A
noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente,
disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de
design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns
recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a
cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A
noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo
contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os
medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é
divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca
na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado
resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já
havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam
ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros
incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para
não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o
sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.
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5.9.16
22.8.16
Poesia dita e um pacote de leite.
Prendeu-o,
há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e
cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão
cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo
e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso,
dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece
literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece
literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão
que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento,
sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem
mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o
suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a
resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas
cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem
ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta
recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na
silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando
donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas
composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e
internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se
lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma
na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem
senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer
coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante
ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar
no Facebook. Pediu-lhe um contacto.
Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e,
segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos.
Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de
poesia e leite de arroz.
8.8.16
Entre o auge da tarde e o final da mesma.
O
ambiente é de férias. Um paraíso tão próximo. As palmeiras quase que cedem à
calma, nada balançam, têm o tom viçoso, envolvem o espaço, compõem a vista e
deixam imaginar o resto. Vêem-se as ondas claras lá ao fundo, a espuma a tecer
borbulhas. As espreguiçadeiras cheias, as cores do verão salpicadas pelo areal.
Aqui, sentados num lugar bonito, numa mesa privilegiada, ladeados pela piscina,
envolvidos pelo frenesim de quem trabalha contrastando com o sossego de quem
descansa. As mesas, tal como a piscina, estão lotadas. Na água, entre mergulhos
desgovernados, salpicos desorientados, saltos invertidos, braçadas e
braçadeiras, óculos de mergulhador e bóias de diversão, risadas fáceis e
chamadas de atenção, estão novos e velhos. Em ameno convívio veranil. Ouvem-se
línguas diferentes, sotaques também. Não falham os fatos de banho, os biquínis,
os calções e, claro, os óculos de sol. Alguns arriscam numa indumentária mais
formal, impecáveis ao fim da tarde. Servem-nos uma bebida fresca e bastante
agradável, outros entreténs a seguir. Falámos tanto, mas não esgotámos prosa.
Ao lado, uma senhora de honrosa idade joga as mãos à cabeça loira sempre que o
neto escapa dos braços do avô e joga-se sem medida para a água. Depois, duas
jovens partilham outra mesa, não se olham, não trocam uma palavra e fumam umas
cigarrilhas e, parece, passam assim a tarde, entre uma aspiração e outra. Chega
ao recinto um senhor cuja espécie de tanga reduzida parece trazer a via láctea
em exposição, a camisa aberta e solta, chama a atenção. Segue caminho, airoso e
divertido. De gente comum também se enche a zona. Em tempo algum são esquecidas
as fotografias para o Facebook e Instagram. Os vídeos animados para o Snapchat, a anunciar que são felizes no
verão. Fomos embora, dali a nada aconteceria um jantar demorado, com gente que
nos importa. Não sem antes me gabarem a camisa. Não faço questão, mas não digo
que não.
2.8.16
Ataviar o verão com a bonita canção.
Solta
uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras.
Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É
impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as
vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do
entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor.
Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o
microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão
acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho,
música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os
primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira
se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto
de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar
todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar
algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente
ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser
um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.
19.7.16
Em diferido. #51
Gente
com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia
esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a
justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me
tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente
e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas
aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e
universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos
travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não
mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia
brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol
são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas,
alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês
pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao
fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem
livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três
jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a
convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das
ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se
em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido
nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes
tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
7.7.16
Relação de intensidade.
O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
24.8.15
Confissão inopinada no regresso a casa.
Voltei
ao tempo das pausas obrigatórias e da rotina. Como aquele velho homem que, a cada
dia da semana, se obriga a passar a rua inteira, de chapéu na cabeça, a barba
branca e rija, os olhos meio fechados, debaixo do sol quente ou da chuva em
pranto. Obriga-se a fazê-lo pela primeira página. E pelas outras. Pela capa e
pelas letras gordas. Esmiúça com a convicção de que só assim, fica liquidada a
viagem. Voltei a ouvir uma canção que tem tantos anos que, assumidamente, já me
havia esquecido dela e do interprete. Depois, quase patologicamente, vem sendo
a minha companhia. Agora, neste instante também. Foi um amigo antigo, daqueles
que têm sempre boas memórias e oferecerem-nas com convictos lembretes. De lá
longe – não tão longe como as palavras fazem parecer – chega uma mensagem.
