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16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

21.1.15

Em diferido. #26

Mesmo quando vens lá de longe - Se vislumbrar os recados, vem de longe a minha necessidade de me centrar em objectos. Em pontos de partida, uma roda que vem da pausa desse escopo. Gira dele em diante. É amor pelo descanso da matéria. Prefiro, se me é permitido, chamar-lhe encantamento, por ser o amor um terreno de génio estouvado. Base melindrada mas capacitada para qualquer máquina, assim é o cimento e o alcatrão que inventam um palco. Rua decorada e boémia. Não se queixam as gentes, por não lhes resistirem. Às banquetas, cadeiras e sofá encostados a uma parede lavada de arte do desvio. Um friso sem igual. O amarelo fica-lhe bem, ao sofá. Senta-se a miúda que descarrila nas amizades de circunstância. Senta-se como se fosse o seu destino. Tem os joelhos melindrados. Descruza as pernas e leva os pés calçados ao assento. Sorrindo, pergunta se temos um cigarro. Soa a resposta em uníssono. Despreocupada, foge-lhe a mão para a mala e tira um cigarro. Arriscando, as pessoas procuram os lugares.

29.12.14

Desculpem a minha pantomima invertida.

Em tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia. E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.

17.11.14

Mesmo quando vens lá de longe.

Se vislumbrar os recados, vem de longe a minha necessidade de me centrar em objectos. Em pontos de partida, uma roda que vem da pausa desse escopo. Gira dele em diante. É amor pelo descanso da matéria. Prefiro, se me é permitido, chamar-lhe encantamento, por ser o amor um terreno de génio estouvado. Base melindrada mas capacitada para qualquer máquina, assim é o cimento e o alcatrão que inventam um palco. Rua decorada e boémia. Não se queixam as gentes, por não lhes resistirem. Às banquetas, cadeiras e sofá encostados a uma parede lavada de arte do desvio. Um friso sem igual. O amarelo fica-lhe bem, ao sofá. Senta-se a miúda que descarrila nas amizades de circunstância. Senta-se como se fosse o seu destino. Tem os joelhos melindrados. Descruza as pernas e leva os pés calçados ao assento. Sorrindo, pergunta se temos um cigarro. Soa a resposta em uníssono. Despreocupada, foge-lhe a mão para a mala e tira um cigarro. Arriscando, as pessoas procuram os lugares.

19.8.14

Algarve, posto de obrigação.

Fazer fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite. Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.

13.8.14

Manifestação conforme o tremor da vontade.

Ao redor, pessoas com vibrações felizes, mergulhos e salpicos na água, areia e terra, árvores. Os ambientes adversos - se quisermos com esta definição ressalvar o hábito normativo de um qualquer lugar onde uma instalação denominada arte se expõe. Seja peça, seja pessoa. – são um trocadilho certeiro no ensejo de liberdade. Uma respiração. Depois outra. Desordenadas. Desencontradas no acerto. Uma atiçava. A outra era a resposta imediata. Assim, com tão mais sentido. Um ventre despido e dançador, porventura, amador. Por tudo, denunciando uma irracional concupiscência. De parte a parte. Findo o espectáculo, aplaudiu. De seguida, fecham-se as portas da intimidade. Não importa, senão a consciência e a vontade. Não sabemos os nomes, nem o sexo, sequer, a orientação. Fica-nos a demonstração e o sentimento embrulhados numa acção. Naquela acção.

11.8.14

Representar sob a respiração.

Podes imaginar um baloiço lá ao fundo. Já não é parte do quadro. Fora noutras bravas aventuras. Podes desenhá-lo em ferro de cor verde. Entre o novo e o agastado leve. Incoerências dos e do que se expõe. Ao ar livre, tão liberto quanto uma gota que cai e se permite correr e escorrer pelo e por quem com ela se cruzar. Podes começar o desenho. Num caderno negro como o meu, de pequenas dimensões. De folhas limpas de linhas. Despidas à procura da imaginação. Seguras pelo elástico que envolve. Podes continuar a imaginar, agora, também, a desenhar. Escolhe o enquadramento, alinha o que vês, entre linhas certeiras, outras enviesadas. E, dimensões à parte, sentá-la, à que merece todos os predicados, assim te sintas refeito, no baloiço. Dois lugares em repouso. Na sequência, fá-los andar. Leves, como quem começa. A seguir, mais possante. E brincam num baloiço de inventar. Até que se lembre a parar. Podes imaginar e desenhar tal e qual, desta forma. No final, mesmo que não acredites em relações, diz-lhe que te esforçaste. Agora, antes de fechares o teu caderno, ri-te da sensibilidade de tudo começar na imaginação.

31.3.14

Não resisto.

Ver uma pessoa, absolutamente só e à chuva, de mala no chão, sapatos alagados, à espera de algo ou alguém, com a mesma postura e olhar de quem fica suportada pela parede luzidia num dia de verão que conserva o calor e publica o sol mais atrevido. Não resisto, assim, de sorrir e permitir ter no pensamento que, vida, ambição e esperança, cada um toma a que quer.