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3.4.14

Sufocam-se pessoas por tudo e por nada.

Chove e está frio lá fora, como se fez rotina todo o tempo invernoso. O céu num cinzento translúcido, passa uma luz baça. As janelas encostadas. Nos vidros, toca miudinha. Há um indescritível desconforto. Próprio da época e do ambiente. Há chapéus-de-chuva a descansar. Uma televisão ao fundo, sem som, passa um programa estrangeiro. Há casacos e sobretudos vestidos. É tão ingrato como absolutamente devastador ouvir uma mãe e um avô relatarem na primeira pessoa a violência e o desequilíbrio exercidos sobre alguém que lhes pertence tão umbilicalmente. Por força de um homem que suporta e desagua as frustrações, o rancor, a impaciência e a maldade tão patológica, numa jovem mulher que, embrulhada em medo, leva a educação da filha a bom porto. Uma jovem mulher que se faz forte, mas quebra no momento do confronto. Porque o medo, dizem-me, é superior a qualquer convicção e determinação. Porque uma família inteira vive no desajuste e no tremor do que vem aí. Do que, a vir, lhes possa roubar. E fico sempre miúdo, quando ouço relatos destes. Porque arrepia, só no hipotético, o terror em que uma vida se torna, por força da delinquência e perversidade de alguém. Não pode ser. Não pode. Quão arrepiante é ver e ouvir o medo de alguém.

31.3.14

Não resisto.

Ver uma pessoa, absolutamente só e à chuva, de mala no chão, sapatos alagados, à espera de algo ou alguém, com a mesma postura e olhar de quem fica suportada pela parede luzidia num dia de verão que conserva o calor e publica o sol mais atrevido. Não resisto, assim, de sorrir e permitir ter no pensamento que, vida, ambição e esperança, cada um toma a que quer.

17.1.14

Referenda o caos em que se tornou a ordem do dia.

Enforcam-se orientações, abafam-se relações. Banem-se opções. Aniquilam-se direitos e razões. Torram-se ideias feitas, queimam-se os arranjos cruzados. Perde-se o norte, falta-nos o ar. Despem-se pessoas. Violam-se intimidades. Apontam-se canhões. Não há direito. Não há. Aprende uma coisa. Consola-nos o conteúdo da ‘Portuguesa’. Do resto, não rezará a história. Porque castram. Porque estupidificam. Porque, ardilosos, referendam. Passa a bola. Passa a outro. E não ao mesmo.

10.1.14

A miúda da franja.

Não conheço a miúda da franja, senão pelo que vou ouvindo dizer, senão de a ver passar. Tem passadas rebeldes, sorriso escancarado, estilo próprio. A miúda da franja avança estrada fora de forma descoordenada, mas como se a sua missão fosse apanhar o mundo. Tem uma história, estória talvez, que corrobora a sua vontade de mudar. Seja o terreno que foge com a estrada, seja o mundo inteiro. Porque a idade lhe foi roubada, assim aconteceu o nascimento. A desatenção vem daí. A miúda da franja é julgada, todos os dias, pelo ausente filtro nas palavras. Nos actos. Não se permitem conhecê-la. Porque conhecer alguém é trabalhoso. Conhecer alguém que precisa de atenção, redobra. É penoso. A miúda da franja não é entendida. Não lhe olham pelo coração. Chocalham-lhe os sentimentos, quando a reprovam. Só porque é. E, jamais, querem parar para compreender. A miúda da franja, nesses actos e palavras resistentes e musculadas, esconde o forte escudo que vem construindo. Pois, não aparenta, mas consome-lhe as ideias. Come-lhe os sonhos e o quotidiano. Depois de um coração feito em farrapos, ressarcir-lhe a auto-estima e a confiança nos outros é doloroso. As teias impedem. Contudo, há surpresas. Há quem se preocupe com os outros e nunca se aborreça com o caminho. Há quem integre a miúda da franja. Há quem a faça sentir-se parte. Parte de um grupo. Quem a inclua. E, nesses momentos, a miúda da franja agradece, denunciando a fragilidade que esconde, com a doçura de uma menina. A menina que é. Agora, envolvida que estava com a amizade, afastaram-na. Não quem lhe mostrou o que é gostar. Foram outros. Não conheço a miúda da franja, senão de ouvir contar, senão de a ver por ali, todos os dias. Mas, não me podem pedir que não me incomode com acções deficientes como esta. Não se afastam pessoas. Não se escondem pessoas. À miúda da franja, o meu mais sincero desejo de que seja feliz. De que, a partir de ontem, o seu caminho seja mais meigo. Ah! E, não te esqueças, miúda da franja, apanha o mundo.HH

