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19.4.17

Espaço com todos os seus corpos e seres.

Acordei cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente, numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso. Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne, nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai. A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um balancé. Que soluço este, minha gente.

23.3.17

Adágio susceptível de discussão.

Finalmente, a carta nas minhas mãos. Já lá vão uns dias, sob um céu carregado, ameaçando com chuva para qualquer instante. Deixei o carro longe, vim pelas ruas da cidade. A calçada húmida. Um cão anda do avesso, parece à descoberta. Logo depois, o dono chama-o. Traz um lenço enrolado na cabeça e isso dá-lhe estilo. Espreitam umas madeixas de cabelo bem enroladas. As calças largas, com riscas desenhadas. Fuma e parece bem, ameno no passeio, capaz nos corredores da vida. Gabo sempre a verdade e o atrevimento de dar-lhe espaço. Prefiro-a à expectativa. Fez-me lembrar um tipo que conheci lá atrás. Era genuíno, testava os outros e refugiava-se nas drogas. Tanto, que vezes havia em que não sentia nada fisicamente, mesmo que o tentássemos esmurrar. Mas isso é garrulice para outras núpcias. Nas minhas mãos, por fim, a carta. Longas linhas de um recheio que já conhecia, uma tabela que justificava o resto. A internet aproximou-nos de tudo, chega sempre no imediato. A carta é a burocracia a fazer das suas, a formalidade dos actos. Guardei-a no bolso interior do trench coat. Disse-me a minha irmã o nome do dito e, por isso, não desminto. Tenho em espera umas ganas valentes. Que me vêm atiçando. Provocando no sentido da mudança. De promover a novidade. De afastar o repetido. A carta não mais foi do que a prova disso. Decisões, decisões e mais decisões. Hei-de tomar rumo. A ver vamos se o certo. Recusar hoje pode trazer frutos amanhã. Aceitar agora pode carregar maleitas no futuro. Absorto, insensível às solicitações, não garante soluções. Estejamos aperaltados e perfumados ou na simplicidade da rotina. Há espaço para ambas. E a verdade gosta disso. A expectativa dá-lhe honras de presidente.

14.3.17

Fadário que levou sumiço.

Pareço atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos, a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo, num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não chova. Pouso o tablet e agarro no relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já tenho e é com ganas que guardo.

7.3.17

Lida aturada.

Saí logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto, mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante. Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável. Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto. Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção, pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me. Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.

2.3.17

Entusiasmo matutino.

O dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso. Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.

20.2.17

Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.

Já lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar. As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês, talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar. Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado. Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra, por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora, as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira da escola. Uma vida cheia. Não duvides.

30.5.16

No gira-discos da tua casa.

Cruza as pernas. Descruza as pernas. Volta a cruzá-las. Leva a mão ao cabelo arranjado, todo puxado. Os olhos já são belos, ficam com a maquilhagem ainda mais esbeltos. Os sapatos altos na outra mão. É admirável a confusão. O vestido parece que voa e não tem descanso. Apetece-lhe da boca largar um palavrão. Pensou no cigarro, mas já lá vai o tempo da iludida sensação. Aquieto-me, à espera. Invento outro pensamento. Fotografo para passar o tempo. Os lábios atraentes, no desenho da tentação. Fi-la ficar a preto e branco e liguei o gira-discos. Tal como o aparelho, o disco do mais vintage. É maravilhoso guardar o retrato. Envia um beijo com a mão e a postura é atrevida. Assim, neste frenesim, aconteceu neste dia e nos restantes. Foi amor à primeira. Separação na data verdadeira. Ficámos amigos para a vida inteira. E não me engano. Que o amor fora apertado e profundamente sexualizado, mas a amizade é, no mínimo, um prazer danado. Talvez, também por isto, não neguemos a admiração. E não desmentimos. Amar é partilhar. Mas não será errado sugerir que amar é admirar. Pisca-me o olho desse jeito. E vamos morrer com a amizade viçosa, a memória com genica e fruitiva prosa. E que nunca nos falhe a música boa e o vinho de fina casta.

