Vem
bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os
dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e
raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de
todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura.
Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente
retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma
alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela.
Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede
meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me
e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e
o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e
abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos
físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de
que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são
todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei
de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos
nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem
reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve.
Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e
apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra
perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem
está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que
não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo
trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste
ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre –
salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos
encontros nunca são demais. Bons dias.
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24.4.17
17.4.17
Nove horas e parcos minutos.
Devo
trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que
se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e
foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a
noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago
os olhos vestidos pelos BOSS de todas
as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS
que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja
bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No
carro, deixo que o jazz desenhe o
ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao
som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou
bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade,
mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o
silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu.
Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos
vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como
sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de
dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que
engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada.
Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex
improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu
a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo
atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.
14.12.15
A primeira letra.
Sentado
algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não
chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que
vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que
queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho.
A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante,
tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem
conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego
os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar
presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante,
nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade
quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar
que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento
e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas.
Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E
menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances.
Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com
cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a
respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros,
passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara
mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios
grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na
mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato,
não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu
nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem
editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é
este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar.
Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se
passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor
tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação.
Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim.
Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma
espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para
a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas
que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti,
nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca
continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo
o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e
a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um
príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a
letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.
2.3.15
Sem favores à mistura, é um ponto de vista.
Estranho,
nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto
fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que
era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras,
como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do
que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no
centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e
não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora.
E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes
que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam
sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi
além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham
luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na
casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o
dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não
revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a
leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as
razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos
para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela,
meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um
Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não
sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem
novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros
passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação
– inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar
a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os
carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros.
Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha
parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa
sala era tão sui generis. Como vocês.
Fiéis à vossa razão.
5.1.15
Prioridades biológicas de ano novo.
Diz
a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma
procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as
chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de
situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra
que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais,
efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos
trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de
vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole,
ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem
idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe
contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a
conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De
carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me
ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei
mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a
mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca.
Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois
da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver,
da esplanada fria, gente a passar.
17.7.14
Míngua de opções.
Sob
um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor
atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele
a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre
nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas
porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer
instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as
regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue.
Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a
sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que
lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos
deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie
de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada.
Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e
compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os
tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a
discrição, chegou-nos a copiosa exposição.
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