Trocámos
o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a
pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o
que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste
frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos
eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela
sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há
burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase
não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades.
Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não
adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com
pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a
perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o
quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para
menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e
convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me
contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer
contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe,
porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e
opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente
menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não
dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o
resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível.
Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com
que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando
estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora
de todas as coisas.
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22.2.18
21.2.18
Ininterrupção de instantes.
Venho
chegando, com a noite assumida, enquanto oiço Gorillaz. Esta canção tem história, prosa demorada, para outros
temperos. Viro à esquerda, para encontrar o beco. Casas grandes, com jardins
bonitos. Sei-os de cor, tantas as visitas. Junto ao portão escancarado, depois
de estacionar o seu Mini, alguém
acena, com vontade e precisão, temendo não ser vista. Devolvo, com sorriso e
tudo. Procuro estacionar, mas não fico satisfeito. Saio do carro contrariado.
Conjuro no desassossego mental, léxico que tem falta de maturação. Trago um
presente, um vinho pomposo. Mãos ocupadas, eu na corda. Chego-me à simpatia do
aceno, trocámos dois beijos – ainda sou pela dupla do verbo. E pergunta pelo
que me traz ali. Afazeres, ensaiei responder. Fiz-me melhor rapaz, cumpri a
verdade e procurei pela família. Todos bem, como se quer. O irmão volta em
breve. Amigo de outras paragens. Agora tenho de ir, que já me faço em cima da
hora. Fracos passos e toco na campainha. Vejo a luz acender, logo se faz ouvir
o cão da casa. Recebe-me antes de todos. O entusiasmo de sempre. Não guardo
palavras para a empatia que fixámos, eu e o pequeno animal. Pequeno com todas
as comas. Passadas as brincadeiras iniciais, entrego o empolado vinho.
Lembrando, entre risadas, outros bem fajutos que outrora bebericámos. Feitos
todos os cumprimentos, volta a certeza de que estou sempre bem por aqui. Falta
alguém, mas não resta assunto. Fica para depois. Enquanto me leva o casacão,
pisca-me o olho. Devo ter esboçado uma fácies atabalhoada. Pior, só a barba
demorada. Negligentemente aparada. O meu pai já nem aventa questionar. Ganho,
por estar longe da vista. Servem-me a primeira taça. Grande noite se principia.
20.2.18
Tem nome de menina traquina.
A
televisão na frente, fina e elegante, como se vê agora, quase novidade por ali.
A estante datada, na cor da madeira bem escura. Os bibelôs a compor, a
fingirem-se moldura. Os cristais imaculadamente dispostos. Aqui e acolá os
afamados naperões, ora na mesa de centro, ora na mesa de apoio, também na de
jantar que fica mesmo no cantinho da sala. As flores naturais, frescas e
regadas, estrategicamente colocadas, para que nem o sol lhes falhe. Os sofás
cobertos, com finos trapos, para impedir a destruição do tempo. Não funciona,
mas tempera a ansiedade. Como o telefone, que sossega sobre uma das já faladas
rendas. Com números grandes, para afugentar a vista desgastada e antecipar a
chamada. Reserva-o para a filha que vive longe e para uma situação
descontrolada. A filha, os netos e outros que lhe marcam a memória, vestem as
molduras. Várias, variadas. Cada uma da sua nação, mas não faz confusão. Numa,
o marido. Paixão da juventude, amor da vida inteira. Não rasgou nem uma
fotografia dele. Trá-lo para aquele espaço e isso conforta, conforta-a. Foram
anos sem conta. Dormiram juntos mais do que souberam o que era não partilhar o
leito. Ainda ruboriza, quando pensa na primeira. E sorri. Nas costas, quase
colado ao sofá comprido, um espelho grande. Reflecte tudo. Até o cume do seu
cabelo bem penteado. Aquece-se com um lenço nada trivial. A alma afaga-a com a
leitura. Aprendeu tarde, mas guardou para que não a largue até ao último dos seus
dias. Prefere histórias reais, biografias. Na frente, a televisão, fina e
elegante, como se vê por aí, recém-chegada aqui. Fixa os olhos na dita, abre a
boca para ensaiar o discurso, mas perde-se. Larga-se num pranto, que foi bem
mais rápido, roubando-lhe as palavras. Já na noite anterior havia ficado
atónita, a observar. A violência nas ruas. A inquietude que parece não ter
termo. A gratuitidade com que se desiguala o outro. Fixa os olhos, pejados de
lágrimas, esquece-se de recompor o rosto molhado e deixa fugir que é uma dor.
