A
televisão na frente, fina e elegante, como se vê agora, quase novidade por ali.
A estante datada, na cor da madeira bem escura. Os bibelôs a compor, a
fingirem-se moldura. Os cristais imaculadamente dispostos. Aqui e acolá os
afamados naperões, ora na mesa de centro, ora na mesa de apoio, também na de
jantar que fica mesmo no cantinho da sala. As flores naturais, frescas e
regadas, estrategicamente colocadas, para que nem o sol lhes falhe. Os sofás
cobertos, com finos trapos, para impedir a destruição do tempo. Não funciona,
mas tempera a ansiedade. Como o telefone, que sossega sobre uma das já faladas
rendas. Com números grandes, para afugentar a vista desgastada e antecipar a
chamada. Reserva-o para a filha que vive longe e para uma situação
descontrolada. A filha, os netos e outros que lhe marcam a memória, vestem as
molduras. Várias, variadas. Cada uma da sua nação, mas não faz confusão. Numa,
o marido. Paixão da juventude, amor da vida inteira. Não rasgou nem uma
fotografia dele. Trá-lo para aquele espaço e isso conforta, conforta-a. Foram
anos sem conta. Dormiram juntos mais do que souberam o que era não partilhar o
leito. Ainda ruboriza, quando pensa na primeira. E sorri. Nas costas, quase
colado ao sofá comprido, um espelho grande. Reflecte tudo. Até o cume do seu
cabelo bem penteado. Aquece-se com um lenço nada trivial. A alma afaga-a com a
leitura. Aprendeu tarde, mas guardou para que não a largue até ao último dos seus
dias. Prefere histórias reais, biografias. Na frente, a televisão, fina e
elegante, como se vê por aí, recém-chegada aqui. Fixa os olhos na dita, abre a
boca para ensaiar o discurso, mas perde-se. Larga-se num pranto, que foi bem
mais rápido, roubando-lhe as palavras. Já na noite anterior havia ficado
atónita, a observar. A violência nas ruas. A inquietude que parece não ter
termo. A gratuitidade com que se desiguala o outro. Fixa os olhos, pejados de
lágrimas, esquece-se de recompor o rosto molhado e deixa fugir que é uma dor.
Física e espiritual. E não desminto, é pernicioso. Agradeci-lhe a visita, poder
sentar-me e trocar uma prosa que foi uma delícia. Hei-de voltar. Vou voltar.
Que promessa feita, não tem como não ser cumprida. Um beijo grande e boas
leituras.
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20.2.18
31.1.18
Prosa do acaso.
O
compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não
são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem
combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem
trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito
abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O
casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que
balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode
tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e
sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz,
corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora,
tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais
houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela,
genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de
inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem
remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou
descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário,
feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços,
estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto
da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto
certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha
inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir.
Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi
atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro
abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos,
até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.
12.6.17
Marchas (im)populares.
Tenho
andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça.
Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite.
Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os
meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se
companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que
não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro
de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais.
No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade.
E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do
festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem
classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto,
mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha
com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com
chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e
franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes,
escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo
das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos.
Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar
certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se
sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma
brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e
pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado.
Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me
apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais,
perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso
no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos.
Se quer saber.
25.5.17
Afecto ardente numa 'Vespa'.
Vem
uma Vespa disparada, de azul petróleo
pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro
escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan
clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos
resguardados por uns Dior. Nos pés,
trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com
leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola
às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os
marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro
das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas.
Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os
convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e
médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao
céu. Aplausos. Ela desce da Vespa
azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e
comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como
a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase
envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de
couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com
firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o
lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e
cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa
com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As
vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida,
braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade.
Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão
e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.
24.5.17
Moralmente salutar.
As
desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as
leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas
é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E
esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é
fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido.
Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os
sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a
minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos,
em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão
felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos
novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo
da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é
tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A
diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como
naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque
das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado.
Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que
fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci
naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais
velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por
isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca
passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta
giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar.
Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas,
com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida
parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela
insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o
ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em
seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já
me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada.
Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente
bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo
vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais
felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir
contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
16.5.17
Trabalho preliminar para (a)testar o amor.
Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
9.5.17
Palanque matinal.
Ora
um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um
aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e
habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a
manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem
pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da
manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e
cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do
arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente
a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos
sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem
as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no
limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um
quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o
púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com
bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo
combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma,
que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e
volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram
desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre
gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os
tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo
como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos
recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.
