Guardo,
algures entre o soalho e o rodapé, pinturas que esperam por um lugar. Qualquer
um. O relógio guarda horas obscenas. Deixei-me ficar pela noite, ao invés, de
esquecer. De fazer por adormecer. Faz-nos assim o tempo com tempo, o ritmo
diferente. A rotina que foge, os hábitos da gente. O relógio não deu sossego,
mas a obscenidade ficou. A minha irmã mais nova gaba-me a blusa que trago. Um
sincero elogio logo cedo. No fim do ano, convidam-se os balanços para a mesa.
Como se a transição fosse imediata, como se mudar fosse simples, brando.
Sugerem-se novos ritmos, outras acções, perspectivas obliquamente diferentes.
Na rua, as pessoas carregam, sem alma, sacos. Tantos sacos. Algumas vezes, fui
um deles. A minha irmã mais nova procura a compra pretendida. Ri-se, e
encontra. Outras vezes, sou um dos outros. Dos que se cansam do consumo, dos
que viram a cara à aventesma e, sem espírito, passeiam na mesma. Nunca fui de
guardar promessas, de escrever novas regras. Prefiro a organização das coisas,
as ideias no lugar certo. Talvez, não desminto, me falte o talento para a
previsão. Fica-me a vontade de pensar, fazer e, só depois, ver. Não sei se me
repito, mas guardo, ali mesmo, sobre o soalho confortável e o rodapé
trabalhado, uma série de pinturas bonitas. De tanto passarem de lá para cá, ali
têm vivido. Precisam de um lugar. Vem aí o novo ano, não sei onde as colocar.
Nisto, ainda me lembro da definição da astronomia. Caso perca a vontade, tenho
outro ano, o mesmo tempo, para as pinturas pendurar. Ou guardar. E, assim, os
meus sossegar.
29.12.15
23.12.15
Feliz Natal.
Mesmo
que se repitam desejos, a ficção e a criatividade esdrúxula, em tempo algum,
vão superar a realidade. Deixemo-nos de elaborações mirabolantes. Apostemos na
alegria sentida e nas acções repetidas e relevantemente inocentes. Num país de
realidades altamente opostas, por uma vez num ano, se viva a igualdade da
partilha, Que se ambicione o que não obtém valor em notas altas. Que se procure
o extraordinariamente acessível. Nem por um minuto se espere desistir, mesmo
que estejamos numa fila interminável de uma loja de centro comercial. Uma vez
no ano, que alguém seja digno de uma espera demorada. Para que, no final, de
presente na mão, com o presépio bonacheirão no chão, a estrela no alto, e mais
importante, o sentimento no lugar certo, lhe diga feliz natal.
21.12.15
Canção de supermercado.
O
natal, há pouco, vestia as paredes frias. A rua vai dando aos transeuntes o que
o comum cidadão procura. Uma apropriada bola de neve. As caras dos espectadores
acompanham a magia numa ficção pintalgada. As bocas brincam como fantoches
comandados. É engraçado pensar. As fotografias da rotina acontecem em cada
esquina. É engraçado não reparar. Damos, de novo, prioridade aos passos. Vamos
lá, há mais para contar. Quanto mais acentuada é a falta de sentido, mas
atraente. Quanto mais ausente é a monotonia e o comportamento amorfo, melhor e
vencedor. Entre a secção dos enlatados e a barreira das massas, antes de
vislumbrar a banca dos frescos e de piscar o olho aos brinquedos, há uma menina
cantadeira. Tem tom de rouxinol, timbre de fada madrinha. Inventa a letra,
canta como se estivesse na luz de um palco rei. Inventa o público eufórico,
esgotado mas firme. Se ficarmos ali, com atenção, ouvem-se os aplausos. Os
gritos fortes, em uníssono. A menina canta, soa a qualquer coisa. Ficar e
escutar não é opção, é a força da razão. A boca tem vida, as cordas vocais não
têm receio. Imagino-as num bailado sem fim. Numa corrida sem precedente. Que
espectáculo graúdo. Voz de supermercado, canção de menina sem pecado. Na mão um
pai natal luminoso é o perfeito microfone mimoso. Pelo meio do palavreado
seguido, percebe-se a alusão à época. A festa da gente, a razão da família.