Física e espiritual. E não desminto, é pernicioso. Agradeci-lhe a visita, poder
sentar-me e trocar uma prosa que foi uma delícia. Hei-de voltar. Vou voltar.
Que promessa feita, não tem como não ser cumprida. Um beijo grande e boas
leituras.
1.2.18
Fenómeno da absorção.
Não
fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam,
ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz
afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio
numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e,
num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de
casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto.
Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não
perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé.
Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias.
Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns
recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado.
Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo
volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas
eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das
traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de
prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada
sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até
as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo
que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de
me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou
onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja
com os pés em terra firme.
30.1.18
Não adianta retirar em debandada.
Sentámo-nos
na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo
desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de
feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a
melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos
sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais
recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos
menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos
nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos
projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas
trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago
aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas
tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos,
as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos,
caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser
o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e
ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E
monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação.
Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a
comparação do clima. E só pode estar tudo bem.
11.10.17
Em diferido. #60
O
puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim
um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido
por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o
estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por
estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou
por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e
bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam
o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso
rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua
bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos
rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e
visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos
velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as
mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho.
Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado,
ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também
num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
10.10.17
Descalcei as alpergatas.
Conheci-os
algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as
prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem
regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés
descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece
conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de
perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os
gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas
não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e
um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe,
fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era
pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A
simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos
levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e
mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes.
Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos.
Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão.
Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma
bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma
medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas
homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos.
Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao
sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos
aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto
mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das
suas, na época e no ano inteiro.
9.10.17
Conservar em tempos de mudança.
Logo
petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As
que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe
preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa
com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O
cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se
não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se
impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava
quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por
ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico.
Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual.
Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham
outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa
que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os
convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os
seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali.
E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e
desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é,
fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as
contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá
confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O
relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais
inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a
mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero
que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus,
pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que
vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os
gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para
melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não
arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala
com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e
sentir.
12.6.17
Marchas (im)populares.
Tenho
andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça.
Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite.
Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os
meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se
companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que
não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro
de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais.
No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade.
E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do
festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem
classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto,
mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha
com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com
chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e
franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes,
escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo
das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos.
Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar
certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se
sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma
brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e
pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado.
Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me
apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais,
perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso
no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos.
Se quer saber.
31.5.17
Singular.
Desde
petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque
o vivo, porque mo dizem. Os meus, em tempo algum, o fizeram em jeito de atestado
passado. Ou por meio de longos discursos. Antes em conversas trivialmente
assertivas. Ou em acções dignas e saborosas. Às vezes menos, mais agrestes e
azedas. Como tudo aquilo que se prende com a vida. No fundo, funcionou assim e
ainda traz esses jeitos. Um barómetro inexistente fisicamente, mas profundamente
presente. Porventura, todos a moldar a minha posição sobre algumas posturas.
Não me apelido de intransigente, mas habito lá perto um par de vezes. Não
respondo sempre – raramente - com a mesma pronúncia, mas guardo cautela perante
alguns “delitos” (com as devidas comas; nada de superior) que me dirigem.
Comigo não funciona o falso testemunho, a mão leve ou a boca fraca. Em que
circunstância e sob que justificação for. Só porque embeleza o quadro ou varre
para debaixo do tapete a sujidade dos actos. Não tolero, pese embora, algumas
vezes me finja super blasé. Funciona, não desminto. E devolvem-me sorrisos,
nada bonitos, mas bem ardilosos. E os dias seguem. Como deve e tem de ser.
