Traz
os caracóis vincados, sobre a cabeça todos aconchegados. O cabelo curto ajuda à
composição. Diz que são naturais, fazem-se com a vontade da genética, do
crescimento. Não escapa, sequer, um branco. Todo escuro, enrolado, bastante
sossegado. Aí, o contraste total com o corpo, pequeno mas pejado de energia.
Magra o suficiente, avança. Não se deixa desmentir, dá a certeza de que tem
genica maior do que tantos homens que conhece ou juventude que vê crescer. Veste-se
conforme a confiança. Não me lembro de vê-la de vestido ou saia. Senão numa ou
noutra fotografia antiga. Tampouco com uns saltos altos. Agora é informal no
traje, e vem de longe a postura desbocada no trato. É eloquente e não dispensa
a gargalhada aberta. Magica autênticas instalações sociais. Coloca-as da boca
para fora, sem pensar um tanto de segundo. Emprega-as na vida de quem a rodeia.
Prefere a religião a outros serões. Sobre a temática, já tivemos sérias
discussões. Tão saudáveis quanto construtivas. Lá atrás, afoito, fui um nada rude
e assertivo demais. Senta-se de perna cruzada e conta estórias sem fim. Com
ela, perco-me em gargalhas sucessivas. Rimo-nos juntos. Tal como os
telefonemas, em tempos, tão longos. Não é falso lembrar as horas ao telemóvel.
Fala com tanta vontade que quase não dá sossego à tagarelice, descurando o que
havia de ser uma conversa a dois. Mas até isso lhe oferece graça. Fã assumida
de tecnologia, já lhe conheci um sem número de telemóveis, máquinas
fotográficas e outros gadgets. Uma
fase houve em que a prosa não era outra coisa que não repetida. Estava disposta
a mudar a alimentação. A favor do corpo mais leve e da saúde em pleno. Tirava
todas as dúvidas, lembrava sugestões. Lançou-se na prática de exercício físico
e até o corredor comprido de casa fora a sua sala de movimentar o corpo. O seu
nome rima com alegria. E de outro jeito não era expectável. É uma das minhas
tias. E uma mulher activa.
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12.4.17
4.4.17
O puto do skate e as marcas contadas.
Passou
por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue,
envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e
direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um
boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi
contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia
seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas
queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com
um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a
tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS
todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas
físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia
aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham
as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri
o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao
ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num
quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
3.4.17
Excelso desenvolvimento sobre um ponto “doutrinário”.
A
primavera a dar o ar da sua graça, a favorecer, finalmente, os maldizentes da
estação molhada – onde, uma ou outra vez me vejo incluído – a levar as gentes à
beirinha das águas ainda frias. Os calções de banho com as listas certas, o
bronze comprado, os biquínis da marca que há-de badalar lá mais para a frente. Ao
convívio dos castelos de areia. Os pequenos numa felicidade sem tamanho. Os
passadiços, as marinas e as esplanadas vestem-se a rigor. Os óculos de sol são
novos. As mangas encolheram, as pernas já espreitam a cor dos dias. Encontro
alguma pressa nas vestes. Os gelados artesanais e dignos de fotografias para o Instagram a fazerem os primeiros
estragos primaveris na dieta alheia. Mas a ganhar gostos porque as legendas são
um chorrilho de #HASHTAGSSEMNOÇÃOEMUITAREACÇÃO.
Cumpre-se o dia nessa função. Ouvem-se os passarinhos, fisga-se a ideia do
romance de algibeira e crescem briosas as flores da época. Fosse capaz de
sucumbir à heresia dos amores eternos e era ver-me deitado sobre a flora de um
qualquer jardim abastado da cidade. Ou num pedante socalco das imediações. De
mãos entrelaçadas com a figura feminina que havia de segurar-me – entre juras
de amor constantes, actos a justificar o dito e paixão sem fim (que todos
sabemos que é visita de todo o tempo) – até ao último dos meus dias. Ainda com
os olhos divididos entre a profunda beleza da jovem e o céu azul sarapintado de
um branco fofo. Ainda com tempo para fisgar com o olhar as espécies que viajam
airosas pelos ares. Respirando fundo e sentido o pólen invadir as narinas, numa
gritante e dura guerra de um inimigo que, bem sabemos, logo depois, gritará
dono de todos os decibéis, que restar-nos-ão apenas umas valentes alergias. Terminando,
apenas, lamentando a minha falta de jeito por, em momento algum, ter levado
outras pessoas relevantes a ver borboletas coloridas e bamboleantes, assim
como, não ter colhido as mais frágeis mas simbólicas flores de um qualquer
canteiro. Respiro fundo. Mas com cautela. Temo o regresso da hipersensibilidade.
