29.2.16

Os tempos da dama.

A chuva vem dando tréguas, o céu já está limpo, o azul bonito, o convite certo. O burburinho vai tomando conta da sala. Lá fora, uma avenida composta pelo tom e ambiente característicos da época. A dama vem de saltos, pernas esguias e pouco vestidas. Uma saia curta, acima dos joelhos. Não sei como é que os entendidos lhe chamam, a mim parece-me uma roda com vida. Um casaco comprido lembra que o frio ainda ataca. Uma mala colorida na mão. Pequena, pouco importante na dimensão, o oposto na selecção, fui ouvindo. Uns óculos escuros, diva na passadeira. O cabelo vem preso, alinhado e alinhavado com a temática. Os quiosques ao fundo, uma fotografia com qualidade. Um tipo com aspecto rústico brinca com o fumo. Com o cigarro. Ora entre os lábios, ora caído numa mão fria. Depois, exala e o calor ganha forma. Andou nisto, de máquina fotográfica ao peito, até à aguardada chegada. A dama continua os passos, trocando as pernas, como só elas são capazes de elaborar. Logo depois do fotografo brincalhão e de barba grossa, estão outros. Mais novos, exasperados. Ansiosos pelo retrato perfeito. Apressam-se a chegar-lhe perto. Ela, dama sobejamente conhecida e sabedora do ritual, sorri suavemente. A avenida não chega. Enche-se de qualquer coisa que não se vê. Sente-se, acredite. Neste frenesim, três velhas e carismáticas senhoras, deixam-se ficar num banco, meio apáticas, um tanto atentas. O olhar de todas cai sobre a dama, diva de um país curto. Guardando-a mesmo à sua frente, as velhas senhoras apontam e sorriem. Levam as mãos à boca. Gritam pelo nome e do estado quase inerte avançam para o frenético movimento. Pedem beijos, abraços fortes. A dama devolve-lhes tudo. E embarcam numa troca de afectos de rua. O objectivo é cumprido. Sem pressa, vai até à entrada. Luzes e mais luzes. Afoitas, capazes de embebedar um desprevenido. E lembro-me, neste caso de um documentário. Um relato acerca da trivialidade da vivência de uma excelsa figura. No tempo, uma diva celeste, nada ligeira. No final, tivemos o presente de conhecer a certeza de que o que parece, não é senão a realidade atrofiada. Acordei deste pensamento, com a euforia. Finalmente, ei-la. Chegou. O burburinho adensou-se e ganhou novo corpo. A dama acena com a mão direita. Agradece a companhia. Toma a sala com um discurso eloquente. E, já no fim, garante, não dá tudo. Tem medo de não levar nada, de não voltar com a intimidade no lugar. E tem razão. Acontece-lhe, tal como, aos jovens fotógrafos que a aguardavam ou às velhas senhoras que, levadas pela surpresa, não foram capazes de suspender a acção. Tudo, por tudo. Pela primeira vontade. Pela certeza de que dar é bom. Pela convicção de que levar algo ou alguém para casa é ainda melhor. Como um cigarro que chegou ao fim. Ou como envergar um blazer axadrezado em tons de inverno, uma gravata verde seco e um lenço divertido na lapela.

