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27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

22.2.17

Em diferido. #55

Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

15.2.17

Perorar em favor do bom senso.

Não detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas no que avento serem exercícios de Yoga. Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios, elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe. Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera, alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz. Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito, garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso, sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.  

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

7.2.17

Escassa produção de razões sobre “eruditos” compostos.

O soalho de madeira antiga não deixa margem para putativas verdades, vem gente. Denunciada a chegada e depois do bom dia habitual, reparo que traz uma revista debaixo do braço. Uma conhecida, cuja temática interessa, maioritariamente, aos homens. Já não compro revistas como dantes. Algum desinteresse, uma ou outra falha nos conteúdos, a coerência deixou-se corromper e os artigos falham na ordem. Salvo raras excepções. Restou-me uma desabituação que perde razão e não convida a fundamentação. Já não sei o nome da revista que li há uns meses. Dissertavam, alguns conhecedores, sobre a moda. A democratização e a exaltação. Confundem-se e divergem, como se não soubéssemos. A moda de rua ainda tem trejeitos que interessam e, sem desprimor, atestam e desafiam a moda de passarela. As cores são pontos de honra a cada estação a começar. Os tecidos e os cortes, as medidas e os corpos não perdem importância. Escrevo sem conhecimento de causa, pois a moda na minha existência não ultrapassa o que visto. O que me parece bem fica, o que não me atrai vai. Simples quanto isso. Arrepio caminho, escassas vezes, numa ou noutra peça que diriam os puritanos, é extravagante. Um assunto que não esmorece, porque como já ouvimos um sem número de vezes, a moda é cíclica. Não me acanho, mas não sou corajoso no instante em que me perguntam a opinião. Ou reconheço harmonia ou não vejo qualidades no que respeita à conjugação. Contudo, aceito de bom grado – e prefiro - uma companhia que opta pela verdade do que lhe assenta. Longe de ser um tipo cuja indumentária é um exemplo, prefiro assim. Embora, não poucas vezes, se me dirijam elogios que agradeço. Nisto como noutra temática, não importa a carapaça. Um dia sentas-te e ressaltam umas meias divertidas. Nunca se sabe. Que ganhe o melhor. De ti e para ti.  

6.2.17

Virente memorizar.

Rabiscar a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.

2.2.17

A totalidade do que passa ali.

O casario guarda os tons quentes, mesmo desmaiados pela corrosão característica dos tempos. A rua ladeada de uns poucos automóveis, as senhoras cobertas contra o frio, a idade pesa-lhes nos ossos e na carne, tremem se as raízes desmoronam. Vêem passar e não perdoam a habitual troca de palavras. Tão simples, quanto quotidianamente necessárias. Gesticulam com um braço, o outro desagua na bengala que fingem segurar. Vão, pé ante pé, até aos bancos ripados do pequeno jardim. Uma espécie de centro de dia a céu aberto. Onde se esquecem do mundo e se esquecem delas. Imagino-as tagarelas, outras vezes tufadas. Compete-lhes descontar horas de um dia que ameaça não ter fim. Outro destino vem lá, longe de entender, capaz de desencontrar gritos. Traz os cabelos encarnados, ora ao vento, ora tapados. Chama a atenção o fogo que nasce da imaginação. Aí, assoma-se uma incansável capacidade de recordarmos histórias de encantar. Não deixamos passar o cinema francês, as suas questões do amor sorrateiro e as silhuetas atrevidas. Julgo-a num desfile diário, leve e segura para lá, nos mesmos moldes para cá. Traz os cabelos encarnados, num tom vivo e viçoso, enrola ao pescoço um lenço de fina seda e no rosto mostra um jeito seráfico. Não conheço a sina, os queixumes e as vitórias. Não sei nada. Mais destemido vem um cão de pequeno porte, a ladrar ao mesmo tempo que imita um cavalgar desencontrado. Só sossega quando chega juntinho às velhas senhoras. Parece-me pertença do grupo. O dia está coberto e adivinham chuva e tempo agreste. Capricho ou não, deixam-se ficar. Acredito, dos velhos corpos e das mentes saturadas, há-de sempre nascer sabedoria. Reinventar-se em cada troca de impressões e olhar-lhes nos olhos. Até qualquer dia.