22.3.17
Em diferido. #57
Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele
gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos,
algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças
daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada.
Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me
agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha
vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido
beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e
a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da
altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda
hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as
vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais
amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca
como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem
de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem
qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel.
Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há
gajos do caraças.
21.3.17
Equilíbrio e harmonia nos seus componentes.
Só
nos faltava mais tempo e que a mesa fosse redonda. Não dou espaço para
questionar. Pois, em abono da verdade, não me restam justificações.
Assomou-se-me a ideia de que as mesas redondas guardaram as melhores das
tertúlias. Não será, factualmente, mentira, nem totalmente verdade. Por
oposição, claro. Talvez, e especulo neste instante, a mesa redonda da sala de
jantar da casa dos meus avós maternos me tenha feito guardar, à margem da
história do mundo, esta ideia. Trago a vaga lembrança de deliciosas e demoradas
conversas ao redor da mesma. A minha avó com o seu cabelo tão armado, o seu ar
altivo e um nada rude, escondia a versão divertida, tamanha a preocupação em
servir bem. O meu avô e os seus olhos claros, sempre mais ameno, disposto e a
rede do convívio. Perdi tanto, que lastimo não ter estado lá mais cedo. O que
me contaram será uma medida muito rasa do que, de facto, por lá aconteceu. Hoje
é uma sala em silêncio. Com a mesa ao centro, as flores viçosas numa jarra. O
quadro gigante numa parede e os outros nas restantes. A estante com peças com
memória. Este domingo, a mesa estava lá – outra e noutro ambiente - comprida,
de madeira pesada, por azulejos bonitos adornada. Sobre ela passou de um todo.
A comida é a união. A bebida não perde terreno. Somos família. Aqui, poucos,
mas exactos. A eloquência é característica e, sem atropelos (às vezes), levamos
a nossa prosa adiante. A minha mãe, em alguns casos, teme que a minha avó –
sempre à cabeceira – ruborize. Mas não há razão. Guardámos-lhe todo o respeito
que nos merece. E, volvidos tantos anos, a avó é uma mulher bem mais liberta
(ligeiramente) de obrigações de um protocolo que lhe faz sentido. Tem a cabeça
arejada e ri dos devaneios de uma descendência que a quer viva.
15.3.17
Uma canção feita de razão.
Vinha
de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz
e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que,
passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço
a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que
imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os
caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava,
firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos
dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo,
capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos,
é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia
adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o
respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que
temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é
preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer
socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno
de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo,
apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona
de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação
forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo
animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos
estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de
tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me,
desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a
melhor das viagens.
14.3.17
Fadário que levou sumiço.
Pareço
atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos,
a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo,
num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não
chova. Pouso o tablet e agarro no
relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem
sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia
dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os
que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa
estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos
e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas
expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e
garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada
ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo
certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara
professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão
improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já
tenho e é com ganas que guardo.
8.3.17
Em diferido. #56
Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num
poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do
postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira
que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar,
sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou
ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo,
sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas,
a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa
e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa,
que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os
velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa
improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira
acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de
uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não
perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A
matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir.
Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um
senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à
espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem
eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As
calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres
sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso.
Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito
aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no
joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito
relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e
tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre
com a corda toda.
2.3.17
Entusiasmo matutino.
O
dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai
sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar
insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto
sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira
feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não
havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que
não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já
de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que
recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um
atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso.
Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com
ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me
nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as
ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece
desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da
partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como
fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço
qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.
1.3.17
Ser humano do sexo feminino.
Chega
no BMW, com o cabelo arranjado, de
longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a
estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento
exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso
largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar.
Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto
generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a
marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós,
sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações
num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona
do BMW. Os olhares alheios têm um só
destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se
pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns,
conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É
puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica,
profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor
dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O
corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos,
em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher,
bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são
genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia,
difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do
outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de
existir.
27.2.17
Rotundo festim na secretária.
No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos
graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a
secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das
palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como,
a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as
lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho
hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até
à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente
simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A
primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra
de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns
quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e
grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético
viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração.
Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas,
tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este
tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que
merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é
forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há
mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a
colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem
mais redondos.
23.2.17
Flor brava e fervorosa.
Venho,
por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem
justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como
se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe
guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de
acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe,
por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta
tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão
branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso
fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe.
Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se
quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela
serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora.
Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu
corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia
depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da
ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia
ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique
desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me
pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.
22.2.17
Em diferido. #55
Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e
o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos
pormenores. Nos pés levo New Balance,
numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de
assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de
restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração
pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os
copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura,
nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em
tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas.
Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não
termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a
lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca
da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com
teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais.
Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo
atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar
presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido
como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um
valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar.
Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a
lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder
é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica
tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma
companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame
de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos
amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom
par de ténis.
21.2.17
Estro que me enche o peito.
Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
20.2.17
Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.
Já
lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos
num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar.
As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a
chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo
ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado
quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês,
talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar.
Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado.
Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria
possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o
desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de
banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos
a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em
muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra,
por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e
de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora,
as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da
idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda
assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente
relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão
conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a
efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para
manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem
receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos
apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não
mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira
da escola. Uma vida cheia. Não duvides.
16.2.17
É sempre benfazejo.
Vem
aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue
pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas
e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges
para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o
rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe
frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem
altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os
lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é
mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça,
sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem
jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece,
também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o
primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as
mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto,
curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo
vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente
sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo
solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de
partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado,
peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente.
Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de
falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de
formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual
jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a
observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.
15.2.17
Perorar em favor do bom senso.
Não
detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a
inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se
fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de
ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha
vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à
convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca
mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela
saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e
não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção
do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes
a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da
rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas
no que avento serem exercícios de Yoga.
Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e
lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios,
elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe.
Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns
segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera,
alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz.
Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem
prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito,
garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que
me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se
preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela
necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não
queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha
garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso,
sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar
rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.
9.2.17
Pronome pessoal com divinas honras.
Encontrei,
entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem
propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por
me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A
negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por
meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a
fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa
silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato
no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu
o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais
terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira
estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o
movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro
deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali,
quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por
estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda.
Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a
dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre.
Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou
sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem
excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me
acrescenta.
8.2.17
Em diferido. #54
O
ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido
intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer
coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta
crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal.
Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo
adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no
esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas,
perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção.
Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água
amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem
utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar
requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano.
Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma
garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego
doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas.
Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade,
lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do
abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade.
Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam
pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam
outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o
“casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto
alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente
da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas
vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a
terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor
perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na
mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo,
como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência,
velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler.
Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes
para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat
caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu
aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos
a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar
altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de
qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente.
Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos.
Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos
e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas
exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de
valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até
qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada
mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha
investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador
investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus
quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede
abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.
7.2.17
Escassa produção de razões sobre “eruditos” compostos.
O
soalho de madeira antiga não deixa margem para putativas verdades, vem gente. Denunciada
a chegada e depois do bom dia habitual, reparo que traz uma revista debaixo do
braço. Uma conhecida, cuja temática interessa, maioritariamente, aos homens. Já
não compro revistas como dantes. Algum desinteresse, uma ou outra falha nos
conteúdos, a coerência deixou-se corromper e os artigos falham na ordem. Salvo
raras excepções. Restou-me uma desabituação que perde razão e não convida a fundamentação.
Já não sei o nome da revista que li há uns meses. Dissertavam, alguns conhecedores,
sobre a moda. A democratização e a exaltação. Confundem-se e divergem, como se
não soubéssemos. A moda de rua ainda tem trejeitos que interessam e, sem
desprimor, atestam e desafiam a moda de passarela. As cores são pontos de honra
a cada estação a começar. Os tecidos e os cortes, as medidas e os corpos não
perdem importância. Escrevo sem conhecimento de causa, pois a moda na minha
existência não ultrapassa o que visto. O que me parece bem fica, o que não me
atrai vai. Simples quanto isso. Arrepio caminho, escassas vezes, numa ou noutra
peça que diriam os puritanos, é extravagante. Um assunto que não esmorece,
porque como já ouvimos um sem número de vezes, a moda é cíclica. Não me acanho,
mas não sou corajoso no instante em que me perguntam a opinião. Ou reconheço
harmonia ou não vejo qualidades no que respeita à conjugação. Contudo, aceito
de bom grado – e prefiro - uma companhia que opta pela verdade do que lhe
assenta. Longe de ser um tipo cuja indumentária é um exemplo, prefiro assim.
Embora, não poucas vezes, se me dirijam elogios que agradeço. Nisto como noutra
temática, não importa a carapaça. Um dia sentas-te e ressaltam umas meias
divertidas. Nunca se sabe. Que ganhe o melhor. De ti e para ti.
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