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4.5.17
Sequioso estar.
O
senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um
descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o
generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere
lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é
nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha
enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão.
Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse
escasseou. É tremendo. A idade não limou
todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de
se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando
pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num
desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa
nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio
dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não
esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho
mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora
as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra
de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não
se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida.
Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles
dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente
aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.
11.4.17
Combate corpo a corpo.
Chamar-lhe
pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os
primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo.
Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma
massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem
regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos
neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último
nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar
o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às
relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos,
decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da
frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido
andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a
necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho,
assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão
corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita
frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga
o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de
viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É
um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os
sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e
ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor
irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a
prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar
neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera
do brinde.
10.4.17
Mariazinha, a dona da lhaneza.
As
verduras frescas sobre a bancada. O verde reluzente. Os legumes bem cuidados,
listados, as cores certas e os tamanhos irregulares. Os frutos em harmonia numa
cama dividida, sadios e numa troca, quase lasciva, de olhar. Têm marcas
visíveis, mas é a qualidade e a vontade de comer com certezas. Os orégãos dependurados,
as folhas de louro na mesma carreira. Os limões vivos amancebados com as limas
frescas. O alecrim apresenta-se em arranjos aperaltados. As malaguetas
fervilham em ramos inventados. As batatas têm espaço e as alfaces são amigas das
couves. As aromáticas fazem justiça ao nome. A bancada toda arranjada, sem prosápia
nem falta de maneiras. De lá, ouve-se uma receita de arroz de safio e uma
mezinha para a tosse, e de cá o pedido para que deixe ficar o saco carregado. Apresenta-se
ao serviço, apresso-me a dar-lhe honras de dona da banca, uma senhora de alguma
idade. Um pouco curva, de cabelos esbranquiçados, macérrima, de chapéu a cobrir
a cabeça. Uma bata de xadrez, com apliques de renda branca, a defender a roupa
de sair. Apetece-me dar-lhe os bons dias. E assim fiz. Devolveu-me um sabido e
agradecido bom dia. Com o ar de quem o faz há tantos anos. Logo depois, quase
sem cessar, serviu-me um sorriso gigante. Simpática e dinâmica pergunta o que
quer o freguês. Penitencio-me no vazio dos pensamentos, pois, queria no
imediato, prosa de visitante. Fotografar-lhe se não fosse ousadia. Ouvi-la
conversar. Gabar-lhe os produtos frescos. Sugeriu-me o mel feito pelo senhor
António. De resto, deixou-me à sorte das minhas necessidades. Perguntei-lhe o
nome e contou-me que é Maria. Mariazinha para os antigos. E foi assim que, daí
em diante, me pediu que a tratasse. Deixou-me fotografar o negócio montado, mas
sem que ela se assomasse à objectiva. Respeitei. Trouxe uma fotografia vestida
com a moldura da dona Mariazinha. A imagem na cabeça ao longo da manhã. E um
frasco do mel do senhor António – imagino-o de bigode, não me sei entender.
Logo eu, fraco fã de mel ao natural. Hei-de lá voltar. Nem que seja para lhe
contar.
30.3.17
Prosa servida com o som da perseverança.
