Estive
há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um
amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a
experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo
dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas
o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura,
acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso,
perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral.
Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no
braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me
perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não
perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não
desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda
mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco
do arrependimento, quase injusto. No Instagram
uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior
que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem
que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas
de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem
entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É
uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou
pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra
foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.
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5.7.16
2.12.15
Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.
No
Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros
colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa,
resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo
caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que
trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados,
perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem
pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal
e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o
sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É
assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que,
imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a
responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa
muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e
serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa.
Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante,
de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção.
Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a
arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem.
Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou
no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para
voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar
aquela imagem. Não me livrei de uma selfie
a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente.
No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona
daquelas feições?
24.6.14
Contas de um corpo desenhado.
A
matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de
progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o
que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento,
intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o
seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os
ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo
no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos
disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que
o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas.
Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às
convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na
norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu,
algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que
impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.
21.3.14
Chamemos-lhe tudo, menos Felicidade.
A
escadaria do metro que antecede uma das zonas mais movimentadas da capital é, a
par de outras estações, um requinte de troca de olhares, uma mistura de
tropeços que se esquecem e falham por ali. É um contacto de voltas directas com
as múltiplas culturas que, felizmente, vamos encontrando. A Felicidade, que não
gosta, nem na intimidade, do seu nome, compensa no corpo, nos actos finos e
tresloucados, se preciso em simultâneo, e nas palavras tortas. Veste-se como
quer, não é oferecida, contudo é bastante ostensiva. É sedutora porque, como
tantas vezes lhe sai boca fora sem pensar, o corpo é dela, desenha-o e
esculpe-o ao seu jeito e feitio. Adorna-o como quer. Quanto às tatuagens, que
as sabe de cor e salteado, mente quando lhe perguntam quantas são. Diz-lhes que
não sabe. Mas faz a perfeita ideia. São treze. Propositadamente treze. Todas
feitas na razão do pião que é a sua criatividade. Os sentimentos são anos que
cessam a razão de cada uma. E torna a calhar-lhe na triste sorte quotidiana,
voltar a passar pela estação de metro de todos os dias. Leva na mão direita uma
mala grande e um livro. É Tolstoi. Tem um ar gasto e sedutor. Pergunto-me
porquê Tolstoi. Ninguém é de ninguém. Nem as afinidades e os interesses. Não
lhe perguntei. Ela seguiu doce e atrevida, como o passado que carimba com a sua
passagem. Subindo a escadaria. A tatuagem maior a olhar para trás.
18.2.14
Obra por executar.
Antes
de colocar o meu perfume preferido, depois de ajeitar o casaco e de apertar os
atacadores do calçado de pele de tons castanhos. Enquanto aperto o meu relógio,
um Casio banal, intemporal, lembro-me
da tatuagem de um amigo. Porventura, a única que, até ver, me fez balançar.
Porque, tantas vezes, a minha opinião é a mesma. Gosto de tatuagens, muito. Mas
não as gosto em mim. Porque não gosto do sempiterno. Do para sempre. Em nada. E
é do mais pessoal e privado possível. Outras tatuagens agoniam-me. Metem-me
medo, de tão graves. Rafeiras e sem feição. Opiniões. Quem sabe, desde que não
me esqueça de quem sou.
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