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19.2.18

Qualidade vacilante.

Lá fora, enquanto atravessava a rua, cruzei-me com um autocarro quase vazio. Uma senhora, com ar pendente, esboçava movimentos com a boca. E a mão fingia garatujas no ar. Devia levar uma conversa governada de interesse com o senhor condutor. Toca o telemóvel e a dúvida absorve uns quantos. As massas a funcionar com as maçãs. Soa e somos o mesmo. Estou numa espécie de fila – um tanto desordenada, outro tanto desordeira - num lugar cansado, cujo ar está saturado, com o meu casaco comprido, aos quadrados desenhado, os óculos graduados colocados, os de sol na gola dobrada do casaco de malha grossa presos. Desliguei a chamada há instantes, a minha irmã mais nova a trazer novidades, no seu discurso sempre vestido de pressa, genuíno e de menina travessa. Entre pensamentos, reparo na senhora que está ao meu lado. Quase inerte, numa apneia que me permiti diagnosticar. O olhar, quase baço de admiração, está focado - pasme-se - nas minhas meias. Ou peúgas. Conforme a nação de cada um. Perco-me, com alguma facilidade, nas nomenclaturas. Nisto, arqueio a sobrancelha, como se fosse tipo para esse ensaio. Levo, instintiva e imediatamente, os olhos às ditas. E rio-me. De mim e para mim. Espreitam, dinâmicas e de humor comedido, entre o que trago calçado e a dobra das calças. Não são as mais atrevidas que tenho, quis contar-lhe – à senhora, claro – mas fiquei tímido. São mesmo triviais, talvez a cor lhes torne especiais. Enfim, os nossos olhares cruzaram-se. E chega, na minha direcção, vinda do fundo da neblina que são aqueles olhos, a estupefacção. Fiquei na dúvida, tratar-se-ia de vergonha por eu ter percebido o delito ou, cheia de verdades sobre a arte de bem trajar reprovou as minhas sossegadas meias. Ou peúgas. Assim levei a manhã, numa ambiguidade sem precedentes.

1.2.18

Fenómeno da absorção.

Não fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam, ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e, num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto. Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé. Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias. Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado. Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja com os pés em terra firme.

11.10.17

Em diferido. #60

O puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

17.7.17

Um sumário dos costumes.

No mesmo dia em que vi um festejo à janela, falaram-me sobre casamentos. Parece desconexo, coisa pouca. Mas não é. Trago a mochila – por demais elogiada - sobre as costas, lá dentro um tudo de coisas. Profissionais, pessoais. Ainda uma dor rasa aqui e uma pontada ali. A idade come-nos a ideia de infinidade. Vão rir-se de mim se verbalizar isto. Com a minha idade, numa versão avô sabichão e fatigado. Ouvir deve ser bem mais tedioso do que arquitectado nesta cabeça. Larguei-me na insanidade de não estar contactável. Perguntam-me o século em que habito. Respondo com palavras e pontuo com um sorriso. É sentido, não é mentira. É um desgoverno como qualquer outro. Praguejam as mais variadas razões para inverter a questão. E, assumo, sequer ouvi uma. Retive nenhuma. Mas gosto de livros, se possível de lê-los. Gosto de escrever, se possível à mão. Gosto de ouvir, se possível os que me acrescentam. Nesta balança improvisada, deixo à consideração o movimento das decisões. Mas volto, aqui sentado, ao sábado passado. Lá atrás, naquela rua que acompanhou o meu passo, estavam duas pessoas numa varanda bonita. Um prédio relho, nada descuidado, todo tratado. As paredes de um rosa imaculado, as portas e portadas largas e num verde cuidado. O mesmo tom dos ferros que resguardam as varandas curtas. Numa delas estavam flores, flores pequenas e pendulares. Atrás, um casal que ria em sintonia. Ele cerrava os olhos, ela puxava a cabeça para trás e levantava um braço que desaguava numa mão que carregava um ramo. Sobre a calçada, de cabeças levadas à janela, estavam pessoas. Um pequeno grupo. Aplaudiam e lançavam pétalas ao ar e pequenos papéis num prata brilhante. A sério, aconteceu. E pareciam felizes. A rua aguardou as comemorações. Ninguém avançou o passo ou recuou a posição. Ainda me dizem que os casamentos não são deste tempo. Não sei se acredito. Ela passeava um longo e branco vestido. Ele um fraque negro. Os convivas trajavam bonitas peças. As flores por todo o lado. Nem as pétalas faltaram. Não sei se acredito. Mas corrobora a minha versão. Os tempos são como as modas. Reciclam-se e cada um serve o que lhe aprouver. Felicidades.