1.2.17

Cálidos acontecimentos.

Deixei cair o meu telemóvel nas escadas de casa. Fez o percurso esperado, degrau a degrau, até ao soalho final. Deixou mazelas físicas, graves. Das irreparáveis e capazes de contusão feroz num qualquer coração dotado de sensibilidade. Não foi o caso, que sou avesso à partilha de sentimentos avulsos, a antítese de um basbaque a todo o tempo. Brinco, mas não desminto. Isto, dias antes de ser confrontado com o relato magoado de uma traição. Não a frio, que já me havia relatado a separação, bem como, a fragilidade e o olhar mais caído, que denunciaram. Estou longe de ser o que aponta o dedo, o que reclama pela verdade alheia. Cumpro-me nas minhas convicções, acções e reacções, fugindo à badalada e profundamente desleal necessidade de lembrar que não estiveste bem. Longe de defender ou promover a traição, seja em que termos e condições, afasto-me dessa tentação do facilitismo, da corrosão ainda mais vincada do outro. Prefiro opinar em última instância, apenas e só, se solicitado. Nessas alturas, recuso a mentira, mas escolho a prosa alinhavada com as palavras que aparentam ser as mais confortáveis. O olhar baixo, vindo de alguém tão próximo, a dor de magoar o outro, não me deixam indiferente. Também por conhecer o outro lado e, sem cerimónias, lhe atribuir uma genuína forma de estar, uma entrega e um sorriso que desmontam putativas dúvidas. Se me perguntares, agora e só agora, dir-te-ia que não me revejo na atitude e que, relembro, neste instante e só neste, não mimetizaria. Porque quero sempre encontrar a solução ideal. Mas não me iludo, essa não existe. Quiçá, no momento seguinte, me veja trôpego e ceda à minha verdade. Nessa alegoria às relações perfeitas, desmancham-se objectos e objectivos a cada passo. A metáfora não magoa, mas a palavra balança nessa recta que amedronta o desfecho. O subjectivo é desvalorizado e as marcas da queda são relevadas. Se te segue a culpa, não deixes que o espírito perca. Nessa definição das relações, a perfeição arde antes mesmo de existir. Um passo atrás para garantires dois adiante.

31.1.17

Entre a chuva que maça e o bom dia ditoso.

Não me canso de ver passar, observo sabendo que o melhor do outro está sempre a atravessar, enquanto o melhor de mim arquitecta a mais imponente e, não raras vezes, incoerente instalação. Respiro no compasso. Chove e chove com fé. A mesma que escorrega, fina e desesperada, pela folga dos dedos. Mas essa é matéria para outro eventual aranzel. Vem lá a rapariga que foge dos salpicos, hirta sobre os saltos altos, a mala bamboleante, o chapéu na cabeça a esconder-lhe os olhos bonitos. É a simpática de todos os dias. Desde que larga o seu Mini bege até que chega ao escritório. Ela pega nas pessoas e leva-as no colo de um sorriso bem sincero. Chove e chove com vontade. As senhoras da recepção dedicam as horas ao lastimo da água que cai lá fora, intercaladas com o chamamento do sol e com o trauteio das letras da Kizomba que não dá descanso. Exibem as unhas de gel feitas pela filha da Odete, a Carina que, desde meados do ano transacto, trabalha no cabeleireiro da Dina. Logo se vê, o negócio capilar e afins, ainda recruta conforme o nome de baptismo. “Dina Cabeleireiros” ainda tem saída. Praguejam como se o mundo tivesse perdido a lucidez. Não é mentira, não. Enviesados vão os tempos. Disformes, as acções que ficam escondidas na oratória desleal. Nisto, acomodado neste frenético evento matutino, soa o meu primeiro nome seguido do apelido. À minha espera, o sorriso de sempre. Vejo tudo isto e não me deixo fatigar. Bom dia, deixei-lhes ao sair. Desejo vida longa às unhas de gel e à executante, um verão tão longo quanto capaz de saciar, e umas valentes horas com a rádio nacional como companhia. Desce sempre em mim uma nada escusa vontade de acreditar no modo inócuo de a vida levar.

