Solta
uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras.
Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É
impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as
vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do
entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor.
Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o
microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão
acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho,
música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os
primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira
se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto
de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar
todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar
algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente
ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser
um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.
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2.8.16
13.10.15
Homem muito sabedor.
Ao
fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as
claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo.
Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O
som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os
espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao
redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma
carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda
as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do
dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de
cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para,
logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase,
robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços
sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por
sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem
velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a
coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso
demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma
agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os
autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o
espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.
3.6.15
Em diferido. #35
Manhã
bonita - Da porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
30.3.15
Voz que celebra heróis.
Nas últimas semanas tenho estado a trocar
mensagens com uma amiga. Mensagens escritas. Ora no mail, ora no telemóvel. Ou
numa ou outra rede social. Não estamos juntos fisicamente há tempo sem conta.
Demasiado. Contava-me das aventuras de uma cidade distante. Do David, eterno
beto de cabelo viciado. Zangou-se com o rapaz, premeditadamente, para
afugentá-lo. Excessiva parcimónia em inenarráveis actividades. Mau sexo também.
Enviou-me uns links. Adiei a visita. Já não sou capaz de contar os anos que
passaram desde o momento em que conheci a Joana. Chamemos-lhe pelo nome da
menina que come a papa, enquanto lhes cantarolam ao ouvido, de colher em riste.
Como quem fecha os olhos e permite-se imaginar. Devíamos ser assim, agentes da
imaginação impar e desassossegada. Porque a Joana não deixa de ser assim. E é,
sem grandes filosofias, uma miúda certa e feliz. Vai estando feliz. Canta, a
Joana canta. Às vezes, aqui me confesso, esqueço. Não me lembro que a Joana
pequenina, que conheci lá atrás, numa infância que parece distante, canta. Numa
infância quase ausente. Muito mais do que, de facto, é. Canta e fá-lo com
propriedade. Pois, vamos lá tentar entender, canta e fá-lo com talento. E,
finalmente, decidi abrir os links. Lá estava ela, bonita de olhos expressivos.
Os lábios atrevidos. A cantar em bares. A interpretar canções de outros. Em
jeito de rodapé, num dos e-mails com o link em anexo, perguntava a minha
opinião. Não sou o tipo mais avalizado para isso. Mas sei do que gosto. E tu,
Joana, cantas tanto. Dias depois, ela respondia. E recusava a minha resposta.
Agradecia, mas queria saber o que tinha para dizer sobre actuações ao vivo, em
bares variados, com canções de outros. O estigma existe, bem sei. Mas não
merece poste e bandeira. Joana, boa amiga, só se lixa quem quer. O preconceito
tem lugar para lá do dicionário, mas não vive para sempre. Cantas para caraças,
mesmo que a expressão seja típica da génese do calão. O resto é impertinências,
tal e qual, uma insónia. Canta onde te deixarem. Até que te valorizem a alma na
voz. Minha boa amiga, tens garganta. Humilha o povo sobranceiro e arrogante.
Joana, um beijo. E sê velhaca. Há quem goste.
12.2.15
Manhã bonita.
Da
porta grande para dentro. Sol de inverno e frio sem qualificação. Convidaram-me
a sentar. Ali mesmo ao lado, numa cadeira sem grandes dotes decorativos.
Sorriram-me com leveza e alegria. Leram-me excertos de um livro bom. Voz
melodiosa e veloz na esperteza com que se coloca. Ouvi prosa bonita e poesia
verdadeira. Parece feita de propósito para quem a ouve ou lê. Seguraram-me a
atenção sem sacrifício, iluminaram uma sala com as palavras e os conceitos.
Manhã bonita, sem defeito. Mulher sábia que escolhe cada letra. Desenha as
palavras com as mãos no papel branco. Escolhe cada tom. Cada tonalidade. Estão
todos ali, junto dela. Hoje, quando o dia chegar ao fim, lembrar-nos-emos de
cada instante. Nenhum repetido. Ninguém cansado. Alimentamos os sentidos. Cada
um. Mesmo depois da porta grande para fora. Só me resta agradecer. E voltar a
ler.
26.11.14
Em diferido. #23
Dar
e possuir vida - Presta atenção ao que te digo. Esse vaivém em que ficas quando
visitas o que alguém expõe, não acrescenta nada de novo à tua interpretação das
telas. Complica-te, desde logo, as ideias, depois as sensações e os sentimentos
que possas, porventura, adquirir enquanto desfocas o olhar e a atenção, quando
pretendes o inverso. É bem mais difícil conheceres a raiz e a matriz deste
autor. Nem te apercebes dos tons, das texturas, no fundo, dos materiais, da
obra. Puxa uma cadeira, encosta-a à parede ou coloca-a no centro da sala. E,
então sossegado, permite-te admirar. Não há cadeiras? Claro que não. O espaço
é, propositadamente, clean e destaca
a obra. Não há cadeiras? Bem sabemos que não. Distancia-te do vaivém em que
ficas quando visitas a manifestação da produção intelectual de alguém. E
aproveita. Puxa da imaginação. E, se preciso for, senta-te na cadeira composta
pela criação, no chão. Em frente, o tal objecto artístico. Aproveita o
privilégio de habilitar o conhecimento.
2.4.14
Falta(va) alguma coisa.
