Faz
tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o
corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à
vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos
ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam,
foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que
alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes
disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem
experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma
especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias
pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das
juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece
desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas
e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade
no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que
aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos
acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo
menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a
ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se,
tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições
profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou
como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de
alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma
excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a
desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter
razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida
real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo
encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for
verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem,
ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a
fantasia do para sempre.
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2.6.16
23.2.16
Locutório à mercê.
Aquele
aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira,
num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa
espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio.
Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e
candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha
avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou
bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a
mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo
muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga
de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias
liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância.
O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter
surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem
desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto
possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no
fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono
de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais.
Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se
ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se
os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as
conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco,
a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda.
Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e
espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As
pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam
interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém.
Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que
vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar
o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo
algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem
cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os
anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o
resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não
há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.
18.2.16
Compensação das coisas.
Já
se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O
telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos
juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos.
Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num
jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade
exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo
como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de
longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos
noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa
conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no
carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar
simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou
menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa
e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se
não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro
já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro,
esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de
volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe
ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por
juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos
saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro
dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um
aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens,
somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de
inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.
15.2.16
Ora, atente no busílis.
Numa
sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz
com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a
fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado
com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular.
Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem
ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A
janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra
a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem
fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de
ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma
senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma
andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe
devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De
ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo.
Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics.
Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande
e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e
sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As
mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo
e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o
ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo
menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta.
Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar,
um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase
palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a
saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na
sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso,
no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história.
Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão
de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a
oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o
autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe
ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a
vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o
compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não
faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no
coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem
é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros,
esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a
dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente
de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar
luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras
escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze.
Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual
sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.
8.2.16
Um presente frio de inverno.
Enfim,
cheguei. Trazia um presente entre as mãos. O frio obrigava-me a desvalorizar
outras questões. Um casaco quente faz milagres, quando o conforto está longe.
Tão distante que preferes não lembrar. Pior, quando o encontro é frequente, e o
frio acontece. Um cachecol apropriado está no mesmo nível. Cheguei, portanto. À
hora marcada. Sem exageros. Nem para diante, nem para trás. A educação faz
milagres e não conheço alma na minha família, que não o defenda. São ferozes no
defendimento da relevância da educação, pois claro, mas não se poupam na defesa
da importância de saber receber e, melhor, de saber ser-se recebido. Numa mão,
o presente. Esperei uns instantes, os necessários para que me viessem abrir a
porta. E depois, receber. Conheci-a, ainda petiz. Tão imberbe que a memória, se
pouco induzida, perde força. Conhecemo-nos cedo. A irmã dela também. Por força
dos nossos pais, casais amigos. Sorri, entre a porta e a entrada do espaço. De
presente na mão. Devolveu-me o olhar e, num passo apressado, chegou-se a mim.
Um beijo feliz e as felicitações simpáticas. Comigo, as minhas irmãs. Fomos
amigos de infância, até que a ausência foi forçada. A distância física venceu.
Foi célere a apresentar-me o namorado. Um tipo que pendia para o absurdo, vim a
aperceber-me. A irmã dela, sempre simpática, bem vestida. Tudo isto, ela é
capaz de misturar com um ar meio snobe. E, se me recordo, é uma inspiração para
a aniversariante. A irmã ofereceu-se para me trazer uma bebida, falámos uns
largos minutos, todos monopolizados por ela. Gabou-me a farpela e o bom aspecto.
Sê simpático, pensei. E, sem esforço, devolvi-lhe. Jantámos numa mesa comprida,
cheia de gente. Muita conversa, muitos copos a pedir saúde e felicidade. Fiz
por sair no momento certo. Nessa altura, intersectado pela irmã da
aniversariante. Um convite para seguir para outro lugar e dançar até ao sol
raiar. Recusei, forçosamente. Trocámos um beijo, e voltou a salientar o meu bom
aspecto. Agora, sem presente entre as mãos, sorri e prometi que íamos ter
tantas oportunidades para tomar algo e dançar sem fim. Abrem-me a porta e, com
as minhas irmãs, seguimos para o nosso destino. O frio aborrece. A noite é
estreita. Afunila situações e junta pessoas. No compromisso, se pensares, não
há espaço para soluções de circunstância. Mesmo que lá fora esteja frio. Mesmo
que lá longe estejas tu.
