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22.6.16

Lugarejo com raça e no coração o ensejo.

Os lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário. Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores, soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma, vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira, tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço, apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes, como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente, tampouco o passado.

20.6.16

Vida ladeada de encontros.

Dei-lhe os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática, atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação, porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos, uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações, indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos, já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí, fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia deixando cair uma selfie, e teve uma relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua, parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos, olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso, tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o meu nome foi o ponto final.

31.5.16

Em diferido. #49

Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom - Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.

16.5.16

O putativo lesado e a sua barba rija.

Vem de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem, numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade. A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto. Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua. Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o intelecto, abusar dos hashtags. Isso e do português correcto.

18.4.16

Em diferido. #48

Foi num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo, que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo, donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns, sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço, papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também, que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo para a mente. Um viva!

14.4.16

Breviário sobre o espaço e o tempo.

Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

4.4.16

Saúde e alegria sobre rodas.

Alguém que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for. No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto. Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos. Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora, uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou, antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que morrem na calçada e de tomar notas no iPad que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.

31.3.16

Em diferido. #47

Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.

29.2.16

Os tempos da dama.

A chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria. Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas, como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca. Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento. Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou. O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita. Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim, garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na lapela.

25.2.16

Em diferido. #45

Muita saúde e sorte é o que lhe desejo - Doravante foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar. Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de óculos de sol.

1.2.16

O ano segue.

É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

21.12.15

Canção de supermercado.

O natal, há pouco, vestia as paredes frias. A rua vai dando aos transeuntes o que o comum cidadão procura. Uma apropriada bola de neve. As caras dos espectadores acompanham a magia numa ficção pintalgada. As bocas brincam como fantoches comandados. É engraçado pensar. As fotografias da rotina acontecem em cada esquina. É engraçado não reparar. Damos, de novo, prioridade aos passos. Vamos lá, há mais para contar. Quanto mais acentuada é a falta de sentido, mas atraente. Quanto mais ausente é a monotonia e o comportamento amorfo, melhor e vencedor. Entre a secção dos enlatados e a barreira das massas, antes de vislumbrar a banca dos frescos e de piscar o olho aos brinquedos, há uma menina cantadeira. Tem tom de rouxinol, timbre de fada madrinha. Inventa a letra, canta como se estivesse na luz de um palco rei. Inventa o público eufórico, esgotado mas firme. Se ficarmos ali, com atenção, ouvem-se os aplausos. Os gritos fortes, em uníssono. A menina canta, soa a qualquer coisa. Ficar e escutar não é opção, é a força da razão. A boca tem vida, as cordas vocais não têm receio. Imagino-as num bailado sem fim. Numa corrida sem precedente. Que espectáculo graúdo. Voz de supermercado, canção de menina sem pecado. Na mão um pai natal luminoso é o perfeito microfone mimoso. Pelo meio do palavreado seguido, percebe-se a alusão à época. A festa da gente, a razão da família. Entre o atum acondicionado e a esparguete em exposição, canta a menina de voz doce. A canção de supermercado. O natal vive em qualquer um, vive em qualquer lado.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

30.11.15

A ocasião propõe a relação.

O cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual, engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar desgosto pela vida alheia.

14.10.15

Em diferido. #41

Vai guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.

21.9.15

A calçada contada.

Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastecesse na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

31.8.15

Muita saúde e sorte é o que lhe desejo.

Doravante foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar. Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de óculos de sol.

26.8.15

Foi num punhado de ruas que tive esta sorte.

Na rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo, que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo, donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns, sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço, papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também, que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo para a mente. Um viva!

25.8.15

Um chapéu e uma maçã verdes.

