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9.7.15

Gente com traquejo algarvio.

A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.

6.7.15

A Lisboa que me apaixona também é isto.

Lá vai Lisboa vestida de qualquer coisa, porque nos falta os adjectivos. Peca o termo, porque não veste senão a inteligência, a simpatia, a ternura e a eterna luz de quem a habita. Neste bairro de nome fácil e conhecido, onde nos lembramos das marchas populares e da sardinha no pão, assim nos vemos chegados ao seu espaço. As conversas paralelas, desta janela para aquela. Aquele grito de verdade, que alude ao pregão de quem, em outros tempos, batia à porta. A vizinha bonacheirona que brinca com as travessuras que vivem na imaginação dos lençóis. Os homens que se encontram para beber qualquer coisinha e falar do que já passou. À esquina, juntam-se as comadres, ouvem-se risadas graves entre as mentiras com dó e as falsas verdades. O fado que vai acompanhando. Não deixa de estar, mesmo que avances rua acima, rua abaixo. As cordas sobre as cabeças, ora cheias da roupa que alguém lavou, ora despidas do branco algodão. Os números pares deste lado, os impares do outro. As plantas em vasos desavindos mas impecavelmente cuidadas. Debaixo desses números, portas que escondem outras pessoas e espaços de convívio. As mesas a espreitar, as toalhas típicas, as paredes no tom, as garrafas no alto. Vende-se aqui. Apelam e não dizem mentira. São os melhores, aqui na Tasquinha da velha senhora. Tem bata axadrezada, o cabelo branco, óculos de avó simpática, jeitos de mãos trabalhadoras. Mesmo a descoberto, ali ao ar livre, não é esquecido o santo, que não é padroeiro da cidade mas é casamenteiro. Não se esgota aqui, o bairrismo encantado. Vive, sem esquecer, o preconceito no outro lado. Aquele snobismo encartado. Como se uns brincos grandes e pendentes fossem empecilho. Ou uma mala com nome influente. Perguntam-me, sempre que falo assim de uma Lisboa que não sendo minha, me apaixona todos os dias, como é que é possível gostar-se assim. Não sei, é a resposta. Continuam as questões, apelando, agora, ao facto de, em momento algum, eu ter vivido a experiência de viver num bairro típico desta cidade. Não sei. Não tenho resposta. Não tenho outra, senão esta.

25.6.15

O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.

A janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas, o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e, desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória, dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado, precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.

22.6.15

Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom.

Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.

9.6.15

Um livro rabiscado e a jovem do fim de tarde.

Vem de vestido florido, Converse All Star nos pés. Tem a mala num braço, um livro na outra mão. Senta-se e cumprimenta quem está à volta. O cabelo está sossegado, mas nunca impossível de mexer um ou mais centímetros. Ameaça viajar sem sair dali. Sorri para o empregado, e fala baixo. Esboça um sorriso enquanto pega no livro e abre na página assinalada. Não usa separador, as páginas estão marcadas. Imagino-as cheias de letras, tais os apontamentos que surgem das passagens relevantes. O livro sobre a mesa de madeira, a mão direita comanda a passagem das páginas, a mão esquerda brinca com o rosto. Chega a bebida e faz uma pausa. Agradece ao empregado. Toma um pouco da bebida e volta à leitura. Eu continuo à espera, que teimo em ser pontual. A vista é soberba, a esplanada que irrompe pela piscina que, por sua vez, faz pensar que se nos deixarmos ir, vamos precipitar-nos pelo verde adentro. Finalmente, chega quem eu aguardava. Tomamos algo e conversámos. Disse-lhe, outra vez, para largar o tabaco. Que vício pernicioso, meu bom amigo. Retorquiu, usando dos factos: Não sei ser outra coisa. Já sabes disso. Só vivo para ter o prazer de viver todos os vícios. Aceito, disse-lhe. Contudo, só até ao dia em que chegues ao desprazer. Adiamos, pois a filosofia, sem ter hora marcada, tem exigências tamanhas. Na mesma mesa, logo depois da nossa, continua a jovem. Agora acompanhada por uma senhora, que chegou de chapéu e daí para a frente, conversaram e riram juntas. E tem nome, a jovem do livro rabiscado, Maria Francisca.

4.6.15

(Silêncio) O que é não desaparece.