14.12.15
A primeira letra.
Sentado
algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não
chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que
vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que
queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho.
A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante,
tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem
conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego
os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar
presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante,
nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade
quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar
que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento
e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas.
Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E
menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances.
Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com
cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a
respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros,
passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara
mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios
grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na
mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato,
não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu
nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem
editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é
este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar.
Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se
passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor
tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação.
Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim.
Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma
espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para
a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas
que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti,
nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca
continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo
o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e
a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um
príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a
letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.
7.12.15
Ladeira acima.
Ligo-te
depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta
verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os
ténis laranja forte, azul concentrado. New
Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão
hipster me parece esta ideia. Havia
de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se
avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de
beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de
menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas
bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os
óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de
passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para
o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção,
o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a
simpatia matinal. Por pela hipster
montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar,
insistir e não actuar. Ladeira acima, lá
vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima
no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao
ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por
ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um
trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É
relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra
liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o
ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri
sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o
bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o
carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a
mal. Quão hispter pode ser a montra
de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém.
Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a
palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.
2.12.15
Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.
No
Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros
colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa,
resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo
caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que
trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados,
perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem
pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal
e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o
sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É
assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que,
imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a
responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa
muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e
serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa.
Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante,
de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção.
Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a
arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem.
Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou
no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para
voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar
aquela imagem. Não me livrei de uma selfie
a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente.
No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona
daquelas feições?
30.11.15
A ocasião propõe a relação.
O
cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual,
engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda
não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás
habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos
conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens
insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas
inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando
um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o
esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar
desgosto pela vida alheia.
26.11.15
Em diferido. #42
Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia
silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com
cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o
toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento.
Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em
tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na
reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas,
mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade.
Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor
ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com
frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de
flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição.
Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca.
Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de
poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom
recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo
sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não
é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.
16.11.15
Entre nós.
Entre
cá e lá. Permite-me a saudade e os sentimentos revoltados que use a palavra que
continuas a imaginar colada a mim, pensar sintonizado com a picuinhice que
lembra a alma vazia, desenhar a vontade de ter certezas. Em cada palmo,
sentimentos colhidos, factos salpicados e novas perspectivas. Suspende-se a
respiração, adivinhas a loucura reinventada. Nos dedos, tintas felizes. E
desenhando, fica na pele a certeza. Na ausência forçada, um tanto instante
saborosa. Entre a distância, a despesa física e obrigada. Entre o pé aqui e o
braço ali. Entre as imperfeições de estar longe. Embrenhados nessas horas que
desassossegam a psique. Que mordem as carnes, que dão forma à fome do desejo.
Entre cá e lá. Entre nós. Nessa gigantesca ginástica, nesse áspero incómodo.
Entre cá e lá, neste mundo de disparates, desenhar-te-ia o mundo na pele.
Corpo, tela de arte elevada a qualidade. Neste percurso, percorrido entre o
espaço, por saber-te verdade, aprender-te na lealdade. Restar-nos-á, nunca a
fraquinha memória perdida em nenhures, mas sempre a pele despida, o mundo nas
mãos. Entre cá e lá, está tudo bem. Voltas de lá, como sempre, a lembrar-nos a pressa,
nesse caminho certinho e seguro. A comunicação, a presidente da união.
29.10.15
Dérbi (mais ou menos).
A
boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes
rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os
fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas
que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no
terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece
fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a
actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras
lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do
antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra
vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam
a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se
com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as
actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me
diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor
e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei
o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre
quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que
vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a
dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz.
Ide, ide.
6.10.15
Início de citação.
Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto
do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio.
Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar
com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo
que já calçou VANS, como se o mundo
fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito,
ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns
pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses,
a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora
acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até
ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que,
inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece,
depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é,
por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que
uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece,
pelo menos, até ao fim da citação.
2.9.15
Nomes fictícios. #3
O
Felipe não quer casar. Não é uma questão de tempo ou de vivências. É peremptório.