15.2.16

Ora, atente no busílis.

Numa sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular. Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo. Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics. Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta. Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar, um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso, no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história. Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros, esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze. Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.

8.10.15

Sumário.

Soa “Ain’t no sunshine” numa versão admirável e é coincidência. Sinto-lhe a pele fria, notoriamente afectada pela brisa e pela temperatura a baixar. Um arrepio que se vê. Partilhámos a mesma praia vezes sem conta. Nas manhãs quentes, nas tardes de verão sem fim e nas noites longas. Dividimos o quotidiano num tempo contado. Nos dias frescos, nas semanas ocupadas e rápidas. Nos meses largos, nas horas sentidas. Rimos muito e em voz alta. Lembrou-me a palavra risada e nunca mais a perdi da ideia. Desvendou alguns pormenores, li-lhe nos lábios algumas certezas. A atracção e a admiração na mesma conta. Promessas vãs, maturidade inútil. O corpo tão bonito e a cara perfeita. Os cabelos a bailar. Sob o luar, a luz certa no mar, falámos em voz reduzida. Partilhámos o corpo. Contámos segredos e pensámos em poesia. Os olhos claros tinham vergonha, as mãos desenhavam o pensamento. Prendeu-me a atenção. E levou-me pela mão. Ensinou-me a beleza, ocupou-me a cabeça. Partilhámos paixão e paixões. Olhei, desde então, para o elefante com outra perspectiva. Animal de eleição, simpatia para a vida. Encontrei, há instantes, a fotografia perfeita. Havia de lha enviar, não fosse a sorte fugir-lhe. Esse tempo já lá vai. Ficou a terna e infinita amizade. As mensagens na altura certa. Muitos elefantes para logo, é o que desejo. Tão grandes e imponentes quanto a sorte que sei que te está reservada. Precisamente hoje, que acontece o que já me havias contado e sabias tão certo lá atrás.

8.6.15

A razão da minha avó.

O meu telemóvel marca a pausa para o almoço. Depois, a sala cheia e as mesas tipicamente dispersas. Pessoas e pessoas. Lugares ocupados. Ainda outros por ocupar. O meu telemóvel marca a hora. Chegamos, eu e ela. Ficamos numa das mesas próximas da janela grande porque, garante ela, a luz chega e não precisamos de falsificar nada. Ri-me. Ela continuou, segura nas suas verdades de ocasião, terminando convicta de que qualquer arquitecto lhe daria razão. Voltei a rir-me. E dei-lhe pontuação. A luz natural faz toda a diferença. Logo aqui, num espaço montado com materiais tão escuros. Nisto, chegou ele. Vem de cabelo rapado e blusa às riscas. Nunca deixou de ser miúdo. E ainda bem. Falta o quarto elemento. A conversa não tem fim. Ele conta que viu um tipo a correr junto ao rio enfiado num biquíni. Não viu nada, que as interpretações dele ficam sempre à margem, o suficiente para lhe conhecermos as entrelinhas. Mas rimos, de resto, como sempre fazemos quando estamos juntos. Chega, então, o quarto elemento. Atrasada como é regra. De óculos escuros e cabelo desarrumado, cumprimenta-nos enquanto lamenta o atraso e deseja uma cidade com menos carros. Que a culpa é sempre do trânsito. A arquitectura aparece, de novo, na conversa. Elas acham que as escadas estão perfeitamente entrosadas no espaço. E a janela grande faz toda a diferença. Lembram-nos para não esquecermos. Senão, imagina, era pior do que estar horas sem fim à espera do metro. Escuro, escuro. Rimo-nos da comparação delas. Diz-me a amiga atrasada que nos rimos porque não andamos frequentemente de metro. É verdade. Não ando. Por questões geograficamente justificáveis. Mas reconheço-lhe todo o mérito. Nem tens ar para isso, brincou. Deve ser verdade. Numa das últimas vezes em que andei de metro, depois de um homem nos pedir, de forma pouco cordial, uns trocos e de lhe ter negado, virou-se para mim e, irónico, rematou: Tens mesmo ar de quem não tem nenhum. Já dizia a minha avó: Sê o que quiseres, mas sê como aprendeste.

