Conheci-a
num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia
que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo
foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de
quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a
areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o
tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou.
Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim
amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não
focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado,
algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor.
Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos,
apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num
baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos
primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas.
Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as
memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se
permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore
que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala
de mão. Não me esqueço.
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28.3.14
Uma senhora não tem idade, mesmo que esteja de parabéns.
Acordei
cedo e ofereci-lhe um beijo. Podia escrever-lhe um cartaz gigante, com letras
desenhadas, de forma impecável, à mão. Podia desenhá-las como fiz e escrevi
durante anos, até ao instante em que me cansei, da forma mais redonda e
primária. Tal e qual aprendemos nos primeiros anos de escola. Talvez por isso,
lhe chamávamos letra de primária. Podia fazê-las, no desenho ao meu jeito, mas
haviam de ser tão grandes como o cartaz. Seria, de outra forma, impensável. Imensas,
as letras. Imenso, o cartaz. Ambos imensos, à semelhança do amor que lhe tenho.
Do amor que, sem excepção, esta família lhe tem. Conforme acredito, os números
são somente memórias, porque é de gente e afectos que se faz uma vida. Que se
escreve um calendário. Para a minha família é assim. A família que, por grito
da vida que se perde, se fez e segurou-a como a base do nosso sistema. Como a
matriarca. Dela, não me esqueço, jamais. Com ela me cruzo amiúde. Não perco a
memória de vê-la na cadeira, na sua cadeira, num dos cantos da sala, com o seu
ar, por vezes, áspero, que enganava, somente, os mais distraídos. A estatura
média, suportando um tailleur vistoso
de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instalada na extremidade,
tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadas para a esquerda, os braços
ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Na mão esquerda, permanece a
aliança. Memória residente. Nisto tudo, é uma mulher tão modesta, da mesma
forma como nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou
mulher, não nos esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos. E,
não consigo esconder o orgulho. O orgulho de tê-la como minha avó. Parabéns.
Por hoje. Por tudo.
21.2.14
Interjeição.
Una persona grata, cujo flirt humilha a comédia enraizada pela prima-dona que dirige e
encabeça um espectáculo relacional. É desenhada por si só. Desenha-se para se
recomendar. Veste a figura, enquanto despe a pele. Canta solenemente. É uma
personagem sem autor maior. Talvez, Tim Burton a esculpisse, depois de lhe
escolher a figura. Faz-me todo o sentido. O perfume que escolheu e exala sem
esforço, é forte quanto baste, pois serve-lhe o reforço da soberba aparência.
Só é escura no princípio. Nos primórdios. Guarda hilariantes experiências.
Sombras também. É verdade. Conheci-a hoje. Conversamos num sofá bordô, imitando
os de hotel. Marcou-me por tudo isto. Há mais. Para quê apressar o sossego?
4.2.14
Memórias quentes. Senhoras e senhores.
Não
ficamos presos à velha discussão, jamais. Somos adultos e gente de espírito
livre. Razoável, pensamos sempre. Não nos centramos nas evidências. Avançamos
para lá disso. Engraçado, o tema surge à mesa, à esquina, no entretanto,
algumas vezes. O calor, real impulsionador das tertúlias. Das conversas até
tarde, até altas horas. As mulheres, os homens. Os defeitos, as virtudes. As
capacidades, as incapacidades. O talento, o desalento. O pensamento, a ausência
dele. A forma, o conteúdo. Tudo. Falamos de tudo, sempre. Senhoras e senhores.
Senhoras ou senhores. Todos. A todos serve os adjectivos e proposições. Não
generalizamos. Definimos ainda menos. Ficamo-nos pelas evidências. Por hoje,
por fim. Contrariando, ficamo-nos pelo irrevogável. Senhoras e senhores. Ambos.
17.12.13
Em diferido.
O
portão automático abriu, depois da campainha soar. Do lado de lá, um jardim
infindável, recusava mostrar o piso zero da vivenda. Um bonito e bem tratado
jardim. Muito trabalho e horas de entrega, estão espelhados ali. Entre o
colorido das plantas, surge uma senhora. Conta, com certeza falsificada, com
mais de setenta anos. Arrisquei para mim. Sorriu-me. Pediu-me que entrasse.
Fi-lo e retribui-lhe o sorriso. Dois beijos. Gabei-lhe o bonito jardim. Estava
à minha espera. Indicou-me o caminho para o interior da casa. Disse-me o nome.
Perguntou-me o nome. Seguimos para o salão. Ao centro, uma imponente e
portentosa lareira, ladeada por uma, não menos imponente estante. As paredes de
um amarelo pálido, os sofás ao centro. Sentamo-nos. Ali, à conversa. Foi
simpática. De estilo simples e despreocupado, fomos conversando. Temos, vim a
saber, pessoas em comum. Até aqui, desde que mostrei gostar do seu jardim,
explicou-me tudo. Lamenta a quantidade de água que despende. Vive, aos setenta
anos que lhe atribui, sozinha. Naquela casa. A rua, as pessoas, as suas
plantas, o seu jardim, são, com um sorriso, a sua companhia. A cada dia, não
dispensa sair e ver. Todos os dias, com verdade, mantém a necessidade de
socializar, muito viva em si. A senhora que tem uma vivenda é, também, a
senhora que tem e cuida de um bonito jardim. Não obstante, vive. Vive para lá
do portão automático. E gosta de viver. Gosta de ver pessoas e interpelá-las.
Gosta de tudo isso, quando, do portão para fora, não se refugia no jardim.
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