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20.5.14

Veste azulejos como quem dorme sem descansar.

Conheci-a num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou. Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado, algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor. Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos, apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas. Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala de mão. Não me esqueço.

19.12.13

Interrupção momentânea.

Insisto em fazer café. Talvez não seja insistir. Acomodo-me, fazendo café. A secretária, ausente de profissão. No computador, as letras como pássaros. No iPod, a minha playlist, com força de predilecta. Os óculos graduados, aquietados, por esta altura, na secretária. A miopia, ocasião prevista, assente e duradoura. O telemóvel roubando espaço à mesa onde escrevo. O bloco, onde subtraio lugar às folhas um tanto amarelas, quase pálidas, com a minha letra desenhada. Ao fundo, as fotografias em circunstância de monumento comemorativo. Em mim, o desdém do fracasso de não me importar com o mal de me levar, cedendo à vontade de tropeçar, pela importância das restantes divisões. Na última parte, o café é o encanto da intermitência.

18.11.13

Trocas o baixo destino pelo tratamento de primeira.

As horas queimam-se à velocidade do foco e da entrega que concentras num trabalho. Uma tarde, ainda que, produtiva, gasta-se sem que percebas. Quando os horários não existem, ou antes, são ajustáveis, experimenta a organização. O computador é a tua prioridade, sem o ser. Esqueces-te do que te rodeia. A música toca, ajudando a criatividade. Se for possível. Há trabalhos que, no primeiro contacto, se mostram carregados de aborrecimentos, de tão enfadonhos. Contudo, ganham estatuto de interessantes. Estimulantes. Mesmo quando partes para eles sem grande convicção. No final, horas e horas de entrega, de trabalho, o resultado final chega ao destino. Entrega-lo. Está terminado. Afinal, está tal e qual, pediram. Melhor, até. Gabam a criatividade e concretização do esboço. Assim, esgotar o tempo, merece a pena. E desculpem-me, não simpatizo com o dito popular, “dá Deus nozes a quem não tem dentes”. Quero acreditar que, primeiro, Deus não perderia tempo com questões frívolas do quotidiano alheio, segundo, Deus, como nos é dado a conhecer, não o faria, julgando os ausentes de dentição perfeita e, terceiro, quem não tem dentes, as há-de comer. Assim, seja a sua vontade. E haja tempo.