Estive
há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um
amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a
experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo
dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas
o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura,
acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso,
perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral.
Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no
braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me
perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não
perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não
desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda
mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco
do arrependimento, quase injusto. No Instagram
uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior
que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem
que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas
de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem
entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É
uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou
pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra
foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.
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5.7.16
4.7.16
Imaginação com fundamento.
A
hora do almoço chega e somos marionetas do tempo. A manhã levanta e somos
dependentes do frenesim do mesmo. A tarde já vai longa e somos abalroados pelos
maneirismos da série ininterrupta de segundos. Não ousamos sequer pensar o
contrário. As excepções fascinam-me, acreditem. Toma chá, não sei se
imperiosamente às cinco horas da tarde, mas lembra-me os donos da quezília do
momento – os que se deixam toldar pela ideia, tão ultrapassada, da idílica
sobranceria de guardar no espaço de terra rodeado por água, a obsoleta e
falível verdade; contribuiu para isso, como se sabe, a idade avançada e as
fábulas dos votantes - Esta jovem toma chá, traz o português limpo e escorreito
na ponta da língua, tem pequenas sardas desordenadamente espalhadas pelo rosto.
O cabelo claro combina com isso. E não me recordo, como é apanágio, se alguma
vez trocámos impressões sobre o tempo. É portuguesa e o físico quase que a
desmente. Voltamos ao chá, toma-o a que hora lhe aprouver, e traz o sorriso no
rosto, os saltos altos escondidos numa mala, os rasos nos pés e a revista na
mão. Lê a GQ e a VOGUE internacionais, escreve prosa bonita e poesia atrevida. Foi a
menina da praia e do surf, das ondas repentinas e rebeldes. Cruza as pernas e
tem tempo para pensar. Defende a confiança, a entrega e a competência. Maldiz a
rotina, o comodismo, a lista de tarefas e a ficção entre pares. Atrevo-me a
apelidá-la de mulher de sucesso, mas mais importante, mulher de sucessos. Como
não raras vezes lhe atirei. Bem sei, não é sistema para todos, tampouco, para
qualquer um. É, também não desminto, uma privilegiada, com uma bagagem que a permite
ser como e quem é, sem prejuízos de maior. Mas é feliz e é a sombra reluzente
de que há mais para lá da escravidão do tempo. Um livro ao adormecer, ganas ao
levantar, chá ao entardecer e o sonho a insistir, faz por ti. Uma grande parte
e sem espinhas.
22.6.16
Lugarejo com raça e no coração o ensejo.
Os
lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso
de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário.
Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é
pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas
mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz
a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores,
soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a
única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de
encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente
em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu
axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da
bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir
as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das
antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma,
vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo
e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas
rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e
carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os
carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece
reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira,
tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço,
apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente
lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e
esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e
pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem
traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma
literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão
encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes,
como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente,
tampouco o passado.
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
8.6.16
Inelutáveis circunstâncias.
Oiço,
de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo?
É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que
vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou
um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado
pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música
segue os tempos de cada um pejado de guilty
pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais
erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música
avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso
maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão
do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande
pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste
alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na
procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que
sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete,
claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais
adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita,
conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música
clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que
quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o
que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o
conhecimento guardar.
6.6.16
Vai indo, como a chama quer.
A
vida roda, os pombos não perdoam. A cidade está num filme de publicidade. Mais
à frente, no jardim de nome bonito, passou um cão pela trela, soltava uns
latidos baixos e avançava nuns pequenos saltos. Era branco e castanho, a fita
encarnada e as orelhas pregadas ao alto, assumindo um modo de viver muito
próprio. Quem o levava, sorria e dizia bom dia. Debaixo do braço, o jornal
matinal. Aqui, na esplanada de primavera, enquanto o café espera, é dona da
mesa o jornal do dia e a leitura em continuada actualização é a única razão da
pausa e do intelecto a questionar a acção. O jornal tem cheiro e mancha as
mãos. Tem no negro a palavra escrita, noutro tom as chamadas de atenção, um ou
outro pormenor. A notícia contou-me alguém, não é morrer na teoria. O quê,
onde, quando. É, sempre que esteja alinhada a razão, a subjectividade porque
não és objecto. A trincada verdade de mãos entrelaçadas com as palavras exactas
e sem excessos. Enfim, o jornalismo é um crédito que, entre ameaças tentadoras
e reflectidas, vai sobrevivendo. O descrédito não assaltou ninguém por acaso,
de rompe sem quaisquer justificações. As pessoas, as entidades, as empresas.