Desde puto que sou conhecedor daquilo que me envolve. Desde logo, na minha
família, na minha casa, nos meus amigos, até nos conhecidos. Essa avaliação não
guarda números. Sentes, mesmo que enquanto o vivas não saibas. Acumulas até
chegar o entendimento. Nesta medida, cabem ainda alguns bens materiais, que não
sendo fundamentais, contribuem para o bem-estar, para a vida mais leve e
despreocupada. Ser-se privilegiado não é uma definição, é uma condição. E,
mesmo assim, parece-me que os parâmetros mudam consoante o proprietário –
perdoem-me a expressão, mas nada é eterno. Ser é tão diferente de parecer. E
eu, em nada diferente, sou muitas coisas que não deixo parecer e pareço outras
tantas que não deixo acontecer. A dada altura reduz-se a importância a zero. Ao
vazio. Que é como deve estar. Sequer me belisca que me vejam altivo e
arrogante, quando não pretendo outra verdade. Sequer me atenta que me vejam de
piada fácil, riso repetido ou discurso menos moderado, quando é essa a minha
sinceridade. Ainda que me chamem privilegiado quando olham de fora, sem
autoridade, a olho nu, pelo que ofereço no correr dos dias. Desde petiz que sei
que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo,
porque mo dizem. Mas em instante algum recorro ao dinheiro quando penso nisso.
A inteligência dos afectos suplanta tudo. E não está à venda. Ou nasces com ela
ou encontra-la numa esquina mais adiante. Caso contrário, é um jogo perdido.
Saiu-me a sorte maior, sou um privilegiado desde o primeiro minuto.
30.5.17
Prerrogativa de alguns.
A
vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também.
Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode
ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes
vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario
finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui
não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir
para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis –
na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas,
porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já
havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um
conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado
com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar
sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem
temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas
já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do
que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais
reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos
tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A
última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de
peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o
encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão
tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita
carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda
das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores
miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no
meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.
29.5.17
Estrepitoso amanhecer.
Escancarou
a janela grande da cozinha, antes havia subido os estores na totalidade. O sol
da manhã a corroer qualquer possibilidade de olhar para além do chão. Os olhos
incapazes de focar dignamente – evitem o sol forte e a ausência de óculos
graduados - reparam na cozinha arrumada, toda limpinha. Sem qualquer rasto das
taças de vinho, tampouco dos acepipes. Ou dos restantes sustentos do
divertimento. Nada a beliscar a noite anterior. Sentado numa cadeira bastante
certinha, numa casa que não é minha, imagino o fim dos dias sobre a minha
cabeça: um cabelo humilhantemente desarrumado. Mas fico-me pela dúvida, evito a
sentença. A silhueta cheia de vida deixa-se sossegar. Encosta-se à bancada de
pedra, escura e fria. Quase sentada sobre a dita. Reparo que me dirige o olhar.
Numa tentativa sem reflexão de focar, cruzámos olhares. E sei que ela riu.
Baixinho, sem alarido. A resposta inequívoca, esbocei um ar nada delicado.
Entrei na dança, rimos juntos. De pernas cruzadas, a saírem de uns calções
curtos, perguntou-me se dormi bem. Tendo em conta o horário, não podia mentir,
dormi o insuficiente. Ela não gostou da almofada. Preferiu lutar contra a
cozinha desarrumada. Agradeci-lhe a simpatia, mas lembrei-lhe que não era
função de um só. Cortou esse caminho e perguntou-me o que eu estava a pensar
fazer durante o dia, uma vez que estava num lugar que não conhecia. Sair, ver,
conhecer, disse-lhe. Ela, sendo também visita, era repetida. Deu-me sugestões.
Ofereceu-me muitas saídas. Mostrou-se disponível para nos acompanhar. Agradeci.
Desenhados os sorrisos, passos de silêncio. Ela, num só salto, desce da bancada,
procura o granulado do seu bulldog francês, enche a taça e renova a água. De
costas, vira a cabeça na minha direcção e deixa fugir que gostou muito do
jantar do ZM. Foi graças a ele que nos conhecemos. Anuí com a cabeça. Sem
travar, perguntou-me se lhe tirava uma fotografia. Gostei do que vi, continuou.