Entre o atum acondicionado e a esparguete em exposição, canta a menina de voz
doce. A canção de supermercado. O natal vive em qualquer um, vive em qualquer
lado.
14.12.15
A primeira letra.
Sentado
algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não
chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que
vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que
queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho.
A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante,
tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem
conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego
os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar
presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante,
nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade
quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar
que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento
e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas.
Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E
menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances.
Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com
cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a
respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros,
passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara
mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios
grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na
mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato,
não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu
nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem
editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é
este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar.
Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se
passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor
tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação.
Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim.
Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma
espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para
a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas
que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti,
nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca
continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo
o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e
a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um
príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a
letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.
9.12.15
Em diferido. #43
Um
almoço descapotável e um tubarão no presente de Natal - Dezembro que vem a
descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se
vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de
estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas
festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade
da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que
nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais.
Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite.
Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas.
Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num
pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu,
já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na
cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na
carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada.
Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu
turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e
velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em
véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No
final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção,
disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? –
Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto
do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz
porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com
uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me
apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem
medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com
presente.
7.12.15
Ladeira acima.
Ligo-te
depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta
verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os
ténis laranja forte, azul concentrado. New
Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão
hipster me parece esta ideia. Havia
de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se
avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de
beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de
menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas
bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os
óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de
passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para
o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção,
o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a
simpatia matinal. Por pela hipster
montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar,
insistir e não actuar. Ladeira acima, lá
vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima
no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao
ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por
ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um
trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É
relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra
liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o
ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri
sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o
bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o
carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a
mal. Quão hispter pode ser a montra
de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém.
Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a
palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.
2.12.15
Aceitei um bom vinho e uma selfie à saída.
No
Novembro frio, noite a negro e branco, apontamentos de sombra dos candeeiros
colocados. Um casaco quente, a moda de quem corre por gosto. Convite surpresa,
resposta certa. A porta abre-se, a cordialidade de receber. Levam-nos pelo
caminho. Espera-nos uma mesa decorada. Um espaço cuidado. Apresento-lhes o que
trouxe, respira e tem socalcos atraentes no sabor. Cumprimentos demorados,
perguntas da ocasião. Oferecem-nos o lugar, antes uma última resposta à mensagem
pendente. De lá longe, as dúvidas que inventam certezas, o inverso acontece tal
e qual. Fora da hora marcada, chega alguém. Da casa, esquecida algures. Tem o
sorriso largo, como tenho presente. Acena e obriga a nova gestão de lugares. É
assertiva, mas engana com soberba. Os braços despidos mostram as tatuagens que,
imagino, são estratégias da paixão de decorar o corpo. Ficam-lhe bem, que a
responsabilidade do feitio engana com a desconstrução da pintura. Conversa
muito e conta estórias sem fim. Logo sentada, oferece-me vinho. Aceito e
serve-me com cuidado. Não descura, por qualquer instante, a conversa.
Monopoliza, a dado momento, a atenção do olhar. Fala-me de uma cidade distante,
de um evento que a levou à raiz. A música que é paixão, escuta sempre com atenção.
Não me importava de fotografá-la. Guardar, por certo, a negro e branco, a
arrogância da postura e a liberdade das palavras que, em foco, não se ouvem.
Lêem-se os lábios, as tatuagens pelos braços abaixo. O café bem longo que tomou
no final. Perdi, contudo, uma fotografia do caraças. Ganhei um convite para
voltar e para o estúdio de tatuagens conhecer. Perdi a oportunidade de fixar
aquela imagem. Não me livrei de uma selfie
a dois, com direito a redes sociais. Hei-de lá voltar, jovem de sorriso abrangente.
No regresso a casa, de lá longe, a pergunta nunca esquecida. Quem é a dona
daquelas feições?
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