2.1.14

Metamorfose mundana.

No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas, mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado, assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo, um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades, que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as há. Mundo, num ciclo.

23.12.13

A batalha que pisca o olho ao afecto.


 
Agigantam-se as corridas de última hora para o primeiro lugar nas filas que abrem caminho para as compras de alguns dos putativos presentes de natal. O espírito, pingado pelas ruas e corredores dos centros comerciais, através das luzes garridas e dos adereços da época, juntam-se aos números redondos desenhados em grande escala nas montras que cozinham estratégias para atrair metade dos que, apenas, vêem e o dobro dos que compram. A cada vez mais apoucada capacidade das carteiras de muitos que compõem o país, não impede a reunião das famílias, o amor e a fraternidade, a mesa composta e, se possível, a sabida troca de presentes perto da hora que merece atenção. Os que, felizes, têm oportunidade para jogar outra aposta no momento de escolher, não escondem a vontade incessante de consumir. Afinal, queremos acreditar, estamos na época da troca. Não disse de quê. Não nos fiquemos pelo material pois, ficar-nos-á a amargo o sabor da ausência maior, a do sentimento. Recuso a fatalidade da generalização repetida, assim se aproxima o cheiro a natal. Num país de realidades altamente opostas, por uma vez num ano, se viva a igualdade da partilha, Que se ambicione o que não obtém valor em notas altas. Que se procure o extraordinariamente acessível. Nem por um minuto se espere desistir, mesmo que estejamos numa fila interminável de uma loja de centro comercial. Uma vez no ano, que alguém seja digno de uma espera demorada. Para que, no final, de presente na mão, lhe diga feliz natal.

18.12.13

O charme de disfarçar o medo.

O Carlos, quando está sozinho, tem medo do escuro. A cada noite, despido de companhia, acende uma lâmpada em cada divisão do moderado apartamento. Só assim, dá permissão, a si mesmo, para se passear pelo ébrio e acinzentado andar. Até ao dia em que uma das imprescindíveis luminosas, se fundiu. Homem enganado, pensa em tempos e termos redobrados. Desde então, as velas fazem a honra da casa. Há males que vêm por bem. Assim, o charme da dançante e hipnótica chama que remexe sobre a vela, ultrapassa a solidão e o baço do candeeiro. O Carlos, agora, tem companhia, mesmo quando não está sozinho.

6.12.13

A filantropia faz sentido. Sempre. Seja em que continente.

Almejar, frivolamente, ser-se outra coisa que não aquilo que somos. Ultrapassar os demais, sem olhar. Lixá-los, literalmente. Soa a falso. Desconjuntado. Hipoteticamente ridículo. Ao lado, alguém procura manter-se, contudo, faz por se superar. Tem objectivos e ouve. Ouve os outros. Vê. Também vê os outros. Embaraçado, tímido talvez, fá-lo sem falsos artifícios e de cunho transparente. E, de ânimo leve, poder-se-ia confundi-los. Sem ludibriar o instinto, entrevemos o que os difere. Distingue-os a verdade. Igualmente, a filantropia, a ambição medida, o sentimento impresso. Podemo-nos perder por metade. Convém, no entanto, lembrar que apostar em nós, com as armas dos reais princípios, é maior. É, na nossa escala, ser-se tudo aqui. Não é ser-se só. Não é refugiar-nos no espelho da solidão. Quem ousa fazer esquecer os outros, quem sabe, sozinho acabará. Tentado, fica perdido de vez. Assim, talvez.

