A
boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes
rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os
fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas
que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no
terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece
fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a
actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras
lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do
antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra
vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam
a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se
com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as
actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me
diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor
e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei
o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre
quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que
vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a
dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz.
Ide, ide.
29.10.15
14.10.15
Em diferido. #41
Vai
guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em
que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos.
Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer
voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem
lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a
outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto,
antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que
nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa
varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a
mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma
velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a
passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e
abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco
negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva,
parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino
vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das
compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me,
particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em
que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre
ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um
canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas
rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na
literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.
13.10.15
Homem muito sabedor.
Ao
fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as
claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo.
Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O
som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os
espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao
redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma
carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda
as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do
dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de
cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para,
logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase,
robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços
sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por
sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem
velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a
coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso
demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma
agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os
autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o
espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.
12.10.15
Apogeu figurado.
A
sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as
luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a
conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas
medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos,
daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de
brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é
enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes,
num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo
é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é
maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos
ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se.
Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a
passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma
réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por
isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até
aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não
arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior
ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume
daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande,
ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um
aplauso para isso.
8.10.15
Sumário.
Soa
“Ain’t no sunshine” numa versão
admirável e é coincidência. Sinto-lhe a pele fria, notoriamente afectada pela
brisa e pela temperatura a baixar. Um arrepio que se vê. Partilhámos a mesma
praia vezes sem conta. Nas manhãs quentes, nas tardes de verão sem fim e nas
noites longas. Dividimos o quotidiano num tempo contado. Nos dias frescos, nas
semanas ocupadas e rápidas. Nos meses largos, nas horas sentidas. Rimos muito e
em voz alta. Lembrou-me a palavra risada e nunca mais a perdi da ideia. Desvendou
alguns pormenores, li-lhe nos lábios algumas certezas. A atracção e a admiração
na mesma conta. Promessas vãs, maturidade inútil. O corpo tão bonito e a cara
perfeita. Os cabelos a bailar. Sob o luar, a luz certa no mar, falámos em voz
reduzida. Partilhámos o corpo. Contámos segredos e pensámos em poesia. Os olhos
claros tinham vergonha, as mãos desenhavam o pensamento. Prendeu-me a atenção.
E levou-me pela mão. Ensinou-me a beleza, ocupou-me a cabeça. Partilhámos
paixão e paixões. Olhei, desde então, para o elefante com outra perspectiva.
Animal de eleição, simpatia para a vida. Encontrei, há instantes, a fotografia
perfeita. Havia de lha enviar, não fosse a sorte fugir-lhe. Esse tempo já lá
vai. Ficou a terna e infinita amizade. As mensagens na altura certa. Muitos
elefantes para logo, é o que desejo. Tão grandes e imponentes quanto a sorte
que sei que te está reservada. Precisamente hoje, que acontece o que já me
havias contado e sabias tão certo lá atrás.
7.10.15
Em diferido. #40
Publicação
que revela travessura - Lembraram-me dos estendais. Tamanho esquecimento o meu.
Típico da cidade que se lança, em rigor da necessidade, pela fachada que deixa
aventar. A rua não é larga no desfavor do passadiço. Em não tardando, desagua
num largo com nome de figura importante. De voz buliçosa, com a traquinice na
postura que segura, dizia em tom alto, sem opróbrio, assim se desfez em bons
dias: notícias fresquinhas. Ouvi há
instantes na rua de um outono que espiga à medida da desordem de um desaguisado
entre o ser e o parecer das estações do ano. Também elas se franzem, marcando
espaço, nesta luta de homens e de travessos meninos. Julgava eu, era mote de
conversa, por demais, em desuso. Tomei de ouvido, e desta vez lhe tirei as
teimas. Os quiosques de rua, tão frequentados como a jovialidade que ainda
guarda o carácter alegre e a disposição para parar, ouvir o vizinho e ler as
gordas. Porque lhe faltou a vista, ressalva. Depois da notícia, logo a conversa
se traja a rigor. Pôr no corpo de cada palavra a discussão. É sangue a preto a
branco o que salta das gordas de uma capa que promete guardar, adiante, o
melhor do pior.
6.10.15
Início de citação.
Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto
do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio.
Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar
com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo
que já calçou VANS, como se o mundo
fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito,
ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns
pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses,
a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora
acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até
ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que,
inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece,
depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é,
por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que
uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece,
pelo menos, até ao fim da citação.
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