Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
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20.4.17
28.4.15
Em diferido. #33
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há
em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me
obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há
em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou
porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de
ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi
esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas.
No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida.
Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma
fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com
quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que,
fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no
pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que
diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória,
do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se
apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa
engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É
lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada
altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois
os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade
distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a
arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra.
Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.
12.3.15
Tipicamente recalcitrante.
As
revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo
distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a
ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e
revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar
a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me,
não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a
passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto,
perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro,
por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte
ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta
será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a
qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me
lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis.
Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem
adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende
ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de
um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina.
Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate
técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De
preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e
personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque,
sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas
acabo de escrever com uns ténis calçados.
14.10.14
Gosto e saber.
É
uma viagem que não tem tempo, nem fim. É um risco quando nada se sabe. Subir
uns dedos, baixar uns centímetros. Manter a elegância do número certo de
botões. Jogar com as corres dos carros de linhas. Preferir a elegância de não
misturar, senão preto e branco. Há uns tempos, uma conhecida dizia-me que a
base é feita de preto e branco. Daí, partes à aventura do que te enriquece o
todo. Acessórios, tons. Adornos que passam rápido mas, enquanto existem,
envolvem a vasta exposição. E volto, inevitavelmente, aos ténis. Uma paixão sem
fim. Prefiro assim. Ao invés de aventuras sem medida. Falar do que não aprendemos,
mas que resumimos à sensação do que nos passa cada peça. Também esta volta é um
risco. E tornam as vozes – os ténis não devem,
tampouco podem ser, o calçado de um homem – Repete-se a mesma travessia sem
fim. Depois esqueces as inspirações e vives como e com o que te apetece. Mesmo
que os sapatos, por vezes, ganhem aos ténis.
16.7.14
Ligação afectiva e efectiva.
Alinham-se
anseios no momento de desvendar um dos tantos pontos indiscretos. Sorrimos,
hesitando horas de tormento em que se assume a ponte entre o gostar e o sentir.
Não falo de relações, tampouco de relacionamentos. Estão cansados, alguns. Fugazes,
qual moda de rua. Qual modelo de passerelle.
Como se desfilar, independentemente do lugar, fosse o ponto mais importante. A
alma cansa-se com o testemunho vivido. Discutem-se corpos treinados, opções
fugidias. Combinam-se festas, ocasiões díspares, exigindo modelitos diferentes.
Mas volto ao sorriso, que tão gasto, oferece-se sempre como alternativa.
Sorrio, instantes antes de admitir ter comprado uns ténis. Mais um par,
pensarão tantos. São os ténis, digo eu. Por obra do acaso, no mesmo dia,
comprei mais um par de sapatos. Mas prefiro os ténis, sempre. Ao meu pai, numa
conversa tão descontraída, contei-lhe primeiro dos sapatos. Um pré-aviso. Em
tantas vezes, assume a sua postura irredutível no que concerne ao uso dos
ténis. Limitem-se a usá-los nos espaços
apropriados, diz ele. Refere-se, claro, a ginásios, desportos vários e uma
ou outra situação bem mais casual. Refuta qualquer ligação entre um par de
ténis e um fato. Hei-de escrever sobre isto. Agora, sorrio. Antes mesmo de
dizer que comprei uns ténis. Alinham-se anseios por nada. E por tudo.
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