25.2.16

Em diferido. #45

Muita saúde e sorte é o que lhe desejo - Doravante foquemo-nos no adágio que apregoa o horário bem matutino e aos seus benefícios. Oiço um bom dia lá ao fundo. O sono vem acompanhando os meus passos desde manhã cedo. Parece mal, assim ao jeito de quem procura o espaço e a cadeira certos para fazer da cama um lugar melhor. Assumir o sono que não dormiu, confrange a sociedade e a obrigação das maneiras bem pausadas e pautadas. Parece-se com a ideia tão estapafúrdia de querer uma cadeira à cabeceira. Duas, diferentes e, se possível, datadas. Compô-las com o tempo. Quão blasé me tornaria – em descasos, ainda mais - se optasse por confundir e difundir ideias desordenadas, imitando uma mímica repetida, ignorando o tédio ao redor. As pessoas passam em grande número e falam alto, na televisão da moda passa um vídeo pop onde as ancas da jovem torneada se mexem com afinco e açambarcam o ecrã, o miúdo vem de rosto lavado em lágrimas porque não comeu o terceiro bolo, um casal vestiu-se para o casamento do ano mas age como se vivesse entre a espada e a parede. Um outro casal, bem mais vivido, leva as mãos enlaçadas, sorriem e apontam curiosos para um pequeno pássaro que está pousado entre os verdes. Casal que, sinceramente, me apeteceu fotografar. Homens apressados carregam caixas pesadas para lá, voltam para cá, e repetem a acção. Os saltos altos soam na calçada e os chinelos ainda são a maioria. O acordo ortográfico, que degrada um tanto do léxico e foi vilmente imposto, come as páginas por onde passo os olhos. Esta compilação provém da desdita que resulta da luta mental em favor do cidadão activo. Tudo isto e mais um par de óculos de sol.

23.2.16

Locutório à mercê.

Aquele aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira, num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio. Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância. O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais. Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco, a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda. Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém. Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.

18.2.16

Compensação das coisas.

Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

15.2.16

Ora, atente no busílis.

Numa sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular. Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo. Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics. Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta. Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar, um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso, no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história. Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros, esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze. Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.

10.2.16

Em diferido. #44

Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

8.2.16

Um presente frio de inverno.

Enfim, cheguei. Trazia um presente entre as mãos. O frio obrigava-me a desvalorizar outras questões. Um casaco quente faz milagres, quando o conforto está longe. Tão distante que preferes não lembrar. Pior, quando o encontro é frequente, e o frio acontece. Um cachecol apropriado está no mesmo nível. Cheguei, portanto. À hora marcada. Sem exageros. Nem para diante, nem para trás. A educação faz milagres e não conheço alma na minha família, que não o defenda. São ferozes no defendimento da relevância da educação, pois claro, mas não se poupam na defesa da importância de saber receber e, melhor, de saber ser-se recebido. Numa mão, o presente. Esperei uns instantes, os necessários para que me viessem abrir a porta. E depois, receber. Conheci-a, ainda petiz. Tão imberbe que a memória, se pouco induzida, perde força. Conhecemo-nos cedo. A irmã dela também. Por força dos nossos pais, casais amigos. Sorri, entre a porta e a entrada do espaço. De presente na mão. Devolveu-me o olhar e, num passo apressado, chegou-se a mim. Um beijo feliz e as felicitações simpáticas. Comigo, as minhas irmãs. Fomos amigos de infância, até que a ausência foi forçada. A distância física venceu. Foi célere a apresentar-me o namorado. Um tipo que pendia para o absurdo, vim a aperceber-me. A irmã dela, sempre simpática, bem vestida. Tudo isto, ela é capaz de misturar com um ar meio snobe. E, se me recordo, é uma inspiração para a aniversariante. A irmã ofereceu-se para me trazer uma bebida, falámos uns largos minutos, todos monopolizados por ela. Gabou-me a farpela e o bom aspecto. Sê simpático, pensei. E, sem esforço, devolvi-lhe. Jantámos numa mesa comprida, cheia de gente. Muita conversa, muitos copos a pedir saúde e felicidade. Fiz por sair no momento certo. Nessa altura, intersectado pela irmã da aniversariante. Um convite para seguir para outro lugar e dançar até ao sol raiar. Recusei, forçosamente. Trocámos um beijo, e voltou a salientar o meu bom aspecto. Agora, sem presente entre as mãos, sorri e prometi que íamos ter tantas oportunidades para tomar algo e dançar sem fim. Abrem-me a porta e, com as minhas irmãs, seguimos para o nosso destino. O frio aborrece. A noite é estreita. Afunila situações e junta pessoas. No compromisso, se pensares, não há espaço para soluções de circunstância. Mesmo que lá fora esteja frio. Mesmo que lá longe estejas tu.