Os
lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso
de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário.
Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é
pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas
mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz
a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores,
soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a
única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de
encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente
em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu
axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da
bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir
as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das
antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma,
vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo
e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas
rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e
carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os
carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece
reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira,
tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço,
apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente
lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e
esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e
pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem
traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma
literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão
encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes,
como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente,
tampouco o passado.
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22.6.16
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
31.5.16
Em diferido. #49
Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom - Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.
16.5.16
O putativo lesado e a sua barba rija.
Vem
de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem
preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem,
numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu
relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade.
A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou
do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da
navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta
revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede
o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o
que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à
mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre
gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto.
Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a
favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já
não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa
do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que
ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a
necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua.
Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No
fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o
intelecto, abusar dos hashtags. Isso
e do português correcto.
18.4.16
Em diferido. #48
Foi
num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua,
singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda
assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases
feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção.
Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
14.4.16
Breviário sobre o espaço e o tempo.
Assomou-se
à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não
abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa
madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o
olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado,
avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O
tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram
entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os
lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro
e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos
do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas
numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar.
Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou
visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara,
mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da
passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos
passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor
com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de
grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da
minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas
impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas
de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o
chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda
me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na
mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre
frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio.
Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos
nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.
4.4.16
Saúde e alegria sobre rodas.
Alguém
que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for.
No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto.
Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado
passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos.
Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile
de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a
bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a
condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora,
uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o
nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de
liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não
saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num
caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura
e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei
como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem
veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão
quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou,
antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a
mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando
fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que
morrem na calçada e de tomar notas no iPad
que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não
menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.
31.3.16
Em diferido. #47
Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela
gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua
enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade
de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à
vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou
no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e
os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal
utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo,
porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível,
não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda
existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá,
onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido.
Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois
de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica
lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história
relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei
e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava,
daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme.
Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão
apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura
tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. –
Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia
invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.
29.2.16
Os tempos da dama.
A
chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O
burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e
ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco
vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos
lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o
frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na
dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na
passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os
quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico
brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria.
Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao
peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas,
como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de
barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato
perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e
sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer
coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e
carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto
atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a
mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca.
Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento.
Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca
de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes
e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste
caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma
excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o
presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade
atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou.
O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita.
Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim,
garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a
intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos
que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram
capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela
certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa
é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer
axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na
lapela.
25.2.16
Em diferido. #45
Muita saúde e sorte é o que lhe desejo - Doravante foquemo-nos no
adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom
dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo.
Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer
da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e
a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão
estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se
possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos,
ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando
uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande
número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e
açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o
terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se
vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as
mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está
pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar.
Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a
acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O
acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come
as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que
resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de
óculos de sol.
1.2.16
O ano segue.
É
como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o
carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou.
Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar
tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não
consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele
me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais
miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião.
Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um
café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro.
Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua.
Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos
de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos
outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido
aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos
gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua,
neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a
ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das
suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando
pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião.
Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino.
Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do
ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu
a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o
chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o
diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar
terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles.
Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com
comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A
verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora.
Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das
caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam
um trench-coat caro, uns sapatos de
pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem
torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa
o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri
para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo
caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de
esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que
Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não
tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a
pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve
troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora.
Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a
arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o
conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao
carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em
convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano,
nada mudou. E segue sem parar.
21.12.15
Canção de supermercado.
O
natal, há pouco, vestia as paredes frias. A rua vai dando aos transeuntes o que
o comum cidadão procura. Uma apropriada bola de neve. As caras dos espectadores
acompanham a magia numa ficção pintalgada. As bocas brincam como fantoches
comandados. É engraçado pensar. As fotografias da rotina acontecem em cada
esquina. É engraçado não reparar. Damos, de novo, prioridade aos passos. Vamos
lá, há mais para contar. Quanto mais acentuada é a falta de sentido, mas
atraente. Quanto mais ausente é a monotonia e o comportamento amorfo, melhor e
vencedor. Entre a secção dos enlatados e a barreira das massas, antes de
vislumbrar a banca dos frescos e de piscar o olho aos brinquedos, há uma menina
cantadeira. Tem tom de rouxinol, timbre de fada madrinha. Inventa a letra,
canta como se estivesse na luz de um palco rei. Inventa o público eufórico,
esgotado mas firme. Se ficarmos ali, com atenção, ouvem-se os aplausos. Os
gritos fortes, em uníssono. A menina canta, soa a qualquer coisa. Ficar e
escutar não é opção, é a força da razão. A boca tem vida, as cordas vocais não
têm receio. Imagino-as num bailado sem fim. Numa corrida sem precedente. Que
espectáculo graúdo. Voz de supermercado, canção de menina sem pecado. Na mão um
pai natal luminoso é o perfeito microfone mimoso. Pelo meio do palavreado
seguido, percebe-se a alusão à época. A festa da gente, a razão da família.
