pelo papel principal, não fossem a expressão e o conteúdo foleiros. Seja com este, seja com outro. Nome, fictício ou de certidão.

27.8.15

Dos relhos amigos reza a história.

Estamos velhos. O mundo gira, gira e volta ao eixo, mas deixa-nos gastos. A idade não perdoa, queixumes inapropriados para a idade que carregamos. Mas parece-nos bem, soa-nos melhor. Desta forma, achincalhar a idade do momento, com putativos e prematuros acontecimentos. No telemóvel, o combinado antecipado. Voltaríamos juntos, ao lugar de outros tempos. Ao sítio e à série interna de instantes em que chegávamos e logo se apressavam a expor, na força da memória, o nosso pedido. Já éramos da casa e, largando falsas modéstias, naqueles momentos, fazíamos a casa. Tantos anos. Perdi-lhes a conta. Fica a dúvida. Éramos, certamente, seres inebriados com o encanto, tipicamente imberbe, da adolescência a despontar. Agora, adultos conversadores, de intelecto estimulado – acreditamos nisto, deixem-nos viver com isso - e com mitos desfeitos, vontades sôfregas ultrapassadas, ambições desviadas e vidas que, em grande ou pequena escala, jamais as havíamos alinhavado desta forma. Ali estávamos. À excepção do espaço, tudo mudou. Inclusivamente e em grande importância, mudámos nós. Todos e cada um à mercê das experiências acumuladas. Guardamos actualmente, claro, tantas questões, relações falhadas, amores inopinados, expectativas goradas, profissões mais ou menos instáveis, quotidianos ressentidos por tudo. Mas, sem pudor, vamos avançando na conversa. Estamos velhos. As relações são rápidas e consumidas no átimo. Abordagens há em que já não nos encontramos. Como me contavam neste jantar, uma rapariga de uns vinte anos aborda um rapaz de dezanove. Pede-lhe o número, certifica-se que tem mais de dezoito anos. Daí em diante, é fácil imaginar. Padronizou-se uma certa faixa. Eles são assim, elas também. Aqueles são os que as levam a sair. Aquelas são as que atraem. Padrão a que, parece, é fácil ceder. Mentindo, estamos velhos. Mesmo que o mundo pareça estar longe dos eixos, as coisas repetem-se. Na nossa geração, na deles, nas outras do mesmo modo. Fazer por partilhar um cigarro, ainda se faz? Deixámo-nos de questões frívolas e decidimos ir onde toda a gente vai. É bom, encontrámos muitos do nosso tempo. Estão na roda-viva da idade, alguns casados, outros cansados. Qualquer nugacidade que possa, eventualmente, sobressair deste compêndio, é absoluta simultaneidade de eventos. Mas estamos a ficar velhos, que ninguém ouse enganar-nos.

7.7.15

Aperfeiçoar até ao extremo.

As saudades de ver e conviver, ao invés, de ficar por telefonemas rápidos ou mensagens escritas, são o mote. É verão, assim chega o pretexto para marcar vontades pendentes. Nesta altura, acontece as agendas dilatarem. Aceitei o convite, avançamos numa sugestão de última hora. Grandes janelas, parece um aquário. À volta, fora as janelas, um ar tão americano que parece estranho. As cores, o chão, os móveis e os acessórios. O empregado prestável, num português compreensível. Entre a carta e o pedido, vamos conversando. Pergunta por novidades. Nenhuma, pois já as havíamos contado. Sem que lhe provocasse, diz-me que não vai casar. Nem ontem, nem nunca. Por pudor, adiei a questão seguinte. Mas desconfio que o seu feitio dedicado, a sua postura rude e a consciência no lugar certo, a afastam de relações duradouras. De, eventualmente, relações que justifiquem o casamento. Têm medo, diz-me enquanto ri. E, nessa lógica de raciocínio, é bem provável que seja verdade. Não é fácil, numa sociedade aquário, viver fora de órbita. Ser uma mulher convicta e actual, em detrimento, de parecer uma mulher normal. Quer usar saltos altos, uma LV na mão, o cabelo arranjado, lábios encarnados e uma saia ao mesmo tempo que exige sexo com prazer e solta um foda-se. Ainda, se lhe apetecer, quer calçar umas sandálias, levar uma alcofa ao ombro e uns calções daquela loja das massas, enquanto bebe um gin ao fim da tarde. Não te estragues, boa amiga. Vai levando com gosto, que não te cansas. Aquários há, que têm espécies de alto requinte.

29.6.15

Amor que substitui de vez o que era feito por provisão.

Uma história curta. Uma estória que tem tanto interesse como todas as outras. Uma conversa no meio do Alentejo. Uma casa, gente boa. Tirei uma fotografia ao sol a ameaçar pôr-se, depois de uma tarde entre conversas animadas, risadas leves, banhos na piscina e o gozo de deixar-me ficar ao sol. À frente dele, deste sol que deixa uma luz do caraças, uma casa comprida, típica como o desenho da região. Adiei a vontade de mostrá-la ao mundo. Perdeu o Instagram. Ganhámos nós, perfeitos convivas em fim-de-semana, que o vimos sem filtros. Na varanda larga, estava eu de costas para a casa, com as janelas escancaradas, porque o calor não perdoou. Nisto, oiço alguém perguntar-me o que ainda fazia ali. Já não procurava o melhor lugar para apanhar rede, pois por vencido me dei. Estou a pensar, foi a resposta. Não estava nada, que não me ocupava naquele silêncio, senão a olhar. A ver a paisagem a acontecer. Um ou outro carro, raras vezes, lá ao fundo a passar a caminho da praia. Levantei-me e juntei-me à amiga que estava de pé. Sem que lhe perguntasse nada, falou do casamento. Do seu casamento. Teremos casório lá adiante. Emoção na cara. Os olhos brilhantes, um sorriso nos lábios. Deve ser a cara da expectativa. Com esta cara, falava-me dos preparativos, do vestido, do horário da cerimónia. A avó, continuou, chorou quando a viu pela primeira vez de branco. Só percebo o casamento, se for assim, emotivamente vivido. Quando os protagonistas acreditam no amor. E deixam-se acreditar no amor que nunca acaba. Não desistem, mesmo que não o mostrem aos outros. Mesmo que vozes soem mais alto alvitrando putativas dúvidas. Vi-a a passar as mãos pelos olhos, para que não caísse qualquer lágrima. Ouvi-a num relato quase ininterrupto. E acreditei. Naquele amor, naquele casal. Mesmo que ainda não tenha em mim o sentido lato da definição irrevogável do amor que quer casamento, mesmo que ainda procure provas. O que vem a seguir, será sempre melhor. O noivo e outra amiga chegam à varanda, ela fotografa-me e temos verão numa fotografia. Que seja um amor gatuno, meus bons amigos, é o que me permito dizer-vos. Que vos tenha lesado por muito e bom tempo.

4.6.15

(Silêncio) O que é não desaparece.

Depois de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si. Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio. Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção. Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso de te ouvir para te entender. E isso eu sei.

25.5.15

Narração dos acontecimentos.

Podia contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez. Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo. Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.

20.5.15

Idiossincrasia do comum mortal.

O terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!