Ditava assim: Cheguei, estou por cá. Faz-te à vida. Arranja espaço. Fico até
tal dia. Sucinto, como é hábito. No final da mesma mensagem, ao invés de uma
assinatura desnecessária ou de uma saudação pouco proveitosa – que pode incluir
golos putativos, desavenças pseudo-políticas, corpos desnudados desta ou
daquela - deixa-me um link. A tal canção. Acho que umas décadas valentes vibraram
ao som disto. Connosco – eu e ela de então - aconteceu mais tarde. Um dia
levo-te a dançar. Tenho a certeza que te disse isso. Tampouco, sem precisar que
mo dissesses nos dias seguintes. Tal e qual, como vieste a fazer. Perguntaram-me,
algures neste verão tão vivido, por ti. Depois, claro, de lhes lembrar esta canção.
Somos amigos. Mesmo que, por inquietação da juventude desmedida e da
precocidade do pensamento e dos actos, me tenha esquecido dessa dança. E de, no
dia seguinte, deitada ao meu lado na cama improvisada, ma tenhas agradecido. A
rua de então, à luz da razão, era um valente esticão.
9.7.15
Gente com traquejo algarvio.
A
questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por
seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz
sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no
blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta.
Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação.
Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de
verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à
desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula
conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte.
Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre
cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e
conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água
fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho
casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo
entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom
dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e
não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a
divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico
entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não
sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
15.9.14
Assento de espera.
Um
banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo.
Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar
prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe
a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a
sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém
foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te
desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre
que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem
tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo
sempre eterno.
8.9.14
Em diferido. #17
Plano
de uma peça - O carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante
no meio-termo e inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à
praia, permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos
similares. Quase repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas
expostas. A postos, os nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os
pés a conhecerem a temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a
ganhar cor. O sol a dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos
lugares. Jogam à bola e não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem
parar. Por trás, bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos
ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós
e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele
verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que
traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha
a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As
pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito
nível de personalidade.
4.9.14
Estado do espírito.
Numa
zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta
a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar.
Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento
exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As
idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam,
se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o
espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se
silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda
que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se
possível, é voltar atrás e ver de novo.
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2.9.14
Época de cores quentes.
Volta
as costas para a janela, entreaberta e de cortina a vibrar. Nasce uma silhueta
sentada numa secretária de madeira. A divina postura e o divertido balanço de
cores com que joga o sol. De um papel de medidas certas, cor forte. Verão num
quadrado. Sol na luz e granulado da folha. Desenha um cisne com a coerência,
sensatez e simplicidade de quem não pensa. Faz. Como se a candura de não ligar
acções e pensamentos fosse um dado adquirido. A sala ganha tons e sombras. Este
bocado de papel é um recorte de alguém. O verão é, senão outras definições, um
pedaço. De alguém. De quem e a quem importa.
25.8.14
Acontecimentos de uma rua vivida.
A
rua é curta para tamanha caminhada. Tamanho grupo de pessoas que se ocupam a
passear. Das dezassete horas em diante, a rua fica composta de corpos. Moda de
rua, se preferirmos pensar no pousar o tempo no areal de uma praia Algarvia com
uma revista da especialidade ao lado. Um cliché, se procurarmos contar.
Vencida, por certo, pela revista de conteúdo magro, arraçada de cor-de-rosa.
