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12.4.17

Viveza rara.

Traz os caracóis vincados, sobre a cabeça todos aconchegados. O cabelo curto ajuda à composição. Diz que são naturais, fazem-se com a vontade da genética, do crescimento. Não escapa, sequer, um branco. Todo escuro, enrolado, bastante sossegado. Aí, o contraste total com o corpo, pequeno mas pejado de energia. Magra o suficiente, avança. Não se deixa desmentir, dá a certeza de que tem genica maior do que tantos homens que conhece ou juventude que vê crescer. Veste-se conforme a confiança. Não me lembro de vê-la de vestido ou saia. Senão numa ou noutra fotografia antiga. Tampouco com uns saltos altos. Agora é informal no traje, e vem de longe a postura desbocada no trato. É eloquente e não dispensa a gargalhada aberta. Magica autênticas instalações sociais. Coloca-as da boca para fora, sem pensar um tanto de segundo. Emprega-as na vida de quem a rodeia. Prefere a religião a outros serões. Sobre a temática, já tivemos sérias discussões. Tão saudáveis quanto construtivas. Lá atrás, afoito, fui um nada rude e assertivo demais. Senta-se de perna cruzada e conta estórias sem fim. Com ela, perco-me em gargalhas sucessivas. Rimo-nos juntos. Tal como os telefonemas, em tempos, tão longos. Não é falso lembrar as horas ao telemóvel. Fala com tanta vontade que quase não dá sossego à tagarelice, descurando o que havia de ser uma conversa a dois. Mas até isso lhe oferece graça. Fã assumida de tecnologia, já lhe conheci um sem número de telemóveis, máquinas fotográficas e outros gadgets. Uma fase houve em que a prosa não era outra coisa que não repetida. Estava disposta a mudar a alimentação. A favor do corpo mais leve e da saúde em pleno. Tirava todas as dúvidas, lembrava sugestões. Lançou-se na prática de exercício físico e até o corredor comprido de casa fora a sua sala de movimentar o corpo. O seu nome rima com alegria. E de outro jeito não era expectável. É uma das minhas tias. E uma mulher activa.

4.4.17

O puto do skate e as marcas contadas.

Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

3.4.17

Excelso desenvolvimento sobre um ponto “doutrinário”.

A primavera a dar o ar da sua graça, a favorecer, finalmente, os maldizentes da estação molhada – onde, uma ou outra vez me vejo incluído – a levar as gentes à beirinha das águas ainda frias. Os calções de banho com as listas certas, o bronze comprado, os biquínis da marca que há-de badalar lá mais para a frente. Ao convívio dos castelos de areia. Os pequenos numa felicidade sem tamanho. Os passadiços, as marinas e as esplanadas vestem-se a rigor. Os óculos de sol são novos. As mangas encolheram, as pernas já espreitam a cor dos dias. Encontro alguma pressa nas vestes. Os gelados artesanais e dignos de fotografias para o Instagram a fazerem os primeiros estragos primaveris na dieta alheia. Mas a ganhar gostos porque as legendas são um chorrilho de #HASHTAGSSEMNOÇÃOEMUITAREACÇÃO. Cumpre-se o dia nessa função. Ouvem-se os passarinhos, fisga-se a ideia do romance de algibeira e crescem briosas as flores da época. Fosse capaz de sucumbir à heresia dos amores eternos e era ver-me deitado sobre a flora de um qualquer jardim abastado da cidade. Ou num pedante socalco das imediações. De mãos entrelaçadas com a figura feminina que havia de segurar-me – entre juras de amor constantes, actos a justificar o dito e paixão sem fim (que todos sabemos que é visita de todo o tempo) – até ao último dos meus dias. Ainda com os olhos divididos entre a profunda beleza da jovem e o céu azul sarapintado de um branco fofo. Ainda com tempo para fisgar com o olhar as espécies que viajam airosas pelos ares. Respirando fundo e sentido o pólen invadir as narinas, numa gritante e dura guerra de um inimigo que, bem sabemos, logo depois, gritará dono de todos os decibéis, que restar-nos-ão apenas umas valentes alergias. Terminando, apenas, lamentando a minha falta de jeito por, em momento algum, ter levado outras pessoas relevantes a ver borboletas coloridas e bamboleantes, assim como, não ter colhido as mais frágeis mas simbólicas flores de um qualquer canteiro. Respiro fundo. Mas com cautela. Temo o regresso da hipersensibilidade.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

21.3.17

Equilíbrio e harmonia nos seus componentes.