Acabo de sair do carro, e vejo pessoas com vontade de que o verão não morra. Estou como elas e com elas, sigo caminho e tomo as escadas. Trago um livro na mão. Tenho outro sossegado na mesa-de-cabeceira. Ainda outro na mesa de múltiplos afazeres. Ler, assim mesmo, vale por si. Não precisa de parentes emprestados, vontades inquinadas e valores monitorizados. Ler, sem mais nem menos, é um absurdo e valente gosto. Desgosto, se não acontece. Por seu turno, absorve-nos o frenesim constante da rotina. Consome-nos a fantasia de que vale sempre mais. Fazer mais e deixar o resto em estufada espera. Também por isto, pesa-me o facto de adiar leituras. De deixá-los, aos livros, por aí, até à merecida oportunidade. De desligar-me, com a idade a cavalgar, das idas à biblioteca da cidade. Da minha cidade. Num destes dias, daqueles de transição, entre o chegar, o ir e o voltar. Passei, volvidos tantos anos, à porta dessa biblioteca. Por fora, despida e sentida do tempo, continua oportunamente à disposição. Em tempos idos, sozinho a ler títulos, descrições e autores, não tantas vezes como pudesse, eventualmente, querer. Noutras vezes juntava-me ao pessoal, por força de trabalhos escolares, entre a pesquisa efectiva, a escrita pertinente, os diálogos estratosféricos, a imaginação sem fim, os livros abertos e a informação a ferver. Precisamente num desses dias, nós os três, companheiros de sempre, sossegávamos o espírito no átrio, ao ar livre. Numa mesa mesmo ao lado, um senhor. Hoje, se conseguir com algum esforço lembrar-me da sua cara, dar-lhe-ia uns cinquenta anos, sessenta no máximo. Naquele dia, pareceu-me um verdadeiro ancião. O senhor tinha um chapéu de veludo verde-escuro, uns óculos graduados, uma barba farta e esbranquiçada. Cruzava as pernas e lia o jornal, enquanto pousados na mesa, estavam dois livros e uma maçã verde. Um deles, tão pesado. Por duas vezes, ouvimo-lo falar, mas não entendemos uma sequer palavra. Falava mais alto, como que a dar a entender que se fazia ouvir. Tornou e numa terceira investida, pergunta-nos se sabíamos alguma informação sobre aquilo que comíamos. Sinceramente, não me recordo o que era. Respondemos-lhe por educação. Ele continuou e disse-nos que a carne e os açúcares, assim como, outros pertences da alimentação quotidiana, acabariam por nos matar. Discorreu sobre este e outros assuntos. Comam maçãs, terminou. Tenho pena, muita, de me ter esquecido de grande parte do seu discurso. Comam maçãs, bebam água e criminalizem todo o fumo que vos invadir o corpo. Simpaticamente, agradecemos-lhe. Ele levantou-se, enrolou o jornal, pô-lo debaixo do braço, agarrou nos dois livros e na maçã. Esta, levou-a à boca e mordeu-a. – Agora, dizia ele, tenham uma boa tarde. E muitas maçãs, é o que vos desejo. – Estava longe, muito, de imaginar que um dia, não tão distante quanto isso, eu iria proceder a uma mudança alimentar com expressão. Unicamente, por convicção e interpretação próprias. Acabo de chegar, pousar o livro e escrever este texto. Aprecio a ironia mas não atribuo menos importância à valentia de alguém se levantar para deixar a opinião ficar.

14.7.15

Assim vai o ensejo.

Numa pausa inócua, inopinadamente entretido com minudências. Estaria, algures entre as minhas notas no caderno preto, as minhas garatujas no dito caderno – que tenho tamanha vergonha na cara que apelido os desenhos que vou fazendo como me parece definir melhor o desmérito, - na secretária de sempre, no computador de algumas horas, no telemóvel e nos e-mails e nas fotografias que lá guardo. Na máquina fotográfica que, sem preparação, faleceu. Paz. À sua alma. Ao momento em que paro para ouvir as músicas de tanto tempo. Ainda, não sendo seguidor de uma certa burguesia, que raras vezes aventam fazer parte da estrutura, estaria no Instagram ou a ler um qualquer texto de um fazedor de opinião. Numa mensagem escrita, falava-me do evento. Havíamos de ir, antes de descermos, continuava. Atraiçoa-nos a pressa dos dias. Sem soluços maiores, num relâmpago mais precoce, eis o dia certo. O recinto alargado, a terra algures sossegada, o palco principal lá ao fundo, em destaque. Ao lado, outros, menores. Fica-lhes o talento buliçoso. Que não tem tempo para brincadeiras alargadas. Nunca de somenos relevância. O espaço compõe-se à velocidade de um vídeo apressado. Aglomeram-se junto ao palco maior, dando primazia aos cabeças-de-cartaz. A curiosidade aguça. Vêem-se, também, pequenos grupos. Amigos e conhecidos em amena convivência. Impera e reina a boa disposição. O corpo pede conforto, os acessórios gritam por socorro. Numa nota mísera, os chapéus ainda estão na moda. As marcas fazem o seu trabalho e, no recinto, estão ao nível das tatuagens. Estão em todo o lado. Chegada a hora, o palco faz vibrar, braços ao alto, mãos num movimento frenético. Entre luzes, som e adrenalina, gritam os espectadores entusiasmados. Sobrevivem, naquela excitação, os telemóveis que alumiam. A fotografia da despedida, o adeus resumido numa mão bamba. De cigarro na boca, ao jeito de um retrato a preto e branco. Foi assim, em grande escala. Numa outra pausa, rir-nos-emos do resto. É sempre assim.