Todas, num rol de dúvidas perpetradas pelo punho de uns tantos. A nação e a sua
soberania ameaçadas em plena claridade. As vozes que se atropelam e a descarga
de culpa que parece infringir a inteligência do povo. Esqueçamos, por ora, a
vergonha. E lembro-me do jornal diário, sempre em casa. E de como um fato
escuro, uma gravata no mesmo tom e uns sapatos limpos combinam com umas meias
pintalgadas, qual dislexia efervescente da cor e um discurso de esquerda.
Assumidamente defensor da ideologia e, sem despromoção para o que acredita,
veementemente simpatizante da vida como ela é. Não confundir ideologia com
religião. Não esquecer que a última pode tomar definições díspares, conforme a
cabeça que a entende. E, no fim, o que conta é a informação. Tenhamos as mãos
tingidas ou não.
2.6.16
Numa espécie de corrida a favor da psique.
Faz
tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o
corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à
vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos
ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam,
foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que
alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes
disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem
experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma
especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias
pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das
juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece
desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas
e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade
no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que
aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos
acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo
menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a
ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se,
tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições
profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou
como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de
alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma
excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a
desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter
razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida
real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo
encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for
verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem,
ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a
fantasia do para sempre.
31.5.16
Em diferido. #49
Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom - Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.
30.5.16
No gira-discos da tua casa.
Cruza
as pernas. Descruza as pernas. Volta a cruzá-las. Leva a mão ao cabelo
arranjado, todo puxado. Os olhos já são belos, ficam com a maquilhagem ainda
mais esbeltos. Os sapatos altos na outra mão. É admirável a confusão. O vestido
parece que voa e não tem descanso. Apetece-lhe da boca largar um palavrão.
Pensou no cigarro, mas já lá vai o tempo da iludida sensação. Aquieto-me, à
espera. Invento outro pensamento. Fotografo para passar o tempo. Os lábios
atraentes, no desenho da tentação. Fi-la ficar a preto e branco e liguei o
gira-discos. Tal como o aparelho, o disco do mais vintage. É maravilhoso guardar o retrato. Envia um beijo com a mão
e a postura é atrevida. Assim, neste frenesim, aconteceu neste dia e nos
restantes. Foi amor à primeira. Separação na data verdadeira. Ficámos amigos
para a vida inteira. E não me engano. Que o amor fora apertado e profundamente
sexualizado, mas a amizade é, no mínimo, um prazer danado. Talvez, também por
isto, não neguemos a admiração. E não desmentimos. Amar é partilhar. Mas não
será errado sugerir que amar é admirar. Pisca-me o olho desse jeito. E vamos
morrer com a amizade viçosa, a memória com genica e fruitiva prosa. E que nunca
nos falhe a música boa e o vinho de fina casta.
23.5.16
Uma manhã qualquer.
O
sol olvidou-se. A ameaça é constante. As meninas da recepção, entre o dedilhar
no teclado com as unhas gigantes e o atendimento que as distrai, choram a
ausência do calor, dos dias grandes e da praia a perder de vista. Já ninguém
tolera a questão. Ameaçam-se os céus e os santos. Adiante, que o que lá vai não
é nosso. Ouvi, assim que passei o corredor iluminado pelas vidraças gigantes.
Um senhor e uma senhora, que imagino casados, trocavam a prosa sabedora.