Sempre que o assunto é casório. Repete-se, quantas vezes se multiplicam as
questões. Verdade lhe seja entregue, não baixa a capacidade de voltar a sacudir
as letras, formando-as resposta. Afirma, de mão passando na barba desfeita, e
pelas linhas do rosto, acentuadas pela nudez, que casar não é ser-se. É
estar-se. Ele não é muita coisa. Sabe que está muitas outras. Por outro lado,
entende-se incapaz de gostar muito tempo. Não saberia viver, suportando alguém,
num longo prazo. Sempre o soube. Escassos os namoros longos. Apreciou, sem
forçar, os relacionamentos efémeros. O casamento, ilusões desfeitas, não é para
ele. Diz, de expressão suportada na voz e com ar displicente, que para o homem,
casar é ceder o lugar. Há homens que se desfazem desde tenra idade. O Felipe
não esconde a desmedida relação e atracção pelo lugar primeiro. Pelo vazio da
enganada liberdade. Pelo papel principal, não fossem a expressão e o conteúdo
foleiros. Seja com este, seja com outro. Nome, fictício ou de certidão.
27.8.15
Dos relhos amigos reza a história.
Estamos
velhos. O mundo gira, gira e volta ao eixo, mas deixa-nos gastos. A idade não
perdoa, queixumes inapropriados para a idade que carregamos. Mas parece-nos
bem, soa-nos melhor. Desta forma, achincalhar a idade do momento, com putativos
e prematuros acontecimentos. No telemóvel, o combinado antecipado. Voltaríamos
juntos, ao lugar de outros tempos. Ao sítio e à série interna de instantes em
que chegávamos e logo se apressavam a expor, na força da memória, o nosso pedido.
Já éramos da casa e, largando falsas modéstias, naqueles momentos, fazíamos a
casa. Tantos anos. Perdi-lhes a conta. Fica a dúvida. Éramos, certamente, seres
inebriados com o encanto, tipicamente imberbe, da adolescência a despontar.
Agora, adultos conversadores, de intelecto estimulado – acreditamos nisto,
deixem-nos viver com isso - e com mitos desfeitos, vontades sôfregas
ultrapassadas, ambições desviadas e vidas que, em grande ou pequena escala,
jamais as havíamos alinhavado desta forma. Ali estávamos. À excepção do espaço,
tudo mudou. Inclusivamente e em grande importância, mudámos nós. Todos e cada
um à mercê das experiências acumuladas. Guardamos actualmente, claro, tantas
questões, relações falhadas, amores inopinados, expectativas goradas, profissões
mais ou menos instáveis, quotidianos ressentidos por tudo. Mas, sem pudor,
vamos avançando na conversa. Estamos velhos. As relações são rápidas e
consumidas no átimo. Abordagens há em que já não nos encontramos. Como me
contavam neste jantar, uma rapariga de uns vinte anos aborda um rapaz de
dezanove. Pede-lhe o número, certifica-se que tem mais de dezoito anos. Daí em
diante, é fácil imaginar. Padronizou-se uma certa faixa. Eles são assim, elas
também. Aqueles são os que as levam a sair. Aquelas são as que atraem. Padrão a
que, parece, é fácil ceder. Mentindo, estamos velhos. Mesmo que o mundo pareça
estar longe dos eixos, as coisas repetem-se. Na nossa geração, na deles, nas
outras do mesmo modo. Fazer por partilhar um cigarro, ainda se faz? Deixámo-nos
de questões frívolas e decidimos ir onde toda a gente vai. É bom, encontrámos
muitos do nosso tempo. Estão na roda-viva da idade, alguns casados, outros
cansados. Qualquer nugacidade que possa, eventualmente, sobressair deste
compêndio, é absoluta simultaneidade de eventos. Mas estamos a ficar velhos,
que ninguém ouse enganar-nos.
7.7.15
Aperfeiçoar até ao extremo.
As
saudades de ver e conviver, ao invés, de ficar por telefonemas rápidos ou
mensagens escritas, são o mote. É verão, assim chega o pretexto para marcar
vontades pendentes. Nesta altura, acontece as agendas dilatarem. Aceitei o
convite, avançamos numa sugestão de última hora. Grandes janelas, parece um
aquário. À volta, fora as janelas, um ar tão americano que parece estranho. As
cores, o chão, os móveis e os acessórios. O empregado prestável, num português
compreensível. Entre a carta e o pedido, vamos conversando. Pergunta por
novidades. Nenhuma, pois já as havíamos contado. Sem que lhe provocasse, diz-me
que não vai casar. Nem ontem, nem nunca. Por pudor, adiei a questão seguinte.