No
cimo das escadas, no hall superior,
que dar-lhe-ia acesso aos quartos, lembrou-se da falta de cor. Do branco total.
Da luz em excesso. Foi então que, voltou ao andar inferior e pegou nas canetas.
No quarto, deu forma à imaginação e, agora, tem vida. Tem luz, sossego e muito
menos aborrecimento. Tem uma galeria em casa, com talento e sentimento.
Faltava. E eu gostei de conhecer.
27.3.14
Dar e possuir vida.
Presta
atenção ao que te digo. Esse vaivém em que ficas quando visitas o que alguém
expõe, não acrescenta nada de novo à tua interpretação das telas. Complica-te,
desde logo, as ideias, depois as sensações e os sentimentos que possas, porventura,
adquirir enquanto desfocas o olhar e a atenção, quando pretendes o inverso. É bem
mais difícil conheceres a raiz e a matriz deste autor. Nem te apercebes dos
tons, das texturas, no fundo, dos materiais, da obra. Puxa uma cadeira,
encosta-a à parede ou coloca-a no centro da sala. E, então sossegado,
permite-te admirar. Não há cadeiras? Claro que não. O espaço é,
propositadamente, clean e destaca a
obra. Não há cadeiras? Bem sabemos que não. Distancia-te do vaivém em que ficas
quando visitas a manifestação da produção intelectual de alguém. E aproveita. Puxa
da imaginação. E, se preciso for, senta-te na cadeira composta pela criação, no
chão. Em frente, o tal objecto artístico. Aproveita o privilégio de habilitar o
conhecimento.
17.2.14
Faixa dois.
Prazeres
em revista, rematou ela. As noites não correm sempre. Só para não perder, só
para não dar hipóteses. Deslumbrante, justa, flexível. Vem do recobro. Uma
manhã destas, das que oferecem sol no imediato do nascer, começou cedo. O
compasso acompanhado. Mitiga o frio, que luta pelo título maior. Da porta para
dentro é diferente. O iPod ligado às
colunas, passa, entre outras, uma faixa de Adriana, a portuguesa. A televisão
está muda, propositadamente sem pio. Mas repete um episódio de uma série
intemporal. Sobre relações. Opina, desobediente, sobre elas e eles. Das que são
talhadas, ao pormenor, para mulheres mas que, não se iludam, os homens
espreitam. Apreciam, de quando em vez. Não vou fazer referência às legendas.
Senão esta. E segue-se outra faixa de Adriana, a portuguesa. Que conta vidas
corridas em sopros, com a melodia de quem é bafejado pelo dom. Na televisão
discutem-se frivolidades. Que são o motor, bem sabemos. Contra factos, não há
argumentos. Podem andar de mãos dadas, aqui ao vivo, ou na televisão em
repetições em bruto. Qual diamante. As vozes também. Não há lados nem lugares
certos. Ouve o que quiseres. E dá a mão a quem bem entenderes.
12.2.14
Em diferido. #4
Ter
Amália Rodrigues como mote, afinal, não é redutor. Não é pouco, nem é uma
tentativa, infrutífera, de trasladar um talento e uma obra impossíveis de
reproduzir. Não é, necessariamente, infausto. Não é, quando surgem nomes e
talentos que não desapontam. Quando, a voz e a humildade se fundem e dão lugar
a algo diferente mas, igualmente, bonito. Na conclusão, onde tudo desagua,
encontramos uma artista, de alma na voz e, com convicção, faz jus à epígrafe.
Mostra-nos que o título é uma parte, não é o todo. Tantas vezes, não mostra o
verdadeiro conteúdo.
28.1.14
Em diferido. #3
Ela é ilustradora. Ele também. Tenho
uma amiga. Tenho um amigo. Não se conhecem. São ambos ilustradores. Gosto dos
dois. Perco-me, sempre que os visito, nos seus trabalhos. A arte, seja em que
forma, é um bem maior. Ter a oportunidade de ficar, sem hora, a olhar para o
trabalho de um artista é qualquer coisa de maravilhoso. Invejavelmente
maravilhoso. Com o melhor que a inveja pode ter. Se é possível. Ambos, embora,
ilustradores, mostram-me coisas dispares. Igualmente belas. A concepção
diverge-os, mas a arte e criatividade aproxima-os. Felizmente, também e muito,
na arte, os valores e a imaginação são livres.
10.12.13
Artistas da amizade.
Recebi
de presente um CD. Um brilhante CD de uma das mais intensas e admiráveis vozes
masculinas do momento. Uma voz que altera a visão da tradição, sendo uma
renovação inocente e desejada, afinal, da tal tradição. Uma ode e sentimento de
apreço pela mesma. Ironicamente tentadora, esta dualidade de existências que
sendo, no mais íntimo, exactamente o mesmo, nos entregam como se fossem
antagónicas. Chamam-lhe sangue novo, atrevida roupagem de linguagem e som. Eu
sou fã. Mas, o mérito maior está na artista que, criativa, me ofereceu esta
peça de arte, em jeito de presente. Porque me conhece. Porque, repetidamente ou
não, a conversa é equivalente. A arte é maior. Até quando, resumida, os nossos
amigos são artistas da arte de gostar e preservar. Quando são artistas no
ofício de ver além do obvio, gostando do outro. Gostando de mim.
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