Ficámos à espera. Um pequeno rapaz faz birra e garante que não quer estar ali,
o irmão ainda menor brinca com carrinhos no chão e guarda outros tantos na
mochila. A mãe ameaça abandonar o propósito que os mantém ali e seguir para a
escola. A televisão, silenciada, esboça uma apresentadora animada numa conversa
cujo tema revela toda a maestria do conversador matutino. No telemóvel as redes
estão ligadas e no Instagram já se
vêem biquínis coloridos, praias a enquadrar e sumos de cores berrantes,
aludindo, claro, aos últimos cartuchos da anterior época balnear. No Facebook somos todos qualquer coisa,
conforme o dia apeteça. As notícias frescas, os acontecimentos que fervem e não
deixam sossegar. Recebeu-nos com o sorriso rasgado e a amabilidade de sempre.
Não os sabia por aqui, façam favor, adiantou enquanto nos encaminhava. Havia,
por certo, tempo demais que não nos cruzávamos. Daí, a surpresa. Gabo-lhe, sem
cerimónia, os seus bonitos suspensórios. Louvo a aparente extravagância, que do
termo nada tem. É uma mistura do estilo com a vontade. E, contra a última, nada
há a fazer. Num xadrez preto e branco, imitando o tapete de um jogo. Sobre,
imagine-se, uma camisa na cor do vinho. Em simbiose exacta com a gargalhada
característica. Não se engane o povo, o risco é falecer. Tudo o resto, mais
cedo ou mais tarde, há-de chegar e, se não for moda, ficar. Um aperto de mão e
já garantimos a manhã.
16.5.16
O putativo lesado e a sua barba rija.
Vem
de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem
preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem,
numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu
relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade.
A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou
do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da
navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta
revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede
o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o
que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à
mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre
gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto.
Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a
favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já
não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa
do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que
ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a
necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua.
Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No
fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o
intelecto, abusar dos hashtags. Isso
e do português correcto.
18.4.16
Em diferido. #48
Foi
num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua,
singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda
assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases
feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção.
Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
14.4.16
Breviário sobre o espaço e o tempo.
Assomou-se
à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não
abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa
madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o
olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado,
avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O
tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram
entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os
lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro
e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos
do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas
numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar.
Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou
visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara,
mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da
passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos
passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor
com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de
grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da
minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas
impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas
de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o
chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda
me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na
mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre
frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio.
Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos
nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.
13.4.16
Um dia.
Desconfio
que me canso, a passos largos, de algumas conversas, até de posturas. Um tanto
inócuas e frívolas, outro tanto desonestas e até sádicas. Mesmo que carregues
um sumo que sustenta a ideia e a necessidade de limpar o corpo. Uma revista de
nome pomposo na outra mão, uma maçã na algibeira e outra num saco que tem as
iniciais estampadas. Assim se faz a corrida matinal do contratempo. Ou é acaso.
Que, com prejuízo, relegas para outras horas a limpeza do tronco humano. Se
acreditares, da alma também. Ainda agora demos o primeiro passo do dia, já vai
ameaçando cansar. Chegas e ouves vozes baixas, passos leves e cafés nas mãos.
Sorriem com a facilidade de um manequim dentário. Devolves, se o senso te
permitir. Na pausa maior, há almoço marcado. Levas a maçã que não te deixa
sossegar, os óculos de sol elegantes, o casaco bonito e o perfume preferido.
Somos uns quantos, alguns nunca vi. Avançamos numa conversa com passo, tema
livre. A paixão de uns, o desamor de outros. Levam-se, estes ritmos, à ficção
da exaltação. Que a vida cospe, mas não há como mudar certas vicissitudes.
Neste barco, adiante até ao despique da tagarelice. O sexo oposto chama a
atenção. O trabalho efectivo ou o desejado em cima da mesa. O olhar atento para
com os refugiados. Aqui, ganha espaço o indouto. Não replico se não for caso
disso. Se não se aprouver de importância o ser que vocifera alarvidades. Ao fim
do dia, com tudo em caminho da pausa. Ganho a certeza de que me venho cansando.
De determinadas conversas e de gente salobra. Dá-se a sorte de me rodear de
pessoas boas. Uma certeza destrói o putativo. Mesmo que irrompa inopinadamente
no nosso sentido.
11.4.16
Apresentar como qualidade habitual.