Por seu turno, esta rua enche-se. Vão para lá, voltam para cá. Daqui de cima, a
vista privilegiada de quem toma uma bebida e se prepara para outro cliché,
morder mais um sunset. No verão as
questões são outras. As madrugadas querem insónias. As ruas querem pessoas. As
praias que oferecem bandeira de verde autorização. Do que vai colado ao colo,
ao velho que é um cofre de gritos de estórias. Cofre, por nunca lhe souberem o
código, por nunca o procurarem para ouvir. Neste desencontro de rua, morrem
tantas coisas. Pensas em morte, de gente ou de esperança, mesmo de um copo de
cor atraente na mão e boa companhia ao lado. Nunca te cansas de ver passar. A
agonia desatenta de quem nunca tem a graça de querer ler a satisfação de uma
rua carregada de almas. Que sina.
21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
20.8.14
Sensibilidade no lugar certo.
O
fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o
sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de
cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada,
enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um
coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso
balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a
necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação
palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou
distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia
pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir.
Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o
desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos.
Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está.
Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver
com o objecto do afecto nas mãos.
18.8.14
Ensaio sobre a noção de lugar.
Começo,
por vez, por guardar a merecida ressalva. Não gosto de generalizações e, em
tempos, disse-lhe, tão petiz – não importa mesmo a quem – em resposta àquela
voz arrepiada, que são perigosas. As generalizações, tão vizinhas da
vulgarização. Porventura, tê-lo-ei ouvido ou lido num dos sem número livros que
guardámos lá em casa. Há desassossego por cada canto. Há pressa de quem não
espera em cada divisão, em cada estrada e em cada localidade. Há sol a brincar,
ninguém quer desperdiçar. A elegância foge dos pés. O requinte perde-se na
formulação conseguida naquele minuto, no exacto e impertinente segundo em que a
voz ganha fervor, desajuste que não combina com a simplicidade de viver o
descanso. A tendência de olhar para o calçado de alguém num rasgado primeiro
momento é um impulso como outro. Por esta altura, talvez se faça como resposta
uma valente e impetuosa alegoria. Levantam-se falsos testemunhos. Por tudo, por
nada. Mesmo que se comece por baixo. Sem a aflição de chegar ao topo. Mesmo que
não passe de uma fingida jornada.
7.8.14
Gosto de riscas.
Há
naquele toldo de riscas a condizer, qualquer coisa de atraente. Chama-nos ao
pormenor. É decoração a céu aberto, bom gosto ao serviço de quem lhe souber
aproveitar. Convida a atenção a sossegar-se ao seu lado. Lista sim, lista não.
Risca de uma cor, risca seguinte de outra. Repetem-se os dois tons.
Característica de verão quente. Recuamos décadas, mas esquecemos, por ora, um
fragmento da história deste país. Verão quente, mas noutros moldes. O branco é
rei. Cheira a mar desassossegado na temperatura, cordial no vai-vém. Algumas
pessoas, de corpos vestidos com o rigor da estação, olham o toldo e sorriem.
Outros, deixam-se parar. E comprar. É pura memória. É dos tempos de uma linha
onde os ascendentes tinham, por esta altura, vida com vagar. É um toldo, mas
faz recordar. Verão, na linha ou noutro ponto, é um gelado na mão. Uma família
a passear, um toldo por onde passar. No fundo, memórias que, sem esforço,
fazemos por guardar.
5.8.14
Verão matizado, impetuoso como sereno.
Veranear
algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um
exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de
preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas,
ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento
bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções
que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora,
recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o
desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na
combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório
pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim,
um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades
imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os
mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos
acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre
melhor.
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17.7.14
Míngua de opções.
Sob
um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor
atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele
a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre
nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas
porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer
instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as
regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue.
Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a
sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que
lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos
deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie
de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada.
Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e
compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os
tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a
discrição, chegou-nos a copiosa exposição.
11.7.14
Plano de uma peça.
O
carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante no meio-termo e
inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à praia,
permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos similares. Quase
repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas expostas. A postos, os
nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os pés a conhecerem a
temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a ganhar cor. O sol a
dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos lugares. Jogam à bola e
não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem parar. Por trás,
bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos
ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós
e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele
verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que
traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha
a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As
pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito
nível de personalidade.
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