Depois de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si. Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio. Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção. Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso de te ouvir para te entender. E isso eu sei.

28.5.15

Atenção ao sabor do vento.

Anda meio mundo enganado. Por isso, lê muito, escreve o suficiente, ouve o possível e guarda. Guarda na memória, num livro cuja leitura seja entusiasmante, num bloco de cabeceira. Onde for, mas fá-lo. Acima de tudo, devo garantir, fá-lo por ti e para ti. Porque anda meio mundo enganado. E não querem saber. Anda a outra metade na corda tão bamba. Anda metade deste mundo iludido. Julgam, imagina tu, que são o epicentro. Que o mundo, esta escala desregulada, gira e gira, mas sempre à sua volta. Pois. O tempo passa e a carreira nunca espera. As notícias acontecem e não aguardam por uma qualquer decisão ou aval alheio. À janela, entre as cortinas apartadas, aquela velha senhora vê o tal mundo passar e, como deves supor, não vai só em ti reparar. Quase que adivinho que é promessa. Ficar de braços encostados, cabelo arranjado, olhar triste. Promessa ou procura de ilusões. Contrariedade mundana. Anda meio mundo ludibriado. A outra metade procura, precisamente, a ilusão. Nem damos por isso. Nestas voltinhas, nestes pruridos. Aqui sentado, privilegiado como sempre me disseste que sou, fico a vê-los passar. Há jornais na mão, pernas cruzadas, chapéus com fitas a condizer. Bancos de jardim acompanhados. Crianças com sorrisos na cara. O pequeno rapaz de carro na mão chora enquanto o levam pelo braço. Estrangeiros de máquina em riste. Fatos elegantes passeiam por aqui. Malas, sacolas e sacos de todas as cores. Gente para cima, gente para baixo. À espera que o dia chegue ao fim. É só alguém não se esquecer.

26.5.15

Vai guiando os ensaios por onde quiser.

Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.

19.5.15

Determinados privilégios.

Bom dia, gente de trabalho. Ouvir-se-á por esse país afora. Como já ouvi nos lugares mais inusitados. Também, e principalmente, nos mais humildes. Gente feliz e de palavra. A complexidade apaixonante de viver o nascer do sol no seu perfeito esplendor. Poeta de madrugada encontra recheio e encanto em cada pedaço e, com esforço, torna-los num verso primeiro, numa estrofe depois. Por fim, um poema de conteúdo filosófico. Já se ouvem os pássaros lá fora. Os New Balance nos pés, a bateria fraca do telemóvel, uma noite mal dormida e um vento que nunca sossega. Não há tréguas e saltei da cama. Os óculos de sol preferidos e o rádio do carro que promete ser a companhia. Na rua, as pessoas pensam e agem em consciência com as necessidades. Um tipo corre, uma mulher com frio passeia o cão pequeno, aquele pai leva as crianças à escola e aquela mãe prepara mais um dia, enquanto naquela varanda corrida, faz uma pausa para acenar para os miúdos. Duas jovens saem do mesmo prédio e seguem caminhos diferentes depois de trocarem um beijo. Chego ao destino, ligeiramente antes da hora marcada, e dou os bons dias a duas ou três pessoas que estavam na entrada. Devolveram-me o silêncio beliscado pelo vento a soprar. Gente capaz, esta. A minha avó não me deixa mentir e sempre disse que não é de valor quem não valoriza o outro. No corredor, e não estou a brincar, está um cartaz cuja figura central é um cão e pode ler-se por baixo: O melhor amigo nunca falha. A minha avó sempre soube muito e carregada de razão promoveu todas as vezes que lhe foi possível, a discussão sobre qual era o papel do ser humano. A realidade molda o pensamento.

11.5.15

Objecto desse entusiasmo.

