29.10.15

Dérbi (mais ou menos).

A boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz. Ide, ide.

14.10.15

Em diferido. #41

Vai guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.

13.10.15

Homem muito sabedor.

Ao fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo. Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para, logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase, robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.

12.10.15

Apogeu figurado.

A sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos, daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes, num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se. Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande, ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um aplauso para isso.

8.10.15

Sumário.

Soa “Ain’t no sunshine” numa versão admirável e é coincidência. Sinto-lhe a pele fria, notoriamente afectada pela brisa e pela temperatura a baixar. Um arrepio que se vê. Partilhámos a mesma praia vezes sem conta. Nas manhãs quentes, nas tardes de verão sem fim e nas noites longas. Dividimos o quotidiano num tempo contado. Nos dias frescos, nas semanas ocupadas e rápidas. Nos meses largos, nas horas sentidas. Rimos muito e em voz alta. Lembrou-me a palavra risada e nunca mais a perdi da ideia. Desvendou alguns pormenores, li-lhe nos lábios algumas certezas. A atracção e a admiração na mesma conta. Promessas vãs, maturidade inútil. O corpo tão bonito e a cara perfeita. Os cabelos a bailar. Sob o luar, a luz certa no mar, falámos em voz reduzida. Partilhámos o corpo. Contámos segredos e pensámos em poesia. Os olhos claros tinham vergonha, as mãos desenhavam o pensamento. Prendeu-me a atenção. E levou-me pela mão. Ensinou-me a beleza, ocupou-me a cabeça. Partilhámos paixão e paixões. Olhei, desde então, para o elefante com outra perspectiva. Animal de eleição, simpatia para a vida. Encontrei, há instantes, a fotografia perfeita. Havia de lha enviar, não fosse a sorte fugir-lhe. Esse tempo já lá vai. Ficou a terna e infinita amizade. As mensagens na altura certa. Muitos elefantes para logo, é o que desejo. Tão grandes e imponentes quanto a sorte que sei que te está reservada. Precisamente hoje, que acontece o que já me havias contado e sabias tão certo lá atrás.

7.10.15

Em diferido. #40

Publicação que revela travessura - Lembraram-me dos estendais. Tamanho esquecimento o meu. Típico da cidade que se lança, em rigor da necessidade, pela fachada que deixa aventar. A rua não é larga no desfavor do passadiço. Em não tardando, desagua num largo com nome de figura importante. De voz buliçosa, com a traquinice na postura que segura, dizia em tom alto, sem opróbrio, assim se desfez em bons dias: notícias fresquinhas. Ouvi há instantes na rua de um outono que espiga à medida da desordem de um desaguisado entre o ser e o parecer das estações do ano. Também elas se franzem, marcando espaço, nesta luta de homens e de travessos meninos. Julgava eu, era mote de conversa, por demais, em desuso. Tomei de ouvido, e desta vez lhe tirei as teimas. Os quiosques de rua, tão frequentados como a jovialidade que ainda guarda o carácter alegre e a disposição para parar, ouvir o vizinho e ler as gordas. Porque lhe faltou a vista, ressalva. Depois da notícia, logo a conversa se traja a rigor. Pôr no corpo de cada palavra a discussão. É sangue a preto a branco o que salta das gordas de uma capa que promete guardar, adiante, o melhor do pior.

6.10.15

Início de citação.

Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.