A
berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao
ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o
olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de
enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e
preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de
geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com
palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala
suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da
necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se,
ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da
realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar
de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos,
sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e
ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem
negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.
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4.2.15
9.12.14
A berma de um Portugal igual.
Na
generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há
pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no
contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em
cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos
de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como
se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a
concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada
conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas
elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no
discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é
imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo,
passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se
para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e
gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico
de quem não gostou.
6.5.14
Em diferido. #8
Bastam-lhe
sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo
alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as
zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar
pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a
preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo.
Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os
dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela
repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo.
Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para
matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas.
Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido
de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para
refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente
mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o
tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro.
Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as
sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando
a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas,
chorou.
14.2.14
Sessenta segundos.
A
vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a
recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A
varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de
um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava,
reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos
tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da
atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta
rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo.
Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para
matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas.
Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido
de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para
refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente
mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o
tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro.
Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as
sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando
a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas,
chorou.
4.12.13
Os auto-retratos têm concorrência de rápido consumo.
As
redes sociais têm o dobro dos propósitos. São uma montra de egos aumentados,
por razão da idolatrada acção munida de um infindável número de likes a chamar a atenção dos mais
distraídos e revela, na mesma escala, as fotografias e os enrugados textos
curtos, de pequeninos e diminuídos pela coçada auto-estima. Do outro lado,
estão as ofertas irrepetíveis. As que nos merecem mais do que um like desinteressado, que marca apenas,
tão miseravelmente, a nossa presença. Acontece, que se mostram, de privacidade
honrada, os momentos que nos reportam para vivências reais e distintas. Frases
que fogem aos chavões retirados de um qualquer site manhoso. Colocam-se fotografias
de escolha penalizada e personalizada, ao invés de um shot lunático de imagens fabricadas. Temos o poder, usamo-lo
conforme a consequência dos nossos olhos. Estava, há uns tempos, a rever uma
fotografia no Facebook. A fotografia pertence a uma amiga. Viajada, de
conhecimentos importados. A fotografia, despida de um sem números de filtros da
moda, distancia-se da afamada e multiplamente ampliada na rede, selfie. Fosse a minha avó sabe-la
existir e arranjava definição, para a dita da selfie, chamando-lhe de auto-retrato de saída rápida sem pausa para
as habituais demoras da maquilhagem da fotografia. No flash certeiro dessa minha amiga, de costas, vê-se a silhueta
definida, resguardada subtilmente por um conjunto de verão. Nos pés, umas
sandálias cruzadas, simples. As calças fluidas, gritavam cores que combinavam
com a tela que se encontrava à sua frente. Meia escondida pela sua própria
sombra. Um quadro datado, de traços vincados. A legenda, diminuída, avançava os
nomes da obra e do autor. Soberbo. Tal e qual o museu que as acolheu. À tela,
para a exposição e à minha amiga para uns largos minutos de pura força
cultural. Transforma-se a plataforma irreal numa realidade inteligente e
sensata. E não precisamos de procurar um espelho rafeiro de uma casa de banho
de um centro comercial. Era mudar. Eu julgo que era mudar.
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