Foi
num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua,
singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda
assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases
feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção.
Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
Mostrar mensagens com a etiqueta viver. Mostrar todas as mensagens
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18.4.16
26.8.15
Foi num punhado de ruas que tive esta sorte.
Na
rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés,
ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há
frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a
canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
15.4.15
Em diferido. #32
A
aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto,
acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da
língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome,
hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a
verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez
no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita.
Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe
despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de
lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe
semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou,
logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os
muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo.
Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres.
Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e
partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos
ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo
dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate.
É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde
protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se
as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes
sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como
conta numa mão.
14.4.15
O que vem depois.
Começa
cedo o dia. Quarto escuro, brincadeira de outrora. Abres um olho, depois outro.
Quase a medo, em jeito de adivinha. Antecipas o toque da campainha. Dói-te a
cabeça como se o andar superior tivesse ousado cair-te em cima. Desusado o
camião, que soa lá ao fundo. Pontes com entrada e saída. Ramos em cruzamento. Segues
caminho, inventas a rotina. O céu pingado e cinzento. Apitam os carros, correm
as pessoas. Zebras no asfalto, luzes de pé. Peúgas às riscas. Casaco no lombo.
Óculos a trabalhar. Relógio com algumas histórias contadas, no pulso de sempre.
Aceleras sem tempo, esperas em cada hora marcada. Ouves música, Gorillaz falam
do outeiro melancólico. A anarquia dá sinais, parece ter dominado o processo.
Notas no e-mail. Falam-te de uma exposição valente e curiosa. Um dos melhores.
A vivência de mão dada com o produto final. É suposto não declinar o convite.
Ainda no carro, passas uma parede branca com uma frase. “O beijo persegue-me”. Impossível não pensar. O dia seguinte é
sempre o pior.
31.3.15
Encher de letras o entusiasmo.
Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga
surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom
de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser
sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara
com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra
certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem
pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os
olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento
da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado
tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios
era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a
intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar.
Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e
franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com
a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não
gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz.
Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer
e melindrar.
7.1.15
A aprendiz de coisa nenhuma.
Não
é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e
voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de
boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do
ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias
pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não
dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria
Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita
ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem
com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não
quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não
vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias
leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz.
Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O
tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de
quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que
corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a
doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que
não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a
verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um
conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou
três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.
30.12.14
Rapsódia do ano velho.
Perguntaram-me
se sonho alto. Se tenho um patamar. Imitei um pensamento esquecido. Fiz uma
rapsódia de ideias. Não esgotei o tempo. De impulso, respondi que depende da
acústica da sala. Depende dos decibéis que se soltam. Cabal hipotético, o
estojo dos sonhos. Depende, sempre, do ambiente. Se castra por inteiro, se
excita o âmago. Se tens posição, se não repetes a batida. Sonhar, assim, sem
pontuação, porque a dispensa. Sem posto de honra para a guilhotina. Sem ponto
final. Não julga a elasticidade. Sonha. Cuida a insistência. Devaneia. Até à
salvação. No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as
notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas,
mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não
esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas
correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado,
assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de
marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo,
um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao
ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura
ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de
lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da
chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da
miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades,
que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as
há. Mundo, num ciclo. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com ele, espero, outros
caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de voar, é cobardia. Ano
novo, assim seja. Um ano feliz e com aconchego, é o desejo.
7.10.14
‘The show must go on’
Fingindo
ter um microfone à frente, gesticulava e cantava. Firme. À capela, supunha-se.
Popular no som, imponente e corpulenta na voz. Extravagante no figurino. Ousada
no penteado. A letra, fluente na memória. O cover
invariavelmente antigo. A banda atrás. O público na frente. Os aparelhos
afinados. O palco montado. A miopia a favor. O microfone ali. Refutando a
esperança irrealizável. Ganhando vida, não era fingimento. Era protecção.
Sabia-o ali, à sua frente. Afastando o olhar para lá dele. Fica na sombra. Por
ela, até ao amanhecer. Vagos pensamentos. Compassada, deixando-se levar,
esquece o fingir. Atribui efeito. Faz sentido quando não contamos menos. Siga o
espectáculo.
16.9.14
Toda a esfera nacional.
O
tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia
da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro
Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos
nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O
Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de
espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta
e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado
ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era,
inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades.
Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais
voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da
mais falada estação.
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24.6.14
Contas de um corpo desenhado.
A
matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de
progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o
que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento,
intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o
seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os
ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo
no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos
disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que
o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas.
Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às
convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na
norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu,
algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que
impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.
16.5.14
Um amigo sujeito à ventura.
Feliz
de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A
perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre
pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da
experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir
ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde
tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a
ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um
sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre
insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e
de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de
amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou
na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a
novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia
aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio
no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de
condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me
incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada
agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou
quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá
vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a
falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão,
justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a
sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no
íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais
convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai
brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e
imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais.
Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num
período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que
tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e
realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a
certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.