Ora,
vejam lá. A senhora lavadeira nas horas que deveriam ser vagas e cozinheira
naquele restaurante a tempo inteiro lê nas horas vazias. Ora, fechem as bocas
que o espanto ainda vem a galope. Que não lê as gordas do jornal genérico nem esmiúça
as fotografias da revista semanal cujo objectivo é saber da vida alheia. A
senhora, de cabelo aloirado, com as raízes a gritar, de avental aos quadrados.
Aqui azul, ali branco. Aqui azul, ali branco. À cinta, uma tira de tecido florido.
Adelgaça a mesma e faz lembrar a primavera. Põe sobre os ombros, para compor a
vestimenta, um casaco de malha. Azul silvestre, avançou. Fala com pressa, a
língua não se atrapalha e, se for o caso, ainda trauteia umas canções de
Roberto Carlos ou da Dina. Prefere o cancioneiro português e brasileiro, ao
invés, das desculpas que Bieber vai gritando em cada esquina. Conhece o pequeno
do outro lado, porque a neta ouve a despropósito todo o santo dia. Um ramo de
salsa na mão, viçoso e airoso. A mão esquerda leva-a ao brinco que não quer
guardar o lugar. Sem que fora preciso perguntar, não guardou a palavra e deixou
passar que é dona do seu nariz, vive ali há tanto que já olvidou e com o seu
homem se casou. Teve dois filhos e um emprestado, comprou o vestido com o
dinheiro que ganhou numa casa de fado. Sonhou ser professora de meninos
pequenos, perdeu a sorte e ganhou o palato apurado. Com o casamento, veio o
restaurante, foi a menina do balcão, serviu às mesas até ao dia em que a
cozinha lhe recheou o coração. Hoje é mãe e avó, ri com gosto e fé, põe as mãos
na anca e afinca o pé. Quando a noite já vai perdida, encosta a cabeça no
travesseiro alto e lê a companhia de cabeceira. O marido já dorme, ela lê Mario
Vargas Llosa. Conheceu-o aquando da atribuição do prémio Nobel. Daqui a pouco é
manhã. O sono sumiu-se num nada, há gente para cuidar, roupa para lavar e
engomar e um restaurante para comandar. Ora, vejam só. A cozinheira de mão
cheia tem na arte a compreensão. Fá-lo tão bem, que gere o tempo de forma a ler
depois do serão.
7.4.16
Autêntica cegueira moral.
Bem
petiz, aventurei-me no golfe. Tampouco consigo avaliar como é que me deixei
levar. Uma certa sobranceria da idade, avessa a desordens que nada me
convenciam, batia de fronte com uma outra. A sobranceria de menino bom e de bem
aplicar-se nas letras e contas, ajustar-se na cordialidade de ser um bicho social
e de comprometer-se com o desporto. Fui longe noutra modalidade, uma vez mais,
sem pensar. Nessa, apliquei-me com vontade. Fui desprovido de pensamento, fui
sempre na vontade de chegar mais à frente. Ganhei medalhas, títulos e louvores.
Para despromoção do que escreve, ganhei sempre ao nível do que me permiti
competir. Sempre nivelado pelo campeonato dali. Nunca fui campeão de coisa alguma,
sempre jogador nas horas desprendidas. Valeu pela aprendizagem. E, sem
desprimor, para a labuta física e intelectual. Nisto andei até ao dia em que,
nitidamente, a justiça não morava no lugar certo. Não adianto prosa, por dela
não ser merecida. Volto ao mote. Sujeitei-me à ventura. Experimentei o golfe.
Os termos e os ensinamentos sem fim. Éramos três. Eu e mais dois amigos. O
professor já o conhecia de outros afazeres. O taco certo, a posição enfadonha.