12.6.17

Marchas (im)populares.

Tenho andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça. Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite. Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais. No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade. E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto, mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes, escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos. Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado. Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais, perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos. Se quer saber.

9.5.17

Palanque matinal.

Ora um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma, que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.

4.5.17

Sequioso estar.

O senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão. Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse escasseou.  É tremendo. A idade não limou todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida. Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.

2.5.17

Reduzir a vapor.

Não me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido. Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas. Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas, melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente. Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda. Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora. Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades - que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos, donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E, consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida. E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.

10.4.17

Mariazinha, a dona da lhaneza.

As verduras frescas sobre a bancada. O verde reluzente. Os legumes bem cuidados, listados, as cores certas e os tamanhos irregulares. Os frutos em harmonia numa cama dividida, sadios e numa troca, quase lasciva, de olhar. Têm marcas visíveis, mas é a qualidade e a vontade de comer com certezas. Os orégãos dependurados, as folhas de louro na mesma carreira. Os limões vivos amancebados com as limas frescas. O alecrim apresenta-se em arranjos aperaltados. As malaguetas fervilham em ramos inventados. As batatas têm espaço e as alfaces são amigas das couves. As aromáticas fazem justiça ao nome. A bancada toda arranjada, sem prosápia nem falta de maneiras. De lá, ouve-se uma receita de arroz de safio e uma mezinha para a tosse, e de cá o pedido para que deixe ficar o saco carregado. Apresenta-se ao serviço, apresso-me a dar-lhe honras de dona da banca, uma senhora de alguma idade. Um pouco curva, de cabelos esbranquiçados, macérrima, de chapéu a cobrir a cabeça. Uma bata de xadrez, com apliques de renda branca, a defender a roupa de sair. Apetece-me dar-lhe os bons dias. E assim fiz. Devolveu-me um sabido e agradecido bom dia. Com o ar de quem o faz há tantos anos. Logo depois, quase sem cessar, serviu-me um sorriso gigante. Simpática e dinâmica pergunta o que quer o freguês. Penitencio-me no vazio dos pensamentos, pois, queria no imediato, prosa de visitante. Fotografar-lhe se não fosse ousadia. Ouvi-la conversar. Gabar-lhe os produtos frescos. Sugeriu-me o mel feito pelo senhor António. De resto, deixou-me à sorte das minhas necessidades. Perguntei-lhe o nome e contou-me que é Maria. Mariazinha para os antigos. E foi assim que, daí em diante, me pediu que a tratasse. Deixou-me fotografar o negócio montado, mas sem que ela se assomasse à objectiva. Respeitei. Trouxe uma fotografia vestida com a moldura da dona Mariazinha. A imagem na cabeça ao longo da manhã. E um frasco do mel do senhor António – imagino-o de bigode, não me sei entender. Logo eu, fraco fã de mel ao natural. Hei-de lá voltar. Nem que seja para lhe contar.

4.4.17

O puto do skate e as marcas contadas.

Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

27.3.17

Receio palpável num encontro inusitado.

Estou sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas, coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão. O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo, e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi, no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista. Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar, agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me. Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento. Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador da demagogia.

16.3.17

Distintos num dia de Março.

Surgem, logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação. Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade, sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora. Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas. Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.

13.3.17

Procurar entreter-se.

Na rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem o resto. Os tuk-tuk parecem flechas por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos. Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles, desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar. Atentas ou simplesmente esquecidas.