27.11.13

Oferecer reconhecimento aos homens e mulheres que tomam a seriedade dos seus ofícios.

A matéria dissipa-se, assim seja a vontade do malogrado intelecto. Julgam as almas supimpas dos redundantes postos. Quais pombo de correio, mas de elegantes anilhas, banhadas pelo mais pesado e resplandecente ouro. Vão propagando as suas brilhantes arquitecturas que predominam na propriedade da sua inteligência. Temos o dever de não consentir o preconceito. Tanto sabe um doutorado, que carrega também um mestrado e uma licenciatura, como aquele que se ficou pela quarta classe ou não ultrapassou o nono ano de escolaridade. Não esquecendo, claro está, os que se classificaram com o décimo segundo ano. A sabedoria cabe-lhes e serve-lhes a todos. Serão disparatadamente diferentes. Igualmente valiosos. Mas compostos de substância e relevantes interesses para qualquer sociedade. É, fatalmente, verdade. Fazem-nos todos, muita falta. Esperamos, por todos, que nunca nos faltem os seus ofícios.

26.11.13

Foram sete pessoas, sete.

Sete pessoas à mesa. Sete amigos sentado num bar tingido de um british secundário. Sete pessoas, seis pedidos iguais, um pedido extraordinariamente diferente. Sete pessoas a serem atendidas por um linguajar pouco português, de toque britanicamente garrido. Sete pessoas juntas por um propósito feliz. Divertido, tais foram as gargalhadas. Sete pessoas diferentes. Sete pessoas de opiniões e posições antagónicas. Sete pessoas que se respeitam. Sete pessoas que não têm filtro e não reparam nas horas fugidas. Sete pessoas que chamam a atenção, por razões várias. Sete pessoas, sete individualidades afinadas. Sete afinidades, todas matizadas, pouco iguais. Sete pessoas que são sete amigos e companheiros quando se juntam. Quando vivem ausentes, também. Fomos sete neste fim-de-semana. Voltamos a sete ser numa mesa, ironicamente, num próximo dia sete. Sete ou não, o número varre-se. Quando as pessoas são pessoas, não se faltam em números. Antes um nome. Uma carinhosa e atenta alcunha. Bens que saqueamos ao longo da canalização daquilo que definimos vivência.

13.11.13

Apresente-se, jubilação.

Sobrancerias à margem, distantes como só o aconchego e a fraternidade da partilha e da intimidade nos oferecem. Encerram-se, sem mais conversa, os valores que nos são caros. De tão caros não nos faltam. Não sendo um objectivo, surgem e seguram-se. Seguram-te. Só quem é e se permite ter, apossa-se do sentimento. Temos a receita. Seguros. Sirvam-se, enquanto pertencem.

30.10.13

Amuse bouche.

As tábuas escoltadas fazendo passadiço, decorrendo do portão de acesso. Passado o cartão, a marina lucra. Os saltos, pouco altos, dando pancadas na madeira. A companhia, de sapatos moderados, acompanhando o passo. Tentada a fugir do andar desengonçado imposto pela incerteza do soalho fementido, aproxima o seu braço esquerdo do braço direito dele, mais forte. Em modo de convite. Ele aceita a sugestão. Também de outros tempos. O gesto acredita e põe à vista os muitos anos de companhia. Outros tantos de casamento. Juntos, escolheram o dia de outono, agora disfarçado de primavera azougada, para um passeio de barco. O pescoço dela, acomodado por um lenço, os cabelos resguardados por um garboso chapéu, terminando o figurino. Ele, de malha cobrindo os ombros, a camisa de um azul pouco trigueiro. De movimentos e expressões felizes, deslizaram água fora, com a vista privilegiada que o barco oferece. Voltaram à marina, agora para as despedidas. Não nos levaram. A vida, a dada altura, oferece outras vivências. Permite-los viver, novamente, a dois. Para trás, fica o barco. Porque, mesmo os aperitivos têm o seu lugar. Quando têm importância, ficam arrumados no lugar certo. Seguiram caminho, igualmente felizes. Os aperitivos só fazem falta a quem os toma. Permito-me pensar.