Conheci
o D. ainda petiz. Éramos dois putos, imberbes como a idade exigia, aflitos na
vontade de aproveitar todo e cada momento. Às vezes menos. Mas, sucintamente,
era assim. Não me lembro do instante exacto. Mas sei que foi na primeira classe
– cuja distância potencia a minha sobejamente conhecida falta de memória. Os
anos seguintes foram de amizade e proximidade. Concluímos juntos a primária e
todos os restantes anos de escolaridade até que, à porta do ensino secundário,
escolhemos destinos diferentes. Partilhámos muitas horas, fosse sentados na
mesma carteira, fosse nos acontecimentos fora da escola. O D. era um puto
pejado de sonhos. Tinha uma característica que ele olhava com cautela, tinha-a
como sendo o seu tendão de Aquiles. Nunca lhe atribui importância, pela sua vã
relevância. O D. vivia no limite. Ele respirava fora do tempo nos momentos em
que a ansiedade tomava conta do corpo. E não foram raras as vezes em que
sucumbia aos nervos a fervilhar. Atropelava-se no discurso quando o tema lhe
importava. Desde sempre foi um sonhador. Preferia a imaginação à realidade. Não
coincidíamos em muito. Mas fomos amigos por isso mesmo. Soube, em primeira mão,
da primeira paixão. Não teríamos muita idade. Conheceu-a numa caixa de
supermercado. Trocaram uns olhares e isso bastou-lhe. Pensou nela nos meses
seguintes e voltou à mesma hora e ao mesmo local noutros dias para garantir uma
nova troca. Sem sucesso. Anos mais tarde, conhecemos uma rapariga. Nova na
escola. Foi a primeira namorada. Ela era tímida, ele também. Ela usava óculos e
isso dava-lhe toda a graça. Ele era ansioso inveterado. Ela tinha calma para
partilhar. Foram felizes até onde foi possível. Lembro-me do discurso nervoso
mas cauteloso no momento em que me contou da primeira vez. Brilhavam-lhe os
olhos e isso resumia o coração. Os anos avançaram, fomos ficando afastados, por
força da distância. Fomo-nos cruzando, sempre com a simpatia de sempre. Fui
conhecendo outras relações e uma que lhe roubou horas de sossego. As redes
sociais aproximam a informação, mas é só. O D. sempre sonhou na medida certa,
nunca foi alto demais. Porque isso não existe. O D. foi embora de Portugal.
Está num país bem mais cinzento, mas mais livre no pensamento de rua. O D. quis
um dia ser DJ. Foi em Portugal mas quis mais. Hoje trabalha num bar típico da
região. E quando pode, dá asas à imaginação. Largar tudo não é para todos. É
para alguns. Genuinamente capazes. E de convicção dotados.
27.3.17
Receio palpável num encontro inusitado.
Estou
sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas,
coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de
gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma
janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça
segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a
placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma
cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são
de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente
trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se
ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e
partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta
área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi
ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando
terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava
nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro
ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão.
O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo,
e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi,
no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista.
Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto
até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar,
agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me.
Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento.
Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na
sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir
sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que
lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no
vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador
da demagogia.
20.3.17
Efeitos de um coração bom.
Tem
as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns
sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges,
bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma
malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e
os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a
lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre
o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê
com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a
mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos
actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui
e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A
incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste
terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras
épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o
à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que
entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias.
Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que
sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção,
tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana
Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem.
Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido
que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os
grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria
ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.
16.3.17
Distintos num dia de Março.
Surgem,
logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com
o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a
comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser
turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo
indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América
do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às
pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as
saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do
país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino
pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação.
Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da
ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas
irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade
causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste
tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade,
sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido
dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não
esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto
pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os
olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora.
Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas.
Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que
não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em
suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.
15.3.17
Uma canção feita de razão.
Vinha
de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz
e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que,
passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço
a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que
imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os
caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava,
firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos
dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo,
capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos,
é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia
adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o
respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que
temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é
preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer
socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno
de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo,
apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona
de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação
forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo
animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos
estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de
tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me,
desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a
melhor das viagens.
13.3.17
Procurar entreter-se.
Na
rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta
transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a
latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma
mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O
seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe
desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem
norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos
novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e
para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de
vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas
imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem
o resto. Os tuk-tuk parecem flechas
por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do
telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se
bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à
porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado
e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a
solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma
série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos.
Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles,
desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar.
Atentas ou simplesmente esquecidas.
8.3.17
Em diferido. #56
Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num
poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do
postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira
que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar,
sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou
ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo,
sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas,
a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa
e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa,
que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os
velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa
improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira
acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de
uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não
perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A
matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir.
Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um
senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à
espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem
eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As
calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres
sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso.
Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito
aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no
joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito
relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e
tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre
com a corda toda.
2.3.17
Entusiasmo matutino.
O
dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai
sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar
insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto
sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira
feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não
havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que
não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já
de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que
recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um
atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso.
Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com
ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me
nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as
ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece
desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da
partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como
fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço
qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.
1.3.17
Ser humano do sexo feminino.
Chega
no BMW, com o cabelo arranjado, de
longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a
estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento
exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso
largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar.
Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto
generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a
marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós,
sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações
num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona
do BMW. Os olhares alheios têm um só
destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se
pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns,
conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É
puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica,
profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor
dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O
corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos,
em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher,
bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são
genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia,
difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do
outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de
existir.
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