8.3.17

Em diferido. #56

Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

2.2.17

A totalidade do que passa ali.

O casario guarda os tons quentes, mesmo desmaiados pela corrosão característica dos tempos. A rua ladeada de uns poucos automóveis, as senhoras cobertas contra o frio, a idade pesa-lhes nos ossos e na carne, tremem se as raízes desmoronam. Vêem passar e não perdoam a habitual troca de palavras. Tão simples, quanto quotidianamente necessárias. Gesticulam com um braço, o outro desagua na bengala que fingem segurar. Vão, pé ante pé, até aos bancos ripados do pequeno jardim. Uma espécie de centro de dia a céu aberto. Onde se esquecem do mundo e se esquecem delas. Imagino-as tagarelas, outras vezes tufadas. Compete-lhes descontar horas de um dia que ameaça não ter fim. Outro destino vem lá, longe de entender, capaz de desencontrar gritos. Traz os cabelos encarnados, ora ao vento, ora tapados. Chama a atenção o fogo que nasce da imaginação. Aí, assoma-se uma incansável capacidade de recordarmos histórias de encantar. Não deixamos passar o cinema francês, as suas questões do amor sorrateiro e as silhuetas atrevidas. Julgo-a num desfile diário, leve e segura para lá, nos mesmos moldes para cá. Traz os cabelos encarnados, num tom vivo e viçoso, enrola ao pescoço um lenço de fina seda e no rosto mostra um jeito seráfico. Não conheço a sina, os queixumes e as vitórias. Não sei nada. Mais destemido vem um cão de pequeno porte, a ladrar ao mesmo tempo que imita um cavalgar desencontrado. Só sossega quando chega juntinho às velhas senhoras. Parece-me pertença do grupo. O dia está coberto e adivinham chuva e tempo agreste. Capricho ou não, deixam-se ficar. Acredito, dos velhos corpos e das mentes saturadas, há-de sempre nascer sabedoria. Reinventar-se em cada troca de impressões e olhar-lhes nos olhos. Até qualquer dia.

31.1.17

Entre a chuva que maça e o bom dia ditoso.

Não me canso de ver passar, observo sabendo que o melhor do outro está sempre a atravessar, enquanto o melhor de mim arquitecta a mais imponente e, não raras vezes, incoerente instalação. Respiro no compasso. Chove e chove com fé. A mesma que escorrega, fina e desesperada, pela folga dos dedos. Mas essa é matéria para outro eventual aranzel. Vem lá a rapariga que foge dos salpicos, hirta sobre os saltos altos, a mala bamboleante, o chapéu na cabeça a esconder-lhe os olhos bonitos. É a simpática de todos os dias. Desde que larga o seu Mini bege até que chega ao escritório. Ela pega nas pessoas e leva-as no colo de um sorriso bem sincero. Chove e chove com vontade. As senhoras da recepção dedicam as horas ao lastimo da água que cai lá fora, intercaladas com o chamamento do sol e com o trauteio das letras da Kizomba que não dá descanso. Exibem as unhas de gel feitas pela filha da Odete, a Carina que, desde meados do ano transacto, trabalha no cabeleireiro da Dina. Logo se vê, o negócio capilar e afins, ainda recruta conforme o nome de baptismo. “Dina Cabeleireiros” ainda tem saída. Praguejam como se o mundo tivesse perdido a lucidez. Não é mentira, não. Enviesados vão os tempos. Disformes, as acções que ficam escondidas na oratória desleal. Nisto, acomodado neste frenético evento matutino, soa o meu primeiro nome seguido do apelido. À minha espera, o sorriso de sempre. Vejo tudo isto e não me deixo fatigar. Bom dia, deixei-lhes ao sair. Desejo vida longa às unhas de gel e à executante, um verão tão longo quanto capaz de saciar, e umas valentes horas com a rádio nacional como companhia. Desce sempre em mim uma nada escusa vontade de acreditar no modo inócuo de a vida levar.

15.9.16

Em diferido. #53

A calçada contada - Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastece-se na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

19.7.16

Em diferido. #51

Gente com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.