14.5.15

Sonho ou outro termo qualquer.

Paolo Conte canta ao ouvido, enquanto as escadas de sempre são o elevador que prefiro não subir. Estou a rir-me desde manhã, como se fosse possível. Mas mantenho um sorriso na cara e não é mais do que o meu instinto e o meu intelecto, se capacitados para funcionar em simultâneo e em convergência, a dar-me sinais. A falar comigo. A conversar e a partilhar opiniões. Há um tempo, não tão distante quanto isso, perguntaram-me, num tom mais afirmativo do que questionador, se eu sonhava alto. Devo ter respondido qualquer coisa que já não me lembro. Mas sonho. Vou sonhando e em diferentes escalas. Sempre, e isso é essencial, de acordo com as minhas convicções. Sonho ser capaz de realizar sonhos. Criá-los de raiz, numa folha em branco ou num qualquer lugar onde a minha verdade e disponibilidade sejam precisas. Sonho, se não abusar nos metros em que me coloco, escrever sobre a fantasia, as ideias que permanecem guardadas neste espírito. Com o intuito nada banal, mas pouco modesto, de fomentar o sonho no outro. Talvez, influência de um ou outro enredo bem escrito. Como no tempo em que as novelas eram lidas com gosto. Já nem lhes dão esse nome. A minha irmã mais velha guarda algumas, muitas sem saber. Na verdade, o gosto dela pelos livros encerra-se na vontade de os comprar e de os saber ali, em querendo lê-los. E, em não me esquecendo, volto à sua espécie de biblioteca. De preferência, sozinho. Continua a soar Paolo Conte ao ouvido e na secretária, entre outras entretenhas, uma novela das antigas.

23.4.15

A causa do fundamento.

Saiu-lhe um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá, hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem, falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões. Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição, tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.

22.10.14

Aflição infinita.

Surge uma lágrima antes do discurso. Cai, de seguida, outra. Depois outra. Até que os olhos se desligam e perdem o controlo. Nunca mais interessa, assim se inicie a libertação que não tem fim. É um confronto interno, imagino, antes das palavras lhe saírem boca fora. Lá dentro, onde só ela conhece os meandros onde as guarda, batem-lhe, enquanto as escolhe, no fundo. O coração é o órgão de múltiplas situações. Mas é nele que se sentem as emoções. Como se a amargura de nada combater, lhe ferisse de morte. Como se a dor fosse tão física. Que é, quando se sente é porque é verídico. O coração está ali, mas quer, no desespero da incapacidade de manter a calma, sair-lhe do peito. A voz levanta-se quando mostram outro caminho. Errático, por sinal. Repele o confronto. A ironia de persistir por medo. O descrédito de quem havia de a proteger. Desliga a coerência. Persiste num jogo que não entende e que, neste instante, não tem fim à vista. É uma obrigação que come o corpo até ao fim da carne. É uma infelicidade que não fecha pela guerra de manter a felicidade de outro corpo. É, por fim, perguntar o que é que quem a ouve acha que deve fazer. É, depois disso, um silêncio. A ausência de palavras por não existirem. É, sem sombra de dúvida, estar numa luta que é altamente acerba.

21.10.14

Uma espécie de provérbio.