Só nos faltava mais tempo e que a mesa fosse redonda. Não dou espaço para questionar. Pois, em abono da verdade, não me restam justificações. Assomou-se-me a ideia de que as mesas redondas guardaram as melhores das tertúlias. Não será, factualmente, mentira, nem totalmente verdade. Por oposição, claro. Talvez, e especulo neste instante, a mesa redonda da sala de jantar da casa dos meus avós maternos me tenha feito guardar, à margem da história do mundo, esta ideia. Trago a vaga lembrança de deliciosas e demoradas conversas ao redor da mesma. A minha avó com o seu cabelo tão armado, o seu ar altivo e um nada rude, escondia a versão divertida, tamanha a preocupação em servir bem. O meu avô e os seus olhos claros, sempre mais ameno, disposto e a rede do convívio. Perdi tanto, que lastimo não ter estado lá mais cedo. O que me contaram será uma medida muito rasa do que, de facto, por lá aconteceu. Hoje é uma sala em silêncio. Com a mesa ao centro, as flores viçosas numa jarra. O quadro gigante numa parede e os outros nas restantes. A estante com peças com memória. Este domingo, a mesa estava lá – outra e noutro ambiente - comprida, de madeira pesada, por azulejos bonitos adornada. Sobre ela passou de um todo. A comida é a união. A bebida não perde terreno. Somos família. Aqui, poucos, mas exactos. A eloquência é característica e, sem atropelos (às vezes), levamos a nossa prosa adiante. A minha mãe, em alguns casos, teme que a minha avó – sempre à cabeceira – ruborize. Mas não há razão. Guardámos-lhe todo o respeito que nos merece. E, volvidos tantos anos, a avó é uma mulher bem mais liberta (ligeiramente) de obrigações de um protocolo que lhe faz sentido. Tem a cabeça arejada e ri dos devaneios de uma descendência que a quer viva.

15.3.17

Uma canção feita de razão.

Vinha de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que, passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava, firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo, capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos, é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo, apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me, desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a melhor das viagens.

14.3.17

Fadário que levou sumiço.

Pareço atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos, a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo, num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não chova. Pouso o tablet e agarro no relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já tenho e é com ganas que guardo.

8.3.17

Em diferido. #56

Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

2.3.17

Entusiasmo matutino.

O dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso. Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.

1.3.17

Ser humano do sexo feminino.

Chega no BMW, com o cabelo arranjado, de longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar. Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós, sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona do BMW. Os olhares alheios têm um só destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns, conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica, profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos, em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher, bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia, difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de existir.

27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

23.2.17

Flor brava e fervorosa.

Venho, por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe, por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe. Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora. Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.

22.2.17

Em diferido. #55

Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

21.2.17

Estro que me enche o peito.

Ainda petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia, um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar. Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada. Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração decente.

20.2.17

Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.

Já lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar. As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês, talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar. Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado. Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra, por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora, as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira da escola. Uma vida cheia. Não duvides.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

15.2.17

Perorar em favor do bom senso.

Não detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas no que avento serem exercícios de Yoga. Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios, elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe. Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera, alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz. Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito, garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso, sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.  

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.

7.2.17

Escassa produção de razões sobre “eruditos” compostos.

O soalho de madeira antiga não deixa margem para putativas verdades, vem gente. Denunciada a chegada e depois do bom dia habitual, reparo que traz uma revista debaixo do braço. Uma conhecida, cuja temática interessa, maioritariamente, aos homens. Já não compro revistas como dantes. Algum desinteresse, uma ou outra falha nos conteúdos, a coerência deixou-se corromper e os artigos falham na ordem. Salvo raras excepções. Restou-me uma desabituação que perde razão e não convida a fundamentação. Já não sei o nome da revista que li há uns meses. Dissertavam, alguns conhecedores, sobre a moda. A democratização e a exaltação. Confundem-se e divergem, como se não soubéssemos. A moda de rua ainda tem trejeitos que interessam e, sem desprimor, atestam e desafiam a moda de passarela. As cores são pontos de honra a cada estação a começar. Os tecidos e os cortes, as medidas e os corpos não perdem importância. Escrevo sem conhecimento de causa, pois a moda na minha existência não ultrapassa o que visto. O que me parece bem fica, o que não me atrai vai. Simples quanto isso. Arrepio caminho, escassas vezes, numa ou noutra peça que diriam os puritanos, é extravagante. Um assunto que não esmorece, porque como já ouvimos um sem número de vezes, a moda é cíclica. Não me acanho, mas não sou corajoso no instante em que me perguntam a opinião. Ou reconheço harmonia ou não vejo qualidades no que respeita à conjugação. Contudo, aceito de bom grado – e prefiro - uma companhia que opta pela verdade do que lhe assenta. Longe de ser um tipo cuja indumentária é um exemplo, prefiro assim. Embora, não poucas vezes, se me dirijam elogios que agradeço. Nisto como noutra temática, não importa a carapaça. Um dia sentas-te e ressaltam umas meias divertidas. Nunca se sabe. Que ganhe o melhor. De ti e para ti.