30.1.17

Verosímil simpatia.

Vem de longe a minha, mais do que simpatia, admiração pelo genuinamente bom. No mesmo sentido, noutra e maior escala, vem de um ponto que se despede de memória, o meu sentimento de reverência para com as pessoas boas. Não acontece ser um apontamento fugaz, uma voz que deixa aqui, entre a luz do sol e a penumbra da noite, a tentação de fazer parecer. Fá-lo sempre, seja sob o brilho que irradia, seja sob o escuro do destino fatalmente taciturno da noite. Dá-se a sorte no momento em que não fujo à verdade de, sem modéstia, lembrar que conheço gente boa. Mulheres e homens que vivem por e para se dedicar a causas tão terrenas quanto necessárias. Sem que belisquem a individualidade e deixem fugir a vida. Que são fiéis à psique evoluída, ao coração que bate certo e não se deixa indiferente, à carne que não sucumbe ao medo, e que se cumprem no caminho inverso da avalancha que a sociedade atesta. Afasto-me, com a devida vénia, dessa definição. Serei alguém que procura medir a razão e a convicção interna, bem como, no trato com o outro. Fico comedido perante a dimensão da bondade alheia. Também de longe, vem a minha amizade com um tipo que não tem escala. Antes mesmo do tempo em que me apelidava, num tom jocoso, de beto. Respondi-lhe sempre que sou um fruto do acaso. Rimo-nos tanto, que as esperanças eram seguir o trecho do que haviam desenhado para nós. Volvidos estes anos, somos os mesmos. Ele insiste na promoção do bem. Investe no corpo e na alma. Viaja sem destino para o lugar que lhe guarda o fado e a lucidez. No nosso último encontro, dois dias antes da viagem que se seguia, fomos para um lugar de encontros antigos, numa sala reservada para nós, a conversar e a lembrar sem equívocos. Éramos seis à volta de uma mesa improvisada. Que este é um tipo que não escolhe o design. De cerveja na mão, de calções e t-shirt, de sandálias no pé, falou, uma vez mais, com mérito. Hei-de de escrever sobre o meu amigo que é amigo da vida. Dias depois, havia de receber um e-mail dando conta da sua saída das redes sociais – na verdade, da única que utilizava e de forma bastante breve – no mesmo, continuava com um texto que se curva no desejo de voltar a ouvi-lo. Demos um abraço forte. O tipo bom, que tem prosa bonita e sandálias de couro e o tipo que agradece a amizade, calça sapatos bonitos e ténis da moda, dá o braço à perseguição de fazer melhor e que, sem prejuízo, continua a afirmar que é um beto do acaso.

15.9.16

Em diferido. #53

A calçada contada - Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastece-se na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

5.9.16

Em tempo de calor.

A noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente, disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.

22.8.16

Poesia dita e um pacote de leite.

Prendeu-o, há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso, dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento, sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar no Facebook. Pediu-lhe um contacto. Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e, segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos. Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de poesia e leite de arroz.

8.8.16

Entre o auge da tarde e o final da mesma.