29.10.13

Coisa certa e verdadeira.

A educação desmaia à mesa, quando não é sustentada no carácter distintivo da verdade. Trata-se de um insigne axioma. Tenho dito.

28.10.13

A cadeira perde para o tailleur.

A cadeira, quando permitem, é objecto de grande atracção e encanto. Resvala para plano inferior quando, quem dela se ocupa, é digna do título de sumidade. Estatura média, suportando um tailleur vistoso de tecido nobre, o cabelo irrepreensivelmente armado, instala-se na extremidade, tal qual lhe ensinaram. As pernas juntas, apartadadas para a esquerda, os braços ligeiramente justapostos e as mãos entrelaçadas. Recusa tomar chá. Apenas por hoje. Não pede scones. Não simpatiza, por aí além, com tudo o que se faz cliché. Fala, quando encontra justificação. Permanece a aliança. Memória residente na mão esquerda. Aceita tomar uma bebida espirituosa. Há excepções que merecem lugar. É inteligente. Também nos actos. Olhando-a, desta forma, sentado ao redor, no cadeirão datado, poder-se-ia julgá-la arrefecida e ociosa. Falácia! É, garanto, modesta, da mesma forma como nos sentamos numa cadeira. Ensinou-me, desde cedo, que homem ou mulher, não nos esgotamos na aparência, muito menos naquilo que possuímos.

25.10.13

Avenida acima, ironicamente, desconjuntada e segura.

No meio da rua, de desengonço fingido, ia perdida nos seus afazeres. Entre a perna alçada, com a ajuda da mão, devolvendo o salto alto ao pé esquerdo. O outro stiletto negro, exímio no pé direito. A pasta dispendiosa, fugindo à inércia na mão direita. A mala deslizando, com tempo, pelo braço direito abaixo. O cabelo preso, voando, tanto quanto possível, ao sabor da brisa. Dando tonalidades impares às madeixas. As jeans justas, com dobras estrategicamente similares. A camisa fluida espreitando pelo casaco de pele, negro. Depois, alinhada, continuou. Subiu a avenida. Garantidamente, era estilo e elegância. Acumulou-as com a descontracção. Mesmo que fuja à linha recta dos estereótipos. Um exemplo pode ser, no intervalo, de soslaio, um atraente desengonçado.

24.10.13

A berma e o 5 estrelas ali tão perto.

A berma da estrada confunde-se, irremediável e repetidamente, com vulgaridade, trabalho sujo, prostituição, pernas à mostra, miséria, sexo despojado e desprotegido, imoralidade, dinheiro fácil e uma outra infindável lista de conteúdo nada próprio. O hotel cinco estrelas, distante, é elegância, coerência, amor e sentimento, sexo consentido e saudável, homens e mulheres assentam bem e são  vestidos com o melhor, jóias, dinheiro limpo e sem culpas, educação, damas e cavalheiros. Portugal, país de fortes costumes, inabaláveis e imaculadas convicções. À molhada, o povo vai acreditando. O que está dito para trás, é verdade. Não nos permitamos retirar em debandada. Nas entre linhas, a berma funde-se com o cinco estrelas. É silêncio e luzes opostas. Nada é infalível. Nem ninguém. Convém não esquecer. A berma está onde menos se espera. Mesmo que, pela estrada, só passem carros de alta cilindrada.

22.10.13

A arte é superior.

Cândida na fórmula de desejar, a Alice sonha com o dia em que tornará concreta a reunião de imagens a que vem dando corpo na sua imaginação, sobre o seu destino de eleição. Até lá, desenhou, a grafite e de mãos esborratadas, Londres à cabeceira.

21.10.13

Eu. Os meus (grupos de) amigos. E a política.

