30.11.15

A ocasião propõe a relação.

O cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual, engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar desgosto pela vida alheia.

26.11.15

Em diferido. #42

Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

18.11.15

À espera do tom.

Não se pede silêncio. Apagam-se as luzes. Fica o passado ali, o presente a crescer. O futuro que há-de vir, a certeza que se nega. Bate o pé sobre a carpete de desenhos pequenos. A particularidade aos seus pés. As galochas que não escondem a marca da moda. Bate o pé, espera a afinação. Bate o pé, começa o som atrás de si. Bate uma e outra vez. O pé calçado, não tem descanso. A perna balança. Os ombros dançam simpáticos. A um ritmo nada monótono. Soam, atrás, os acordes esperados. Senta-se, enquanto a saia junta as pernas. Sabe que dali só o melhor. Canta com as palavras certas, a goela solta. Pega no microfone com a cara de quem sente. Sente a canção, ri de olhos fechados. Franze o olhar. Semeia o ambiente ideal. Os ombros não mentem, vão para lá, voltam para cá. Os cabelos livres acompanham. Levanta-se, salta levemente. Canta sem impaciência. Repete esta fisicalidade com outras notas, só devemos agradecer. No instante, nada falta. A jovem mulher que canta como senhora de outros tempos. Que calça como menina de brincadeira à chuva. Que sente a canção que é da gente, como se tivesse nascido numa espécie de rua assim. Perde-se a sombra, voltam as luzes. Com a certeza de que, por aqui ficaremos, até à próxima contemplação.

16.11.15

Entre nós.

Entre cá e lá. Permite-me a saudade e os sentimentos revoltados que use a palavra que continuas a imaginar colada a mim, pensar sintonizado com a picuinhice que lembra a alma vazia, desenhar a vontade de ter certezas. Em cada palmo, sentimentos colhidos, factos salpicados e novas perspectivas. Suspende-se a respiração, adivinhas a loucura reinventada. Nos dedos, tintas felizes. E desenhando, fica na pele a certeza. Na ausência forçada, um tanto instante saborosa. Entre a distância, a despesa física e obrigada. Entre o pé aqui e o braço ali. Entre as imperfeições de estar longe. Embrenhados nessas horas que desassossegam a psique. Que mordem as carnes, que dão forma à fome do desejo. Entre cá e lá. Entre nós. Nessa gigantesca ginástica, nesse áspero incómodo. Entre cá e lá, neste mundo de disparates, desenhar-te-ia o mundo na pele. Corpo, tela de arte elevada a qualidade. Neste percurso, percorrido entre o espaço, por saber-te verdade, aprender-te na lealdade. Restar-nos-á, nunca a fraquinha memória perdida em nenhures, mas sempre a pele despida, o mundo nas mãos. Entre cá e lá, está tudo bem. Voltas de lá, como sempre, a lembrar-nos a pressa, nesse caminho certinho e seguro. A comunicação, a presidente da união.

2.11.15

Ideias não nos faltam.

Não venhas tarde, meu bom conviva. Ora, gente afoita e dada à rambóia, façam o favor de entrar. Na mão, a surpresa da ocasião. Nesta sala por almas trivialmente apaixonantes composta. Logo adiante, já o tempo se sumiu. Sobre a mesa já jazem várias garrafas. Por restarem vazias, já lhes perdemos a conta. Os copos multiplicam-se e com destino. O vinho é senhor, na voz é rei. Podia rimar, mas fico-me pela conversa. A troca de prosa válida e com substância. A noite é grande, nada curta. Olhos nos olhos, que dos senhores e da verdade reza a história. Boa comida para sossegar as ânsias. Estômago compostinho abrevia caminho. A pitada apimentada, a dona da gargalhada. Hei-de, numa corrida cheia de paleio, tão breve quanto a minha memória desmembrada, falar sobre a artista de variedades que encabeçou a arte e monopolizou, para gáudio dos comensais, o humor da mesa. Guardam-se, algures, fotografias e vídeos. Escondem-se porque a intimidade tem barreiras. Nunca a força do vinho, sempre as ideias que não nos largam. Imaginamo-la, baixa e frenética, num palco grande. Cartazes à porta, anúncios com trejeitos de outros tempos. Ora, tomem atenção, é chegada a hora da comédia que agrada ao povo. Pois, entre linguagem habilmente prosaica e gestos esbeltos, vem do coração.

29.10.15

Dérbi (mais ou menos).

A boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz. Ide, ide.

14.10.15

Em diferido. #41

Vai guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.