Conheci-a
num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia
que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo
foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de
quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a
areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o
tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou.
Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim
amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não
focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado,
algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor.
Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos,
apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num
baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos
primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas.
Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as
memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se
permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore
que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala
de mão. Não me esqueço.
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19.12.13
Interrupção momentânea.
Insisto
em fazer café. Talvez não seja insistir. Acomodo-me, fazendo café. A
secretária, ausente de profissão. No computador, as letras como pássaros. No
iPod, a minha playlist, com força de
predilecta. Os óculos graduados, aquietados, por esta altura, na secretária. A
miopia, ocasião prevista, assente e duradoura. O telemóvel roubando espaço à
mesa onde escrevo. O bloco, onde subtraio lugar às folhas um tanto amarelas, quase
pálidas, com a minha letra desenhada. Ao fundo, as fotografias em circunstância
de monumento comemorativo. Em mim, o desdém do fracasso de não me importar com
o mal de me levar, cedendo à vontade de tropeçar, pela importância das
restantes divisões. Na última parte, o café é o encanto da intermitência.
18.11.13
Trocas o baixo destino pelo tratamento de primeira.
As
horas queimam-se à velocidade do foco e da entrega que concentras num trabalho.
Uma tarde, ainda que, produtiva, gasta-se sem que percebas. Quando os horários
não existem, ou antes, são ajustáveis, experimenta a organização. O computador
é a tua prioridade, sem o ser. Esqueces-te do que te rodeia. A música toca,
ajudando a criatividade. Se for possível. Há trabalhos que, no primeiro
contacto, se mostram carregados de aborrecimentos, de tão enfadonhos. Contudo,
ganham estatuto de interessantes. Estimulantes. Mesmo quando partes para eles
sem grande convicção. No final, horas e horas de entrega, de trabalho, o
resultado final chega ao destino. Entrega-lo. Está terminado. Afinal, está tal
e qual, pediram. Melhor, até. Gabam a criatividade e concretização do esboço.
Assim, esgotar o tempo, merece a pena. E desculpem-me, não simpatizo com o dito
popular, “dá Deus nozes a quem não tem dentes”. Quero acreditar que, primeiro,
Deus não perderia tempo com questões frívolas do quotidiano alheio, segundo,
Deus, como nos é dado a conhecer, não o faria, julgando os ausentes de dentição
perfeita e, terceiro, quem não tem dentes, as há-de comer. Assim, seja a sua
vontade. E haja tempo.
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