Mentiria se ousasse dizer que, perante outros, não fui um privilegiado em todo o tempo. Desde sempre. Fui, felizmente, bafejado pelo amor de uma família íntegra, tradicional, com valores e sentimentos. Quero, tanto quanto possível, honrar-lhes isso. A passagem de conteúdos íntimos e ternamente convictos. Com haveres, foi-lhes capaz, até dada altura, dar-me acesso a uma vida sobejamente confortável. Não é blasonar, é confirmar factos. Invariavelmente, tenho amigos e conhecidos que tiveram acesso, igualmente, a uma vida que oferece bem-estar. Por outro lado, a outros tantos que me pertencem por direito da amizade, a vida não foi tão fácil. Mas felizes, revelaram inquietação e desembaraço. São, por esta altura, o que sonharam. Sem pôr nem tirar. A vida dissipa-nos, afortunadamente, e vai-nos permitindo conhecer pessoas de diferentes quadrantes. A política, quando alguns não se recusam abordar, é tema em que, por vezes, tomamos posições distintas. Não é, jamais, um ponto de divergência. Pelo contrário, é ponto de discussão à mesa, no sofá, na varanda, à porta. Somos plurais. Assim é, que quando ouvimos, de quem de direito, anúncios astronómicos, as leituras são várias. Discutivelmente matizadas.

11.10.13

Com a roupa ao léu.

Em jeito desavisado, lá estava ela, de vestido justo e furtivo, entre a roupa a secar. Ao vento, entre o espicaçar dos raios solares, por entre as folhas que, compassadas, se desviavam do ramo. Embriagada a vontade, escondendo-se no branco. O vestido tomando vida, de padrão distante. Baixinho, cantarolava. Com a roupa no estendal, lourada. Jovem, mas esquecida. Estava, num quintal de cidade. Ao fundo, o portão. O passar para fora. Por ele, a saudade a passar. Vi-a e chamou-me a atenção. Sem saber, escondida e perdida na sua vida. Cantarolando o dia-a-dia. Com a roupa ali, ao léu.

10.10.13

‘Com um vestido preto (nunca) me comprometo’.

A festa viria a propósito, não fosse a ocasião oca, fraca. Uma autêntica fachada. Deixo, inocente, a burguesia. Fujo do termo “pequena burguesia”. Em abono da verdade, vezes há em que não recuso. Em que não perco a oportunidade de vislumbrar, tanto quanto possível, à margem, todo um circo. Não dos horrores. Das aparências. Um círculo de falsos cumprimentos e de rijos festejos. Aproveitam ao máximo. Pelo menos, por ali, vivem-no com franca verdade. Há espaço para tudo. Para todos. Mas, inevitavelmente, surgem os que importam. Os que diferem. Os que estão vivem e mostram-se imunes à perturbada vaidade. Nem tudo é mau. Ninguém é, por todo, mau. Entre todos, aquela que nunca se compromete e dá sentido à sala. A mesa ganha vida e estatuto digno. Longe de ser burguesa. De vestido longo, como exige o horário. De cabelo solto e sandálias altas, espreitando, aos poucos. Aos 50 anos assumidos, é despretensiosa. Elegante, digna nos movimentos. De sorriso certo e conversa simples e agradável. Chama a atenção, sem pedir. Sabe-o, contudo. A pista de dança ilumina-se, quando, entre convites, se permite dançar. A elegância repete-se. Não tem idade. Gira, por ali, ao som e ritmo de um clássico. E as atenções, repetidamente, estão nela. Enquanto consente que a vejam. Depois, perde-se pela pista e ninguém a vê. Minutos passados com fulgor, regressa. Volta à sala, à pista. Volta do quarto de banho. Onde, soube mais tarde, entre malas, vestidos e sapatos, se trocou e retocou. Agora, já na sala, olhada é uma nova pessoa. O vestido, antes longo e de tons claros é, por esta altura, negro e mais curto. Leve, segura numa rosa branca. Das muitas rosas que por ali estavam. Colocou-a estrategicamente. E revoluciona. Muda tudo, menos a atenção alheia. Hoje, alguns dias sumidos, ainda gabam a postura e o vestido. Aos 50 anos, garantiu-me, recorrendo à velha expressão, “Com um vestido preto nunca me comprometo. Mesmo que o vestido tenha 27 anos”. Vintage, pensei. Está na moda. É uma senhora.