Plano
de uma peça - O carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante
no meio-termo e inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à
praia, permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos
similares. Quase repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas
expostas. A postos, os nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os
pés a conhecerem a temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a
ganhar cor. O sol a dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos
lugares. Jogam à bola e não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem
parar. Por trás, bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos
ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós
e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele
verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que
traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha
a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As
pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito
nível de personalidade.
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8.9.14
2.9.14
Época de cores quentes.
Volta
as costas para a janela, entreaberta e de cortina a vibrar. Nasce uma silhueta
sentada numa secretária de madeira. A divina postura e o divertido balanço de
cores com que joga o sol. De um papel de medidas certas, cor forte. Verão num
quadrado. Sol na luz e granulado da folha. Desenha um cisne com a coerência,
sensatez e simplicidade de quem não pensa. Faz. Como se a candura de não ligar
acções e pensamentos fosse um dado adquirido. A sala ganha tons e sombras. Este
bocado de papel é um recorte de alguém. O verão é, senão outras definições, um
pedaço. De alguém. De quem e a quem importa.
7.8.14
Gosto de riscas.
Há
naquele toldo de riscas a condizer, qualquer coisa de atraente. Chama-nos ao
pormenor. É decoração a céu aberto, bom gosto ao serviço de quem lhe souber
aproveitar. Convida a atenção a sossegar-se ao seu lado. Lista sim, lista não.
Risca de uma cor, risca seguinte de outra. Repetem-se os dois tons.
Característica de verão quente. Recuamos décadas, mas esquecemos, por ora, um
fragmento da história deste país. Verão quente, mas noutros moldes. O branco é
rei. Cheira a mar desassossegado na temperatura, cordial no vai-vém. Algumas
pessoas, de corpos vestidos com o rigor da estação, olham o toldo e sorriem.
Outros, deixam-se parar. E comprar. É pura memória. É dos tempos de uma linha
onde os ascendentes tinham, por esta altura, vida com vagar. É um toldo, mas
faz recordar. Verão, na linha ou noutro ponto, é um gelado na mão. Uma família
a passear, um toldo por onde passar. No fundo, memórias que, sem esforço,
fazemos por guardar.
4.8.14
De soslaio num Algarve de agitação sem fim.
Praia,
sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas
frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo
Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime
excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado,
como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância
nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível
entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão.
Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos
o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da
piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o
ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não
deixou de ser um agradável amuse bouche
para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.
11.7.14
Plano de uma peça.
O
carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante no meio-termo e
inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à praia,
permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos similares. Quase
repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas expostas. A postos, os
nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os pés a conhecerem a
temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a ganhar cor. O sol a
dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos lugares. Jogam à bola e
não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem parar. Por trás,
bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos
ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós
e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele
verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que
traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha
a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As
pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito
nível de personalidade.
24.3.14
Aumentar a parada.
Olha,
senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem
medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo.
Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do
sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de
livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando
memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito,
claro. Temos tempo.
13.3.14
Café da manhã.
A
janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais
sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador,
contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que
o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias,
avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim,
eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada,
pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com
frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo
ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não
compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou
a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela
metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de
envolver e casar com o café. Vou-me embora.
17.2.14
Faixa dois.
Prazeres
em revista, rematou ela. As noites não correm sempre. Só para não perder, só
para não dar hipóteses. Deslumbrante, justa, flexível. Vem do recobro. Uma
manhã destas, das que oferecem sol no imediato do nascer, começou cedo. O
compasso acompanhado. Mitiga o frio, que luta pelo título maior. Da porta para
dentro é diferente. O iPod ligado às
colunas, passa, entre outras, uma faixa de Adriana, a portuguesa. A televisão
está muda, propositadamente sem pio. Mas repete um episódio de uma série
intemporal. Sobre relações. Opina, desobediente, sobre elas e eles. Das que são
talhadas, ao pormenor, para mulheres mas que, não se iludam, os homens
espreitam. Apreciam, de quando em vez. Não vou fazer referência às legendas.
Senão esta. E segue-se outra faixa de Adriana, a portuguesa. Que conta vidas
corridas em sopros, com a melodia de quem é bafejado pelo dom. Na televisão
discutem-se frivolidades. Que são o motor, bem sabemos. Contra factos, não há
argumentos. Podem andar de mãos dadas, aqui ao vivo, ou na televisão em
repetições em bruto. Qual diamante. As vozes também. Não há lados nem lugares
certos. Ouve o que quiseres. E dá a mão a quem bem entenderes.
20.12.13
O detector de estudantes internacionais.
Num
cumprimento quase desconhecido, dizem-me que tenho ar de quem estudou fora,
noutro país. Logo no dia em que dispensei as lentes de contacto e que me
permiti oferecer destaque aos meus excepcionais óculos graduados. O dia espalha
sol sublinhado, aos molhos, por um feito paralisante, tanto é o frio que nos
assalta. O cabelo, trago-o num desarrumado trabalhado. A barba, aparada num
digno subjectivo. Sinto-me internacional e nem saí do lugar. Não viajei para
estudar. Passem-me para cá o passaporte. Tenho carimbos pendentes. Ficamos
assim?
11.8.13
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