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24.4.17

Fenómenos da sintonia.

Vem bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura. Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela. Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve. Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre – salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos encontros nunca são demais. Bons dias.

17.4.17

Nove horas e parcos minutos.

Devo trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago os olhos vestidos pelos BOSS de todas as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No carro, deixo que o jazz desenhe o ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade, mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu. Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada. Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.

14.12.15

A primeira letra.

Sentado algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho. A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante, tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante, nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas. Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances. Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros, passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato, não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar. Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação. Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim. Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti, nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.

2.3.15

Sem favores à mistura, é um ponto de vista.

Estranho, nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras, como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora. E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela, meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação – inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros. Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa sala era tão sui generis. Como vocês. Fiéis à vossa razão.

5.1.15

Prioridades biológicas de ano novo.

Diz a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais, efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole, ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca. Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver, da esplanada fria, gente a passar.

17.7.14

Míngua de opções.

Sob um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue. Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada. Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a discrição, chegou-nos a copiosa exposição.