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5.7.16

A um passo dos ditosos.

Estive há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura, acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso, perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral. Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco do arrependimento, quase injusto. No Instagram uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.

2.12.15

Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.

No Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa, resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados, perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que, imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa. Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante, de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção. Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem. Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar aquela imagem. Não me livrei de uma selfie a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente. No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona daquelas feições?

24.6.14

Contas de um corpo desenhado.

A matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento, intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas. Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu, algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.

21.3.14

Chamemos-lhe tudo, menos Felicidade.

A escadaria do metro que antecede uma das zonas mais movimentadas da capital é, a par de outras estações, um requinte de troca de olhares, uma mistura de tropeços que se esquecem e falham por ali. É um contacto de voltas directas com as múltiplas culturas que, felizmente, vamos encontrando. A Felicidade, que não gosta, nem na intimidade, do seu nome, compensa no corpo, nos actos finos e tresloucados, se preciso em simultâneo, e nas palavras tortas. Veste-se como quer, não é oferecida, contudo é bastante ostensiva. É sedutora porque, como tantas vezes lhe sai boca fora sem pensar, o corpo é dela, desenha-o e esculpe-o ao seu jeito e feitio. Adorna-o como quer. Quanto às tatuagens, que as sabe de cor e salteado, mente quando lhe perguntam quantas são. Diz-lhes que não sabe. Mas faz a perfeita ideia. São treze. Propositadamente treze. Todas feitas na razão do pião que é a sua criatividade. Os sentimentos são anos que cessam a razão de cada uma. E torna a calhar-lhe na triste sorte quotidiana, voltar a passar pela estação de metro de todos os dias. Leva na mão direita uma mala grande e um livro. É Tolstoi. Tem um ar gasto e sedutor. Pergunto-me porquê Tolstoi. Ninguém é de ninguém. Nem as afinidades e os interesses. Não lhe perguntei. Ela seguiu doce e atrevida, como o passado que carimba com a sua passagem. Subindo a escadaria. A tatuagem maior a olhar para trás.

18.2.14

Obra por executar.

Antes de colocar o meu perfume preferido, depois de ajeitar o casaco e de apertar os atacadores do calçado de pele de tons castanhos. Enquanto aperto o meu relógio, um Casio banal, intemporal, lembro-me da tatuagem de um amigo. Porventura, a única que, até ver, me fez balançar. Porque, tantas vezes, a minha opinião é a mesma. Gosto de tatuagens, muito. Mas não as gosto em mim. Porque não gosto do sempiterno. Do para sempre. Em nada. E é do mais pessoal e privado possível. Outras tatuagens agoniam-me. Metem-me medo, de tão graves. Rafeiras e sem feição. Opiniões. Quem sabe, desde que não me esqueça de quem sou.