Disponibilizei-me. Ali mesmo, numa cozinha estranha, precocemente cedo, com uma
luz simpática, a fotografar uma estranha bem-parecida. Não é outra coisa. É o
acervo do acaso. Há instantes, uma carta. Prosa bem cosida e um agradecimento
especial. Ainda há quem escreva. Cartas e à mão. E, o melhor dos nossos dias,
sem mácula. Sem um erro ortográfico. Há combinações crepitantes.
25.5.17
Afecto ardente numa 'Vespa'.
Vem
uma Vespa disparada, de azul petróleo
pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro
escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan
clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos
resguardados por uns Dior. Nos pés,
trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com
leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola
às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os
marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro
das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas.
Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os
convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e
médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao
céu. Aplausos. Ela desce da Vespa
azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e
comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como
a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase
envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de
couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com
firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o
lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e
cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa
com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As
vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida,
braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade.
Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão
e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.
24.5.17
Moralmente salutar.
As
desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as
leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas
é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E
esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é
fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido.
Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os
sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a
minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos,
em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão
felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos
novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo
da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é
tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A
diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como
naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque
das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado.
Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que
fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci
naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais
velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por
isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca
passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta
giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar.
Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas,
com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida
parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela
insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o
ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em
seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já
me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada.
Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente
bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo
vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais
felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir
contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.
22.5.17
Finos ornatos numa bojuda jarra.
Lembro-me
dos arranjinhos de flores frescas, bonitas, quase certinhas, ainda assim com ar
selvagem e agreste. Com cores que regalavam os olhos ou em tons mais suaves. Lembro-me
das jarras com água limpa. Da mesa redonda, da madeira forte. Do cheiro a natureza.
Sempre com a luz da porta grande a tocar-lhes. Com os cortinados recuados. Na
cozinha, sempre um ramo generoso de alecrim, outro de alfazema. Cheiros bons e
atrevidos. Começada a Primavera, era sabê-las lá. Naquela sala, inventava-se um
palco de criatividade floral. Os quadros grandes numa estranha e imponente posição
de espectador. Era assim, de mãos meticulosas, que os dias giravam com outro
aroma e graça para a vista. Para criar ambiente, para oferecer vida às nossas
vidas, diziam-me. Lá, devo ter evitado a mensagem, bem mais a imagem, devo ter
passado à margem. Mas é memória. Para lembrar que o nosso quotidiano é
relevante, mas jamais será o mais importante. Não é isolado. O mundo e os
acontecimentos. As experiências multiplicam-se fora de nós, do nosso
conhecimento. Correm à semelhança e ao passo do tempo. Bem escasso, tão valioso
que não se deixa vender. Tão especial que tens o direito de escolher. Pensar é
fácil, mirramos no exacto instante de agir. Oferecer – não despender - tempo a
algo ou a alguém é um dos caminhos. Não que nos soe a egoísmo, mas porque é uma
acção bilateral. Ficar, sem contar os movimentos dos ponteiros, a olhar ou a
conversar, é tremendo. Dás-te ao outro, logo à matéria que não te pertence, e
recebes a certeza de que o teu umbigo é francamente frágil, efémero e, em tempo
algum, o dono do mundo. Mesmo sem prestar atenção, sempre achei genuíno e
elegante o ambiente daquele espaço. Ainda mais no dia em que fiz,
acidentalmente, cair a jarra maior. Colhi cada um dos pedaços e trouxe a
certeza de que são os actos que criam laços.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
16.5.17
Trabalho preliminar para (a)testar o amor.
Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
26.4.17
Efemérides e outras liberdades.
Parece
que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto
e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo
envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda
hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que
não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no
trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros
afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a
por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria
de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar,
processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas,
de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa,
onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem
fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um
sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que
amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de
pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do
mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para
mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia.
Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou
incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz,
intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes.
Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade –
capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos
– é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de
1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube
trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a
sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir
o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não
se repita, mesmo que nos soe impossível.
17.4.17
Nove horas e parcos minutos.
Devo
trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que
se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e
foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a
noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago
os olhos vestidos pelos BOSS de todas
as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS
que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja
bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No
carro, deixo que o jazz desenhe o
ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao
som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou
bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade,
mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o
silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu.
Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos
vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como
sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de
dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que
engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada.
Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex
improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu
a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo
atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.
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