8.4.14
Em diferido. #7
Partida,
largada, fugida. É infantil quanto baste. Mesmo que acabe de ouvir da boca de
uma criança. Enquanto, absorvido pela idade da brincadeira, faz do amplo
corredor do jardim, uma pista olímpica digna do atleta mais afamado. Da sua
boca faz sentido. Na cabeça adulta, é uma reportagem do infantil, do que fica
daquilo que já passou. Não é tentador de grandes questões e dissertações. De
bons ventos, fazem-se excelentes casamentos. Simbólico quanto baste. Mesmo que acabe
de sair da boca de uma noiva que não quer casar. Faz sentido da boca de uma
moça casadoira. Regada de ilusões várias. Na cabeça de um adulto coerente, é
uma reportagem de uma história de amor que termina sem aviso prévio, porque não
há, senão vendaval de incoerência. E nada disto faz sentido. Porque, em abono
da verdade, notas soltas são isto mesmo. Anotações de passagens verídicas,
tantas vezes sem a preocupação da grafia, da pontuação, nem da cronologia.
Tanto se dá, como se deu. Serve-nos de cadeados para a memória. Só abre quem
nós queremos. Dito e feito.
18.3.14
Composição de um moço primário.
É
um linguarejar que não tem pretensões. É uma brasa que serve de assinatura e
que marca distintivamente. São emoções. Ela é elegante, tímida e sossegada. Ela
é divertida, tagarela e de sorriso fácil. Ela é cúmplice. Ela é assertiva. Ela
é dedicação. Ela é inteligência e perspicácia. Ela é inocência no entendimento.
Ela é distância ficcionada. Ela preocupa-se, também, com o resto do mundo,
mesmo que esse mundo e esse resto nada lhe mereçam. Ela não quer saber se os
seus actos e opiniões fazem bem ou mal ao destino. Ela tem medos vários. Ela
não se importa com as dúvidas. Ela quer sempre conhecer mais. Ela não é capaz
de mudar as escolhas. Ela quer saber de novidades e adquiri-las. Ela não se
perde à primeira. Ela fica na história. Ela faz a história. E ele, quer
continuar a enumerar, enquanto vive. E, se não for pedir muito, ele quer comer
algodão doce com ela. Se preciso, na feira da aldeia. Ou no quarto de hotel de
muitas estrelas do outro dia. Continua.
7.3.14
Especialmente no lugar certo.
Tenho
uma pessoa especial. Desde os tempos em que nos sentávamos lado a lado e
partilhávamos mais do que um lugar. Tenho a sorte de ter uma pessoa especial.
Não sei se é assim que se chama, mas apetece-me. Se posso colocar o sentimento
nestes termos, porquê evitá-lo? Questionei-me, acreditem, neste instante. Nunca
me havia assaltado a dúvida, senão agora. Mas, dizia, tenho uma pessoa
especial. Por várias razões, diferentes termos, imensos anos, tantas
experiências, diversas partilhas, quantas conversas, grandes silêncios,
repetidas chamadas, inequívocas e sucessivas mensagens. Dos sms, se preferirem. Das outras também,
as subliminares. Não é Ela. Agora.
Mas é uma pessoa especial. Senão, a minha pessoa especial. Neste período, não é
sexo, não é carnal. É, insisto, especial. E, sempre que é esta pessoa que me
conduz, ao entrar-lhe no carro, pergunta-me pela escrita. Pergunta-me quando
ganho coragem. Quando volto a escrever como deve ser. Por seu turno, quando sou
eu que a conduzo, entra-me carro adentro e pergunta-me, um sem número de vezes,
quando volto a escrever. Quando é que escrevo e não jogo fora. Nunca sei como
responder. Escrevo, mas de outra forma. Com outra visão. Mas agradeço-lhe a
insistência. Fá-lo sempre que se lembra. Porque é especial. Disserto sobre ti
enquanto ouço uma música antiga que sucede outra ainda mais antiga. O que é
especial não finda. Seja na escrita, seja na definição do que sentes. Mesmo
que, ao longe, nos falte o verbo. Adapta-se. Possivelmente.
6.3.14
Como disse?
Partida,
largada, fugida. É infantil quanto baste. Mesmo que acabe de ouvir da boca de
uma criança. Enquanto, absorvido pela idade da brincadeira, faz do amplo
corredor do jardim, uma pista olímpica digna do atleta mais afamado. Da sua
boca faz sentido. Na cabeça adulta, é uma reportagem do infantil, do que fica
daquilo que já passou. Não é tentador de grandes questões e dissertações. De
bons ventos, fazem-se excelentes casamentos. Simbólico quanto baste. Mesmo que
acabe de sair da boca de uma noiva que não quer casar. Faz sentido da boca de
uma moça casadoira. Regada de ilusões várias. Na cabeça de um adulto coerente,
é uma reportagem de uma história de amor que termina sem aviso prévio, porque
não há, senão vendaval de incoerência. E nada disto faz sentido. Porque, em
abono da verdade, notas soltas são isto mesmo. Anotações de passagens
verídicas, tantas vezes sem a preocupação da grafia, da pontuação, nem da
cronologia. Tanto se dá, como se deu. Serve-nos de cadeados para a memória. Só
abre quem nós queremos. Dito e feito.
