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4.2.15

Em diferido. #27

A berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

9.12.14

A berma de um Portugal igual.

Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.

6.5.14

Em diferido. #8

Bastam-lhe sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo. Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas. Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro. Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas, chorou.

14.2.14

Sessenta segundos.

A vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo. Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas. Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro. Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas, chorou.

4.12.13

Os auto-retratos têm concorrência de rápido consumo.

As redes sociais têm o dobro dos propósitos. São uma montra de egos aumentados, por razão da idolatrada acção munida de um infindável número de likes a chamar a atenção dos mais distraídos e revela, na mesma escala, as fotografias e os enrugados textos curtos, de pequeninos e diminuídos pela coçada auto-estima. Do outro lado, estão as ofertas irrepetíveis. As que nos merecem mais do que um like desinteressado, que marca apenas, tão miseravelmente, a nossa presença. Acontece, que se mostram, de privacidade honrada, os momentos que nos reportam para vivências reais e distintas. Frases que fogem aos chavões retirados de um qualquer site manhoso. Colocam-se fotografias de escolha penalizada e personalizada, ao invés de um shot lunático de imagens fabricadas. Temos o poder, usamo-lo conforme a consequência dos nossos olhos. Estava, há uns tempos, a rever uma fotografia no Facebook. A fotografia pertence a uma amiga. Viajada, de conhecimentos importados. A fotografia, despida de um sem números de filtros da moda, distancia-se da afamada e multiplamente ampliada na rede, selfie. Fosse a minha avó sabe-la existir e arranjava definição, para a dita da selfie, chamando-lhe de auto-retrato de saída rápida sem pausa para as habituais demoras da maquilhagem da fotografia. No flash certeiro dessa minha amiga, de costas, vê-se a silhueta definida, resguardada subtilmente por um conjunto de verão. Nos pés, umas sandálias cruzadas, simples. As calças fluidas, gritavam cores que combinavam com a tela que se encontrava à sua frente. Meia escondida pela sua própria sombra. Um quadro datado, de traços vincados. A legenda, diminuída, avançava os nomes da obra e do autor. Soberbo. Tal e qual o museu que as acolheu. À tela, para a exposição e à minha amiga para uns largos minutos de pura força cultural. Transforma-se a plataforma irreal numa realidade inteligente e sensata. E não precisamos de procurar um espelho rafeiro de uma casa de banho de um centro comercial. Era mudar. Eu julgo que era mudar.