Mas desconfio que o seu feitio dedicado, a sua postura rude e a consciência no
lugar certo, a afastam de relações duradouras. De, eventualmente, relações que
justifiquem o casamento. Têm medo, diz-me enquanto ri. E, nessa lógica de
raciocínio, é bem provável que seja verdade. Não é fácil, numa sociedade
aquário, viver fora de órbita. Ser uma mulher convicta e actual, em detrimento,
de parecer uma mulher normal. Quer usar saltos altos, uma LV na mão, o cabelo
arranjado, lábios encarnados e uma saia ao mesmo tempo que exige sexo com
prazer e solta um foda-se. Ainda, se lhe apetecer, quer calçar umas sandálias,
levar uma alcofa ao ombro e uns calções daquela loja das massas, enquanto bebe
um gin ao fim da tarde. Não te
estragues, boa amiga. Vai levando com gosto, que não te cansas. Aquários há,
que têm espécies de alto requinte.
29.6.15
Amor que substitui de vez o que era feito por provisão.
Uma
história curta. Uma estória que tem tanto interesse como todas as outras. Uma
conversa no meio do Alentejo. Uma casa, gente boa. Tirei uma fotografia ao sol
a ameaçar pôr-se, depois de uma tarde entre conversas animadas, risadas leves,
banhos na piscina e o gozo de deixar-me ficar ao sol. À frente dele, deste sol
que deixa uma luz do caraças, uma casa comprida, típica como o desenho da
região. Adiei a vontade de mostrá-la ao mundo. Perdeu o Instagram. Ganhámos nós, perfeitos convivas em fim-de-semana, que o
vimos sem filtros. Na varanda larga, estava eu de costas para a casa, com as
janelas escancaradas, porque o calor não perdoou. Nisto, oiço alguém
perguntar-me o que ainda fazia ali. Já não procurava o melhor lugar para
apanhar rede, pois por vencido me dei. Estou a pensar, foi a resposta. Não
estava nada, que não me ocupava naquele silêncio, senão a olhar. A ver a
paisagem a acontecer. Um ou outro carro, raras vezes, lá ao fundo a passar a
caminho da praia. Levantei-me e juntei-me à amiga que estava de pé. Sem que lhe
perguntasse nada, falou do casamento. Do seu casamento. Teremos casório lá
adiante. Emoção na cara. Os olhos brilhantes, um sorriso nos lábios. Deve ser a
cara da expectativa. Com esta cara, falava-me dos preparativos, do vestido, do
horário da cerimónia. A avó, continuou, chorou quando a viu pela primeira vez
de branco. Só percebo o casamento, se for assim, emotivamente vivido. Quando os
protagonistas acreditam no amor. E deixam-se acreditar no amor que nunca acaba.
Não desistem, mesmo que não o mostrem aos outros. Mesmo que vozes soem mais
alto alvitrando putativas dúvidas. Vi-a a passar as mãos pelos olhos, para que
não caísse qualquer lágrima. Ouvi-a num relato quase ininterrupto. E acreditei.
Naquele amor, naquele casal. Mesmo que ainda não tenha em mim o sentido lato da
definição irrevogável do amor que quer casamento, mesmo que ainda procure
provas. O que vem a seguir, será sempre melhor. O noivo e outra amiga chegam à
varanda, ela fotografa-me e temos verão numa fotografia. Que seja um amor
gatuno, meus bons amigos, é o que me permito dizer-vos. Que vos tenha lesado
por muito e bom tempo.
4.6.15
(Silêncio) O que é não desaparece.
Depois
de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar
pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei
particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos
anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si.
Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era
dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números
e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei
ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando
não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço
de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de
ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio.
Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as
iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão
próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de
escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me
servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a
em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção.
Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito
por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A
conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a
vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o
silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é
constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso
de te ouvir para te entender. E isso eu sei.
25.5.15
Narração dos acontecimentos.
Podia
contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que
amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que
acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a
necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a
pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito
próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas
coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo
alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era
calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e
nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas
acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois
entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga
esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas
as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez.
Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo.
Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão
garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de
cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer
as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga
tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade
que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a
nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.
20.5.15
Idiossincrasia do comum mortal.
O
terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que
esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até
à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas
com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de
outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de
qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em
que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o
copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de
horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua
maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico
de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram
onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te
cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira
humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos
momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que
me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida
certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse
não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as
emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!
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