Ser beto ou dondoca é uma definição gasta, mas persistente. De resto, como as práticas tão típicas de um Portugal que insiste em vestir de gala as vergonhas de um país desbaratado e desesperado. Aqueles casacos de fato, com um corte tão desajustado do corpo, são negligentes escolhas. As calças seguem o caminho que está guardado. As escolhas de quem não guarda na boca e na educação a obrigação de escolher um bom fato. Uma segunda pele, ouvi algures e voltei a ouvir mais e mais vezes. É um ensinamento de imagem, da imagem que faz uma pessoa. Arrisco eu, que não deixo de compreender quem erra na escolha. Eu sei e percebo que não conhecemos todos as mesmas verdades, porque na vida a verdade muda de feição com a necessidade. A elegância de mão dada com a combinação do corte, tecido, cor e os botões de punho. Os últimos, para esta medida, nada importam. Mas é vê-las, às erradas escolhas, a fazerem-se passear sobre os corpos que não lhes pertencem. Hoje, adultos formados e homens confirmados. Como se um fato medisse a má rês de uma pessoa. Voltamos à universidade onde, a dada altura, os fatos aparecem. Para alguns, pela primeira vez. Ou compram na loja que todos conhecemos ou pedem emprestado ao familiar que o mantém minimamente em bom estado com ajuda da naftalina. Paro, então, para me lembrar dos meus amigos que seguiram direito. Poucos, para ser sincero. Uma escolha cómoda, lembro-me de falarmos disso. Por estes dias, desses poucos, apenas um se manteve fiel. Os outros fugiram da área. Usam, contudo, a formação para outras profissões. E, passa tão rápido que nunca mais tiveram vontade de colocar um fato. Ressalvo ocasiões formais. Na anarquia que rouba o ser para eleger o parecer, só veste a pele quem quer.

18.9.14

Em diferido. #18

Serve para ligar um corpo à acção - Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

4.7.14

Serve para ligar um corpo à acção.

Mais à frente, o alcatrão típico de uma estrada movimentada, de quem não espera nem sossega. Nem os semáforos, brincalhões das cores a condizer com a bandeira. O axadrezado da calçada desenhada e agastada de cada passada. Assim, debaixo dos seus pés. A rapariga foge com a cara de quem segue na sua frente. Baixa a cabeça e dança de cabelos colados à mesma cabeça irrequieta. Diz que é medo de esperar. Diz que é medo de esperar com a cara levantada. Medo de ver o que não quer. Canta baixinho, como que num aviso prévio. Canto, apenas e só, para mim - havia de pensar aquela cabeça. Virou-se, de costas para a estrada, e de mão a tocar no relógio, disse em voz alta e tremida – Eu não quero esperar. E não sou maluca! – Voltando, logo de seguida, à posição que conhecemos. Depois seguiu caminho, assim o semáforo deu ordem de passagem. Aconteceu mesmo. Não é ficção. Aquela cara diz-me qualquer coisa. Se não é, lembra-me uma miúda de outra altura. Também ela avessa a troca de olhares. A comunicar. Só cantava na igreja, quando todos se calassem. Sempre de costas para os fiéis. Entregue à observância daquela crença religiosa. Do mesmo modo, gritava cá fora, no pátio. E ria alto. E falava, quando a ouviam.

2.7.14

Em diferido. #12

Veleidade carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

2.6.14

Veleidade carente.

Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

12.5.14

O facilitismo instituído.

Num golpe de rodopiar, somos a sombra do muito que nos acontece, somos o que os instantes experimentados nos provocam. Procuram-se refúgios. As ripas de madeira, antes de chegar à praia, já desenhada de pessoas que, ao longo do areal, aproveitam o sol e as temperaturas picantes, cedem barulho ao ritmo das passadas. Mesmo leves, roubam som. Um som que, soa e entoa ao jeito do que nos permitimos sentir. Um regalo para um dos sentidos, se assim quisermos, ou um tormento desgovernado. Num reflexo, tudo se desmorona. E, não penso nas palavras, mas a desarmonia de uma humanidade despida, propina veneno no furto que é desapropriar o outro. Depois, não importa mais nada. Senão erigir.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!