Depois de um bom livro, um passeio. Sol quente, pessoas no parque. Rua com boa cara, a companhia que importa. Conversámos sobre tantas coisas, que tivemos tempo para discordar. Alguém aventou que eu tenho tendência para, ora defender os fracos, os pobres e os oprimidos, ora para apontar-lhes alguns pontos negativos. Fica-lhe bem lembrar-se de um chavão tão ridículo. Julgava eu que vivíamos em sociedade e que haviam termos tão obsoletos. É uma questão de integração, nunca de evasão. Aliás, não vejo estatutos, profissões, contas bancárias, nomes compridos ou outros critérios desse instrumento de medição inventado, quando opino. Limito-me aos actos, à posição. Argumentos válidos e sentidos, chegam sempre a bom porto. Deu o braço a torcer. À volta, continuava a cor e o movimento tão típicos do bom tempo. Aqueles óculos de sol são extraordinários. Quem os usa fá-los parecer os melhores. São quase redondos, sem serem círculos imaculados. A dona coloca-os e tira-os. Volta a fazê-lo vezes sem conta. Parte das madeixas do cabelo comprido caem-lhe sobre as lentes. Movimenta a cabeça e espera-se que os fios entendam que devem seguir outro rumo. Tem vinte e cinco anos e um rosto de miúda, um ar jovem e fresco, tão característico da idade. O cabelo é claro mas o sol mostra que não há harmonia. Solta um ou outro tom. Conversa com genica e nunca lhe falta assunto. Cruza as pernas e senta-se no chão. Enquanto ri e mexe no telemóvel, diz-nos que sonha com o dia em que lhe desafiem a subir um monte íngreme. Porque gosta da palavra que é sinónimo de difícil de subir. E não tem medo de desafios. Também os quer a dois. Aplaudi-lhe a conversa cheia de sentido. E, totalmente de acordo, dei-lhe toda a convicção. Acredito nesse amor enraizado e nessa trovoada que testa os limites. Vivendo-o ou não. Tenho, também, tendência para, entre tudo o resto, acreditar num amor em tudo semelhante ao que os intervenientes imaginam. Aproveita o sonho, miúda dos óculos cheios de pinta.

7.5.15

Ficar por aqui, olhar e voltar.

Aquela rua é vertiginosa. Tem casas de um lado e outras tantas do lado oposto. Tem carros parados num sentido. Muitos e variados, para todos os gostos e carteiras. Não é larga, mas engana. Parece que tudo encaixa na perfeição. É uma rua onde quase não se vêem pessoas. No cimo da mesma, em que as vertigens são ameaçadas, a vista não tem explicação, sequer justificação. Sobrevivem as cores garridas, o azul lá ao fundo. Antes de a conhecer, parecia-me impossível que daquele lugar saíssem tantos tons e tão vivos. Estes são salpicados pelas pingas brancas. Roupa a bailar, o sol a bater. Debaixo do braço uma revista americana, emprestada por quem entende do assunto. Lá dentro, fotografias bonitas, artigos de actualidade, sugestões do que chamam ser moda e o resto do mundo que eu não entendo. Resume-se à básica questão, tão inocente, ou gosto ou não gosto. Muito daquilo que vi, pareceu-me bem. Gosto da palavra singela. E a moda também é isso. Numa estação afunilam-se as tendências e nesse caminho estreito colocam-se as cores possíveis. Num dia é fogo, noutro é água. Quase no final da rua, ainda a revista debaixo do braço, os mesmos carros ficaram para trás, as roupas no estendal. Mais próximo do rio, contudo, perdeu-se a vista maravilhosa. Toca o telemóvel e do outro lado dizem-me que já está, já terminou. Suspiro. Vou ter de subir.

14.4.15

O que vem depois.

Começa cedo o dia. Quarto escuro, brincadeira de outrora. Abres um olho, depois outro. Quase a medo, em jeito de adivinha. Antecipas o toque da campainha. Dói-te a cabeça como se o andar superior tivesse ousado cair-te em cima. Desusado o camião, que soa lá ao fundo. Pontes com entrada e saída. Ramos em cruzamento. Segues caminho, inventas a rotina. O céu pingado e cinzento. Apitam os carros, correm as pessoas. Zebras no asfalto, luzes de pé. Peúgas às riscas. Casaco no lombo. Óculos a trabalhar. Relógio com algumas histórias contadas, no pulso de sempre. Aceleras sem tempo, esperas em cada hora marcada. Ouves música, Gorillaz falam do outeiro melancólico. A anarquia dá sinais, parece ter dominado o processo. Notas no e-mail. Falam-te de uma exposição valente e curiosa. Um dos melhores. A vivência de mão dada com o produto final. É suposto não declinar o convite. Ainda no carro, passas uma parede branca com uma frase. “O beijo persegue-me”. Impossível não pensar. O dia seguinte é sempre o pior.