O ambiente é de férias. Um paraíso tão próximo. As palmeiras quase que cedem à calma, nada balançam, têm o tom viçoso, envolvem o espaço, compõem a vista e deixam imaginar o resto. Vêem-se as ondas claras lá ao fundo, a espuma a tecer borbulhas. As espreguiçadeiras cheias, as cores do verão salpicadas pelo areal. Aqui, sentados num lugar bonito, numa mesa privilegiada, ladeados pela piscina, envolvidos pelo frenesim de quem trabalha contrastando com o sossego de quem descansa. As mesas, tal como a piscina, estão lotadas. Na água, entre mergulhos desgovernados, salpicos desorientados, saltos invertidos, braçadas e braçadeiras, óculos de mergulhador e bóias de diversão, risadas fáceis e chamadas de atenção, estão novos e velhos. Em ameno convívio veranil. Ouvem-se línguas diferentes, sotaques também. Não falham os fatos de banho, os biquínis, os calções e, claro, os óculos de sol. Alguns arriscam numa indumentária mais formal, impecáveis ao fim da tarde. Servem-nos uma bebida fresca e bastante agradável, outros entreténs a seguir. Falámos tanto, mas não esgotámos prosa. Ao lado, uma senhora de honrosa idade joga as mãos à cabeça loira sempre que o neto escapa dos braços do avô e joga-se sem medida para a água. Depois, duas jovens partilham outra mesa, não se olham, não trocam uma palavra e fumam umas cigarrilhas e, parece, passam assim a tarde, entre uma aspiração e outra. Chega ao recinto um senhor cuja espécie de tanga reduzida parece trazer a via láctea em exposição, a camisa aberta e solta, chama a atenção. Segue caminho, airoso e divertido. De gente comum também se enche a zona. Em tempo algum são esquecidas as fotografias para o Facebook e Instagram. Os vídeos animados para o Snapchat, a anunciar que são felizes no verão. Fomos embora, dali a nada aconteceria um jantar demorado, com gente que nos importa. Não sem antes me gabarem a camisa. Não faço questão, mas não digo que não.

2.8.16

Ataviar o verão com a bonita canção.

Solta uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras. Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor. Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho, música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.

25.7.16

Bons amigos (bons).

Caravaggio, cuja origem do nome, embora escusa de relatos maiores, é um empolgante regresso às origens. Já lá vão uns anos bons desde que mo apresentaram. Escrevo como penso. Foi um amigo bom, daqueles meio sacanas e atrevidos, que guardam no intelecto e no geral, bem mais do que o azougar nas horas vagas. Do que acautelar os instintos na sede da pele. Que, não vamos retirar o crédito devido, também é importante. Não será, em tempo algum, de somenos relevância. Mas voltemos ao artista, ao outro. A Caravaggio e à sua obra. No passado, quando eu era bastante jovem, miúdo até, contou-me o seu percurso, influência e irreverência natural. Esse amigo, em abono da verdade, amigo do meu pai, depois por convivência, amigo da minha mãe e, por inevitabilidade do destino, meu bom amigo. Eu, um petiz interessado, ele um homem sabedor, conhecedor do mundo e das voltas que dava. Levava Portugal num bolso, como fazia por repetir e voltava com o mundo no peito. Arranjei-lhe, na imaginação, um peito que não tinha fim. A altura e robustez do tipo ajudavam. Paulatinamente, fora revelando-me mais pormenores, outras obras. Ganhei, se não for exagero, um certo fascínio. Pelo homem e pelo artista, pelas obras igualmente. A enumeração serve a ambos. Ainda converso sem fim com este homem grande. Hoje de cabelo grisalho e dono das mais convincentes histórias. Cruza as pernas e esse pode ser o mote. Fora solteiro até tarde, casou por amor e ganhou. Só acrescentou. Hoje de corpo ainda vivaço, não pega num cigarro e dá corda aos ténis. Traz um livro na mala e esse pode ser o mote. Hoje ainda enche o bolso da nacionalidade que não esquece. Enche o peito de folgo, faz-se ao mundo e volta cheio. Esse pode ser o mote. Tal como Caravaggio fora lá atrás.

19.7.16

Em diferido. #51

Gente com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.

7.7.16

Relação de intensidade.

O calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento, alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite, rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E, com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é, noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.