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20.5.14

Veste azulejos como quem dorme sem descansar.

Conheci-a num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou. Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado, algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor. Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos, apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas. Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala de mão. Não me esqueço.

28.3.14

Uma senhora não tem idade, mesmo que esteja de parabéns.

Acordei cedo e ofereci-lhe um beijo. Podia escrever-lhe um cartaz gigante, com letras desenhadas, de forma impecável, à mão. Podia desenhá-las como fiz e escrevi durante anos, até ao instante em que me cansei, da forma mais redonda e primária. Tal e qual aprendemos nos primeiros anos de escola. Talvez por isso, lhe chamávamos letra de primária. Podia fazê-las, no desenho ao meu jeito, mas haviam de ser tão grandes como o cartaz. Seria, de outra forma, impensável. Imensas, as letras. Imenso, o cartaz. Ambos imensos, à semelhança do amor que lhe tenho. Do amor que, sem excepção, esta família lhe tem. Conforme acredito, os números são somente memórias, porque é de gente e afectos que se faz uma vida. Que se escreve um calendário. Para a minha família é assim. A família que, por grito da vida que se perde, se fez e segurou-a como a base do nosso sistema. Como a matriarca. Dela, não me esqueço, jamais. Com ela me cruzo amiúde. Não perco a memória de vê-la na cadeira, na sua cadeira, num dos cantos da sala, com o seu ar, por vezes, áspero, que enganava, somente, os mais distraídos. A estatura média, suportando um tailleur vistoso de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instalada na extremidade, tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadas para a esquerda, os braços ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Na mão esquerda, permanece a aliança. Memória residente. Nisto tudo, é uma mulher tão modesta, da mesma forma como nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou mulher, não nos esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos. E, não consigo esconder o orgulho. O orgulho de tê-la como minha avó. Parabéns. Por hoje. Por tudo.

21.2.14

Interjeição.

Una persona grata, cujo flirt humilha a comédia enraizada pela prima-dona que dirige e encabeça um espectáculo relacional. É desenhada por si só. Desenha-se para se recomendar. Veste a figura, enquanto despe a pele. Canta solenemente. É uma personagem sem autor maior. Talvez, Tim Burton a esculpisse, depois de lhe escolher a figura. Faz-me todo o sentido. O perfume que escolheu e exala sem esforço, é forte quanto baste, pois serve-lhe o reforço da soberba aparência. Só é escura no princípio. Nos primórdios. Guarda hilariantes experiências. Sombras também. É verdade. Conheci-a hoje. Conversamos num sofá bordô, imitando os de hotel. Marcou-me por tudo isto. Há mais. Para quê apressar o sossego?

4.2.14

Memórias quentes. Senhoras e senhores.

Não ficamos presos à velha discussão, jamais. Somos adultos e gente de espírito livre. Razoável, pensamos sempre. Não nos centramos nas evidências. Avançamos para lá disso. Engraçado, o tema surge à mesa, à esquina, no entretanto, algumas vezes. O calor, real impulsionador das tertúlias. Das conversas até tarde, até altas horas. As mulheres, os homens. Os defeitos, as virtudes. As capacidades, as incapacidades. O talento, o desalento. O pensamento, a ausência dele. A forma, o conteúdo. Tudo. Falamos de tudo, sempre. Senhoras e senhores. Senhoras ou senhores. Todos. A todos serve os adjectivos e proposições. Não generalizamos. Definimos ainda menos. Ficamo-nos pelas evidências. Por hoje, por fim. Contrariando, ficamo-nos pelo irrevogável. Senhoras e senhores. Ambos.

17.12.13

Em diferido.

O portão automático abriu, depois da campainha soar. Do lado de lá, um jardim infindável, recusava mostrar o piso zero da vivenda. Um bonito e bem tratado jardim. Muito trabalho e horas de entrega, estão espelhados ali. Entre o colorido das plantas, surge uma senhora. Conta, com certeza falsificada, com mais de setenta anos. Arrisquei para mim. Sorriu-me. Pediu-me que entrasse. Fi-lo e retribui-lhe o sorriso. Dois beijos. Gabei-lhe o bonito jardim. Estava à minha espera. Indicou-me o caminho para o interior da casa. Disse-me o nome. Perguntou-me o nome. Seguimos para o salão. Ao centro, uma imponente e portentosa lareira, ladeada por uma, não menos imponente estante. As paredes de um amarelo pálido, os sofás ao centro. Sentamo-nos. Ali, à conversa. Foi simpática. De estilo simples e despreocupado, fomos conversando. Temos, vim a saber, pessoas em comum. Até aqui, desde que mostrei gostar do seu jardim, explicou-me tudo. Lamenta a quantidade de água que despende. Vive, aos setenta anos que lhe atribui, sozinha. Naquela casa. A rua, as pessoas, as suas plantas, o seu jardim, são, com um sorriso, a sua companhia. A cada dia, não dispensa sair e ver. Todos os dias, com verdade, mantém a necessidade de socializar, muito viva em si. A senhora que tem uma vivenda é, também, a senhora que tem e cuida de um bonito jardim. Não obstante, vive. Vive para lá do portão automático. E gosta de viver. Gosta de ver pessoas e interpelá-las. Gosta de tudo isso, quando, do portão para fora, não se refugia no jardim.