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20.8.14

Sensibilidade no lugar certo.

O fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada, enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir. Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos. Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está. Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver com o objecto do afecto nas mãos.

19.8.14

Algarve, posto de obrigação.

Fazer fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite. Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.