Entre o atum acondicionado e a esparguete em exposição, canta a menina de voz
doce. A canção de supermercado. O natal vive em qualquer um, vive em qualquer
lado.
7.12.15
Ladeira acima.
Ligo-te
depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta
verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os
ténis laranja forte, azul concentrado. New
Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão
hipster me parece esta ideia. Havia
de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se
avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de
beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de
menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas
bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os
óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de
passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para
o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção,
o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a
simpatia matinal. Por pela hipster
montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar,
insistir e não actuar. Ladeira acima, lá
vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima
no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao
ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por
ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um
trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É
relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra
liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o
ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri
sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o
bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o
carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a
mal. Quão hispter pode ser a montra
de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém.
Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a
palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.
30.11.15
A ocasião propõe a relação.
O
cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual,
engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda
não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás
habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos
conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens
insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas
inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando
um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o
esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar
desgosto pela vida alheia.
14.10.15
Em diferido. #41
Vai
guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em
que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos.
Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer
voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem
lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a
outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto,
antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que
nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa
varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a
mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma
velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a
passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e
abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco
negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva,
parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino
vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das
compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me,
particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em
que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre
ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um
canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas
rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na
literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.
21.9.15
A calçada contada.
Chegada
a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os
calções listados, as Paez que fizeram
a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante
de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê
passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando
qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se
deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me,
igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que
lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade,
vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva
acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado,
entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai
cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns,
saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua
fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola,
deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já
não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de
hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso
do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela.
Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge
da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a
intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes,
os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e
que se abastecesse na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos
de a ele voltar.
31.8.15
Muita saúde e sorte é o que lhe desejo.
Doravante
foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios.
Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã
cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos
para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a
sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a
ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e,
se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em
descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas,
imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em
grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se
mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque
não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age
como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido,
leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que
está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar.
Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a
acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O
acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come
as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que
resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de
óculos de sol.
26.8.15
Foi num punhado de ruas que tive esta sorte.
Na
rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés,
ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há
frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a
canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
25.8.15
Um chapéu e uma maçã verdes.
Acabo
de sair do carro, e vejo pessoas com vontade de que o verão não morra. Estou
como elas e com elas, sigo caminho e tomo as escadas. Trago um livro na mão.
Tenho outro sossegado na mesa-de-cabeceira. Ainda outro na mesa de múltiplos
afazeres. Ler, assim mesmo, vale por si. Não precisa de parentes emprestados,
vontades inquinadas e valores monitorizados. Ler, sem mais nem menos, é um
absurdo e valente gosto. Desgosto, se não acontece. Por seu turno, absorve-nos
o frenesim constante da rotina. Consome-nos a fantasia de que vale sempre mais.