8.4.15

Em diferido. #31

A Alice da gaiola na garganta - Despertar com os pingos da chuva. A calçada portuguesa não conhece comédia ou drama. É tapete de passagem, segundo a segundo. Ainda se vestem as ruas de lojas bonitas, de negócios pujantes. De gente nova, com o empreendedorismo efectivo, as ganas nos actos. A determinação a fluir-lhes na mão, as ideias a fugir-lhes pela boca. A confiança nas pessoas. De norte a sul. Os insulares também. É o português preferido e perfeito. Menina bonita, de trejeitos desenvoltos, aperfeiçoando e enaltecendo a montra da livraria. Um cartaz ao centro chamava a atenção. Certamente, não tanto como a prodigiosa rapariga. Tchaikovsky soa. Talvez, naquele fugaz instante, seja a variação e a melhor comparação. É uma travessa sossegada. A sul situada. Os livros arrumados. A escolha musical parece despropositada. Como a tatuagem que espreita pela gola de lã grossa. Perguntou-lhe quem tem coragem. É uma gaiola civilizada. Resposta esta, tão inusitada. Com licença, que não percebemos a palavra dita. Não se cansou e o significado explicou. Uma gaiola larga, de fio fino, sem porta ou cancela, por nada nem ninguém caber nela. Regista-se, assim, a informação mais simples. Sejam bem-vindos, fiquem à vontade. Não se sugestionem por capas ou títulos. Escolham autores e temas da vossa verdade ou da mentira que querem conhecer. Eu sou a Alice. Desenhei a gaiola e ofereci-lhe a liberdade. Sugiro uma volta à sala. Hoje é um excelente dia para guardar um bom livro. Para escolhe-lo e debaixo do braço levar. Com conteúdo superior ao velho jornal que serve para o peixe fresco embrulhar.

26.3.15

Exposição resumida de uma recordação.

A efeméride acontece onde e quando menos esperamos. Somos seres de rotinas, mas mentimos. Não raras vezes, gostamos de surpresas com a mesma vontade. A verdade é outra coisa. Se pensam em ti como tu pensas em alguém, embora real, pode ser fatal. Na rua, onde quer que estejamos, é onde tudo acontece. A rua não se fica somente pelo tudo, vai também até ao melhor. Encontrei uma onde se vive sem medida e, melhor, sem o peso de parecer. Depois de sair de lá, fiquei com a sensação de que ali, mais do que fingir, as pessoas são pessoas. Não brincam às vidinhas, não fingem na primeira oportunidade. São seres sociais, verdadeiros. Seres com rotinas reinventadas. Pensam em si e nos outros. Nesta rua, num lado uma mulher dança ao sabor do sonho. As ancas sem sossego em frente ao espelho. O cabelo a tapar-lhe parte das costas. Tanto quanto consegui ver, maquilhava-se em frente ao espelho maior. E não sossegava as ancas. Dançava ali, porventura, com a convicção e mérito de quem exibe, numa pista de outra importância, uma performance trabalhada. E fazia caras sem fim para o espelho. Em resposta, ria-se para ela mesma. No outro lado, um velho homem de jornal na mão. Lê com atenção. Demora a virar a página. Os óculos ameaçam descer pelo nariz abaixo. Do que vi, só se permitia descruzar as pernas e voltar a cruzá-las. Em momento algum tirou o olhar das letras. Por certo, vai além das gordas, lê de uma ponta à outra. Se um dia voltar, espero tornar a cruzar-me com eles. O homem que tem tempo para viver e mudar a página. A jovem mulher que sonha e dança uma e outra vez. O sonho é de todos e de cada um. Se um dia voltar, perguntar-lhe-ei, em ganhando coragem, quais as boas novidades. Seja no ambiente em que tive e tenho o privilégio de viver, seja no oposto, temos sempre o essencial para não deixarmos de ser.

23.3.15

Um estilo muito próprio.

Já é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.