16.1.14
Embate violento de um coirão.
Perguntaram-me
se sonho alto. Se tenho um patamar. Imitei um pensamento esquecido. Fiz uma
rapsódia de ideias. Não esgotei o tempo. De impulso, respondi que depende da
acústica da sala. Depende dos decibéis que se soltam. Cabal hipotético, o
estojo dos sonhos. Depende, sempre, do ambiente. Se castra por inteiro, se
excita o âmago. Se tens posição, se não repetes a batida. Sonhar, assim, sem
pontuação, porque a dispensa. Sem posto de honra para a guilhotina. Sem ponto
final. Não julga a elasticidade. Sonha. Cuida a insistência. Devaneia. Até à
salvação.
28.11.13
Curiosidade com verdade.
Janela
fora, surge um mundo, que da altura, foge ao olhar. De pés a suportar,
estende-se para lá do parapeito, forçando a segurança com as pequenas mãos. O
olhar, contrariando a estatura menor, abre-se excessivamente, em jeito de contradição.
Qual rotina, todos os dias, insistia conhecer. Não sabia o que viria de lá nem
o que assistiria para lá. Deste lado, sempre hirto e saltitando, espreitando
pela janela. Um dia, novidade, conseguiu descobrir. A janela aberta, agora à
sua altura, mostrou-lhe o que guardava para lá do que chamava quadrado. Para lá
do que perspectivava. Nesse instante, recusando e fugindo da imaginação,
conheci a paisagem das traseiras daquela casa. A casa de família. A praia,
misturando pessoas, mar e areia. O sol raiando sobre o jardim, reflectindo na
piscina iludida de azul deste lado dos muros. No fim de contas, era igual. Conhecia-o,
havia muito. Apenas, dali não via fracções do lugar. Via de uma forma
panorâmica. A curiosidade não é tacanha. Espicaça e dá frutos. Finalmente,
soube-o.
10.9.12
Perante isto, é o que me ocorre.
Se, por ventura, encontrarem entre uma rua e uma avenida, qualquer coisa que se assemelhe com vontade e/ou motivação, é favor chamar-me. Não tenhamos dúvida, sou o real proprietário!
Obrigado.
25.6.12
Elas são amigas!
Hoje, para além de iniciar uma nova fase na minha vida (Estou agradavelmente surpreendido, o que é excelente. Estou a precisar! Tenho excelentes expectativas) tive que estar alguns minutos num local público e, não querendo, acabei por ouvir, aqui e ali, as conversas que se iam cruzando à minha volta.
Primeiro, duas senhoras, já com alguma idade, falavam de uma outra que não estava presente e que, segundo diziam, não compreende os queixumes alheios e acha sempre que as amigas de meia-idade estão sempre bem, longe das maleitas que apregoam como vitalícias num corpo que já não é o mesmo. (Malandra, pá! Esta não deve ter dores) Depois, juntou-se uma outra senhora, também na mesma faixa etária e logo percebi que já se conheciam. Apoiou a amiga em todos os queixumes, ajudou-a com palavras de conforto e compreensão.
Até aqui tudo bem, o pior (acho eu) aconteceu de seguida. A senhora das maleitas teve que sair, ficando as outras duas. Bem, não foram precisos dois segundos e já a que se juntou em último lugar, orava a vida da ausente senhora das maleitas. Fiquei a saber que os pais já faleceram, o filho já faleceu, tem uma filha, quis o divórcio, não se divorciou, quis comprar um apartamento, barato e sem modernices (Garantiu a informadora), arranjou um namorado, o dito esteve com ela enquanto havia dinheiro, deixou-a, ficou sozinha. Agora voltou para outra casa, alugada, claro está. Diziam: "Ai, não bate bem da cabeça, nem nunca bateu. Nesta não há má sorte, há cabeça no ar e parvalheira, já a mãe era assim..."
Não que tenha alguma coisa com a senhora, nem com as amigas. Muito menos com as relações alheias, mas que não é bonito, não é.
Senhores, elas são amigas! (E que amigas, hein?)
6.6.12
Só me apetece gargalhar.
Não me passem a mão por cima, não se achem mais espertos que eu, nem me venham com as conversas que acreditam que eu quero ouvir. Não me apareçam à frente com um sorriso rasgado porque fica bem. Não me procurem quando precisam, se não me falaram quando nos vimos. Não façam por me agradar só porque sim. Não me julguem menos ou mais. Cheguem-se, antes, à frente e digam-me de olhos nos olhos, de verdade estampada no rosto e no discurso, o que sentem e o que querem. Lamento quando fazem, gratuitamente, coisas que vos caem tão mal. Depois obrigam-me a responder ou a interferir numa conversa que, sendo nossa, não era directamente comigo. Há muito que não sou politicamente correcto. Aborrece-me de sobremaneira. E tu, já sabias disso. Ou devias saber. Logo tu que te julgas sabedora superior.
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