Fazer mais e deixar o resto em estufada espera. Também por isto, pesa-me o
facto de adiar leituras. De deixá-los, aos livros, por aí, até à merecida
oportunidade. De desligar-me, com a idade a cavalgar, das idas à biblioteca da
cidade. Da minha cidade. Num destes dias, daqueles de transição, entre o
chegar, o ir e o voltar. Passei, volvidos tantos anos, à porta dessa
biblioteca. Por fora, despida e sentida do tempo, continua oportunamente à
disposição. Em tempos idos, sozinho a ler títulos, descrições e autores, não
tantas vezes como pudesse, eventualmente, querer. Noutras vezes juntava-me ao
pessoal, por força de trabalhos escolares, entre a pesquisa efectiva, a escrita
pertinente, os diálogos estratosféricos, a imaginação sem fim, os livros
abertos e a informação a ferver. Precisamente num desses dias, nós os três,
companheiros de sempre, sossegávamos o espírito no átrio, ao ar livre. Numa
mesa mesmo ao lado, um senhor. Hoje, se conseguir com algum esforço lembrar-me
da sua cara, dar-lhe-ia uns cinquenta anos, sessenta no máximo. Naquele dia,
pareceu-me um verdadeiro ancião. O senhor tinha um chapéu de veludo verde-escuro,
uns óculos graduados, uma barba farta e esbranquiçada. Cruzava as pernas e lia
o jornal, enquanto pousados na mesa, estavam dois livros e uma maçã verde. Um
deles, tão pesado. Por duas vezes, ouvimo-lo falar, mas não entendemos uma
sequer palavra. Falava mais alto, como que a dar a entender que se fazia ouvir.
Tornou e numa terceira investida, pergunta-nos se sabíamos alguma informação
sobre aquilo que comíamos. Sinceramente, não me recordo o que era.
Respondemos-lhe por educação. Ele continuou e disse-nos que a carne e os
açúcares, assim como, outros pertences da alimentação quotidiana, acabariam por
nos matar. Discorreu sobre este e outros assuntos. Comam maçãs, terminou. Tenho
pena, muita, de me ter esquecido de grande parte do seu discurso. Comam maçãs,
bebam água e criminalizem todo o fumo que vos invadir o corpo. Simpaticamente,
agradecemos-lhe. Ele levantou-se, enrolou o jornal, pô-lo debaixo do braço,
agarrou nos dois livros e na maçã. Esta, levou-a à boca e mordeu-a. – Agora,
dizia ele, tenham uma boa tarde. E muitas maçãs, é o que vos desejo. – Estava longe,
muito, de imaginar que um dia, não tão distante quanto isso, eu iria proceder a
uma mudança alimentar com expressão. Unicamente, por convicção e interpretação
próprias. Acabo de chegar, pousar o livro e escrever este texto. Aprecio a
ironia mas não atribuo menos importância à valentia de alguém se levantar para
deixar a opinião ficar.
14.7.15
Assim vai o ensejo.
Numa
pausa inócua, inopinadamente entretido com minudências. Estaria, algures entre
as minhas notas no caderno preto, as minhas garatujas no dito caderno – que tenho
tamanha vergonha na cara que apelido os desenhos que vou fazendo como me parece
definir melhor o desmérito, - na secretária de sempre, no computador de algumas
horas, no telemóvel e nos e-mails e nas fotografias que lá guardo. Na máquina
fotográfica que, sem preparação, faleceu. Paz. À sua alma. Ao momento em que
paro para ouvir as músicas de tanto tempo. Ainda, não sendo seguidor de uma
certa burguesia, que raras vezes aventam fazer parte da estrutura, estaria no Instagram ou a ler um qualquer texto de
um fazedor de opinião. Numa mensagem escrita, falava-me do evento. Havíamos de
ir, antes de descermos, continuava. Atraiçoa-nos a pressa dos dias. Sem soluços
maiores, num relâmpago mais precoce, eis o dia certo. O recinto alargado, a
terra algures sossegada, o palco principal lá ao fundo, em destaque. Ao lado,
outros, menores. Fica-lhes o talento buliçoso. Que não tem tempo para brincadeiras
alargadas. Nunca de somenos relevância. O espaço compõe-se à velocidade de um
vídeo apressado. Aglomeram-se junto ao palco maior, dando primazia aos cabeças-de-cartaz.
A curiosidade aguça. Vêem-se, também, pequenos grupos. Amigos e conhecidos em
amena convivência. Impera e reina a boa disposição. O corpo pede conforto, os
acessórios gritam por socorro. Numa nota mísera, os chapéus ainda estão na
moda. As marcas fazem o seu trabalho e, no recinto, estão ao nível das
tatuagens. Estão em todo o lado. Chegada a hora, o palco faz vibrar, braços ao
alto, mãos num movimento frenético. Entre luzes, som e adrenalina, gritam os
espectadores entusiasmados. Sobrevivem, naquela excitação, os telemóveis que
alumiam. A fotografia da despedida, o adeus resumido numa mão bamba. De cigarro
na boca, ao jeito de um retrato a preto e branco. Foi assim, em grande escala.
Numa outra pausa, rir-nos-emos do resto. É sempre assim.
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