18.3.15

Em diferido. #30

Objectiva arrefecida - Um dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me levantar da cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão típicas da madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses dias, a necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão descuidados e nada estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a vontade. Mas, fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou escrevendo. É um desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá em casa. Hoje tão obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de verdade. Lembro-me tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em detrimento do computador. Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem alma. Não tem mais de duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da pele de quem escreve. Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes, voltei a sair cedo para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de dá, fotografar. Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa bicicleta. Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu destino. As costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural. Como andar de bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado, chamaram-me a atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se preferirmos corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares comuns, há apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam, em cada uma das manhãs frias de um outono de verdade.

5.3.15

Em diferido. #29

Vistoso latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

24.2.15

À terça sobre a segunda alheia.

As segundas têm um espírito próprio. Podemos falar de novas oportunidades ou da infelicidade de retomar a imbecil matemática dos dias carregados de monotonia e de trabalhos inóspitos e colegas de má rês. As segundas são um falsificado amuse bouche. Amam-se ou odeiam-se. Lembro-me, desde sempre, de ouvir quem lhes desejasse a morte e, ao mesmo tempo, quem lhes dotava dos maiores elogios. Como se fosse uma pessoa. O senhor simpático da mercearia, a tia que ninguém atura ou a amiga lá de casa que se esquece de vocábulos como privacidade ou não usa relógio, embora, forçadamente, fale com a dicção tão afectada que nos obrigue a uma tradução em tempo real. A volatilidade dos termos e da crença de cada um, começa cedo. Logo nos primórdios do entendimento, ainda que, nessa altura, voem apenas as palavras. Bem mais do que a verdade e a compreensão. Ontem, segunda-feira, leram-me o horóscopo da semana. Semana amena, dias bons. Saúde em perfeito equilíbrio. Trabalho numa fase favorável e do amor reza que do passado não vive um nativo. No meio disto, há sempre a frase feita e a palavra universal e que, alheados, nos faz algum sentido. Agora mesmo, enquanto escuto alguns temas da Brenda Boykin, pensava como saltar numa rua qualquer, com um ou mais balões coloridos na mão, fosse bem mais credível do que a leitura que me fizeram a atrasado. Bafejado pela sorte, quem sabe, chegar-me-á um presente do ainda futuro, e faço o pleno. Canta a Brenda Boykin e não engana, “Love is in Town”.

11.2.15

Indivíduo pouco entendido.

Há quem vista uma blusa de lã grossa, calce umas botas grossas e não se esqueça de umas peúgas quentes. Quem coloque, ainda, um cachecol forte, um casaco protector e elegante e, se for homem de coragem, termina com um bonito chapéu de qualidade. Do jeito dos que se viam nas lojas antigas no centro da cidade. Ainda as temos, míseras lembranças. Uma aqui, outra ali. Chapéus, uma paixão por viver. Depois, porque parece que a chuva só molha os tolos, há quem vista uma blusa de riscas para enganar o tempo e a água que não dá descanso. Riscas azuis e brancas. Ou pretas e brancas. Já não me lembro. Tácticas de um jogo ingrato. Que pouco importam. Ou nada. Não me queixo das técnicas alheias. Mas volto sempre ao princípio. Um chapéu de bonito corte e tecido forte.

10.2.15

Das nuvens altivas, cai com destino.

Que lamento, ouve-se de voz em voz. Que desgraça, este pé de água tão forte. Que incerteza de escolher a roupa e a rua para seguir o caminho. Anda meio mundo mais triste, com a saudade de um sol que é feliz. Chove como manda a lei. E como pedem os que dela precisam. Os mais antigos pedem as águas com a fartura da necessidade. Que preciosa a pinga que chega no momento certo. Cresce fresca e viçosa, verdura gaiata e marafada. A chuva dá-lhe ganas de vencer. Os mais velhos gostam da arrelia da chuva a desorientar as gentes que praguejam. Gostam, outro tanto, por certo o tanto vencedor, de vê-la cair com tento, lavar as terras com esperança e fazer, com tempo, crescer com a alegria do sustento. Por isso, pedem que Deus lhes perdoe, se algum dia ouvirem um desnaturado pedir que cesse. Vale a televisão que mostra as vidas arranjadinhas, as praias bonitas, as roupas de alta-costura, o sol do paraíso. Ou, por seu turno, inverteram-se os lugares da pirâmide. Contra mim falo. Escrevo. Que lamentar a chuva que não dá tréguas, enquanto tomo café, pode ser uma perfeita pausa da leitura repetidamente desarranjada.