Não
se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer.
O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de
desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem
a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de
si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os
ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes
esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o
melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a
cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar.
Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os
cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete
esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada
falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como
menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se
tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes.
Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.
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18.11.15
18.2.15
Matilde. #2
Não
gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o
Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá,
não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro
outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de
Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado,
mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira
ou snobe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão.
Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de
que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita,
inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no
sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem
controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os
elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me
mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos
não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em
que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o
folião.
Um
ano volvido, a Margarida, que tem nome de flor, sossego e beleza, é a folia no
desprendimento das vozes que lhe são, felizmente, alheias. De saltos altos e
num vestido que mostra as pernas torneadas ou nuns Converse All Star, é quem sempre soube que era. Uma vez esquecido,
para sempre um Carnaval de verdade. É, agora, o folião que faz a ocasião.
10.12.14
É natal, senhoras e senhores.
É
Dezembro a caminhar. Chega o primeiro do mês e logo de festa se veste. Se
vestem. As casas, as ruas e as pessoas. O espírito toldado pela luz da ocasião.
Desde sempre, desde que tenho memórias, ainda petiz de vontades travessas, que
me lembro de ouvir que este é o mês das festas. Todo um período de trinta e um
dias em amena e alusiva festividade. É natal em cada esquina, feliz a época que
vive da alegria da criança traquina. Cá em casa, também dessa altura, ficou a
tradição de decorar a árvore sempre no mesmo dia de Dezembro. Não foi excepção.
Houve, algures, um emaranhado fio luminoso no meu soalho. Um pinheiro e
pormenores. Tantos detalhes, quantos a época exige. É natal, senhores. Guardei, numa rede
social deste tempo, para mais tarde recordar. Contrario-me em cada gesto, mas é
o natal a solicitar. Temos, assim, uma árvore decorada a rigor, pensada ao
pormenor. Alguém se ocupou das velas pintalgadas pela divisão, as mantas de
decoração. Trocámos o emaranhado luminoso pelos presentes que recebemos e ofertamos com
gosto. A mesma escolheu os temas de fundo, a banda sonora que reivindica para o
quotidiano da vida. A sala é o ponto privilegiado. Como noutros tempos. Os vidros
húmidos, as telas perfeitas. Desenhos da época, as ilusões eleitas. A consoada era
o pretexto ideal para um número elevado de companhia. A mesa composta, fiel aos
costumes e ao bom gosto. A cozinha num rodopio. A lareira, lá ao fundo, queimando lenha, o
fumo gastando-se lá fora. A família junta, fazendo muitos reunidos. Temos
conversas sem fim, damos destaque às histórias contadas e sabidas de cor, tão
repetidas se fizeram. É natal, senhores. Inevitavelmente marcam-nos a falta de membros
importantes e sem substituição. Uns ausentam-se por agora, outros para sempre.
É Dezembro, chega o fim do ano. Repetir-se-á, novamente, no próximo ano. As
histórias também. Vozes e presenças falhadas. Que nos faltam. É natal e,
aproveitando-o, partilhamos pessoas para sempre ausentes. É natal, estamos
presentes.
23.10.14
Nomes ao vento.
A
vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina.
De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com
a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um
segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas
daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite
anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser
e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que
fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta
na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao
camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como
o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As
costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que
nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos
das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os
lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia,
quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.
21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
4.3.14
Matilde.
Não
gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o
Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá, não
me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro
outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de
Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado,
mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação
sobranceira ou sonbe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem
discussão. Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a
prova de que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita, inteligente,
servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no sítio,
apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem
controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os
elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me
mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos
não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em
que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o
folião.
3.12.13
É Natal.
Dou
por aberta, oficialmente, a época festiva que se vive, de gosto e de herança, por estes
dias, neste espaço com um título sóbrio, resumido e cabalmente evidente. É
natal. Tomei noção porque, cá por casa, temos uma árvore altamente decorada,
velas distribuídas aleatoriamente, Michael Bublé a soar pelas divisões, bolas e
fitas a condizer. Um admirável mundo que vem a cada ano repetir-se. Mundo de que gosto. A idade
inocente já se perdeu. Ficou lá atrás, fatalmente. Com a tenra idade, ficou o
pinheiro verdadeiro perdendo, aos poucos, as suas penadas, assente num vaso
decorado. O pai e a mãe a fazerem-se companhia dos filhos, guiando a decoração.
Fazendo lembrar a razão da data. O presépio, fora retratado. Na árvore, beijada
pelas modas da altura, carregada de bolas, fitas e até chocolates. Sobriedade
não fazia parte dos acessórios pendurados. A consoada juntava um número elevado
de companhia, a mesa adornada a rigor. A lareira, lá ao fundo, queimando lenha,
o fumo gastando-se lá fora. A família junta, fazendo muitos reunidos. Os
presentes, por força do amor e da dedicação, porventura, em número superior ao
que se fazia necessário. As felizes perspectivas. As conversas e as pequenas
histórias contadas e sabidas de cor, tão repetidas se fizeram. Os comes e
bebes, não fugiam à tradição. As faltas não aconteciam. Todos estavam
presentes. É natal, dizem a cada passo dado. Não será igual, tão pouco, o mesmo
retrato. Hoje, é igualmente natal, mantém-se praticamente tudo o que se fez
tradição nesta família, nesta casa. Na minha família. É natal, faltam membros.
Uns ausentam-se por estes dias, outros para sempre. É Dezembro, chega o fim do
ano. Repetir-se-á, novamente, no próximo ano. As histórias também. Vozes e
presenças falhadas. Que nos faltam. É natal e, aproveitando-o, partilhamos
pessoas para sempre ausentes. É natal, estamos presentes.
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