Esmoreci ali. E, outra vez, questiono-me como é que permiti ali chegar. O
professor era sabedor, aplicado e não deixava de repetir. Até ao dia em que, a
comande de superiores, a nós juntou-se um outro miúdo. Da nossa idade,
inspirado. Ao contrário de nós, pelo golfe entusiasmado. Apercebi-me, logo
cedo, que a atenção dispensada era amplamente díspar. O novo companheiro de
golfe vinha ao abrigo de uma instituição. Portanto, sem mensalidade. Bem petiz,
aventurei-me no golfe. Não fui além das três aulas. Porque, já naquela idade, a
altivez descompensada, já me incomodava. Não sou boa pessoa. Sei bem disso e
não proclamo o contrário. Contudo, em tempo algum, hei-de de compactuar com mimetismos
de gente acéfala. A sociedade morre aos bocados. Se não a remendamos, perde-se
para sempre. Ontem, volvidos estes anos, ouvi alguém relatar, em sofrimento, o
preconceito para com a neta. Não interessam os motivos. Caduca um pouco mais a
validade da sociedade sempre que alguém não acede ao que lhe pertence. Ao que,
por direito, é dela. Marcam-se pessoas. E os imitadores de coisa alguma seguem
em frente. Neste caso, falece a crença numa sociedade que convive em harmonia.
Já em petiz pensava. O seu a seu dono. Para o bem, assim como, para o mal.
4.4.16
Saúde e alegria sobre rodas.
Alguém
que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for.
No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto.
Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado
passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos.
Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile
de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a
bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a
condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora,
uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o
nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de
liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não
saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num
caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura
e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei
como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem
veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão
quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou,
antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a
mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando
fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que
morrem na calçada e de tomar notas no iPad
que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não
menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.
31.3.16
Em diferido. #47
Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela
gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua
enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade
de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à
vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou
no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e
os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal
utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo,
porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível,
não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda
existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá,
onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido.
Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois
de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica
lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história
relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei
e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava,
daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme.
Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão
apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura
tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. –
Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia
invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.
30.3.16
Ainda se dirigem escritos fechados.
Chegou
bonita, requintada, com sabor a curiosidade e adornada com a certeza de que o
conteúdo, em tudo, suplantava o embrulho. Ainda assim, a elegância, tal como me
lembro dela, está, em tudo, desenhada. Chegou esta manhã. Há instantes, numa
pausa, a minha irmã mais velha deu-ma para ler. Não nega o remetente, pensei. É
uma amiga da minha irmã de longa data, tanto que perdi a conta. Eu, na altura
um petiz, julgando-me cheio de prosa e piada naturais, conheci-a. E, sem razão,
entendemo-nos muito bem. A simpatia e maturidade fazem o feitio reluzir. Ela
fê-lo na medida. Lembro-me, numa das vezes, de ficarmos presos numa conversa
sem fim, numa qualquer discoteca lisboeta. De lá até hoje, fomo-nos cruzando
raras vezes. A minha irmã e ela mais, mas não tantas quantas as desejadas. A distância
rouba-nos demasiado, mesmo quando parece ridículo. Nasceu, algures nesta
ausência e tempo corrido, a troca de cartas entre ambas. Em todas, uma
referência a mim e um beijo enviado. Obviamente, peço que a minha irmã lhe faça
chegar as minhas intenções. Esboço, enquanto leio, um sorriso, porque, afinal,
ainda se escreve na língua materna e num português imaculado. Numa folha lisa e
com caneta. Embrulhada num sobrescrito. As memórias assaltam-nos, o presente é
contado e o futuro é imaginado. Agradeço sempre à minha irmã pela partilha. À
amiga também. Numa carta, chegam palavras repletas de simbolismo, que servem
aquilo que nos faz bem e desenham, no mesmo patamar, aquilo que nos incomoda.
Li felicidade na mudança e uma certa mágoa de um presente que lhe deu vida. Um
beijo e a inegável vontade de voltar a cruzar-me contigo, numa prosa e piada
igualmente naturais, com uma pitada de maturidade. E que me perdoes a afoiteza
de outrora e de hoje.
29.2.16
Os tempos da dama.
A
chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O
burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e
ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco
vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos
lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o
frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na
dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na
passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os
quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico
brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria.
Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao
peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas,
como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de
barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato
perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e
sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer
coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e
carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto
atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a
mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca.
Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento.
Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca
de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes
e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste
caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma
excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o
presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade
atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou.
O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita.
Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim,
garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a
intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos
que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram
capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela
certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa
é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer
axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na
lapela.
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