16.5.16

O putativo lesado e a sua barba rija.

Vem de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem, numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade. A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto. Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua. Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o intelecto, abusar dos hashtags. Isso e do português correcto.

18.4.16

Em diferido. #48

Foi num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua, singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção. Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo, que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo, donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns, sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço, papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também, que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo para a mente. Um viva!

14.4.16

Breviário sobre o espaço e o tempo.

Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

13.4.16

Um dia.

Desconfio que me canso, a passos largos, de algumas conversas, até de posturas. Um tanto inócuas e frívolas, outro tanto desonestas e até sádicas. Mesmo que carregues um sumo que sustenta a ideia e a necessidade de limpar o corpo. Uma revista de nome pomposo na outra mão, uma maçã na algibeira e outra num saco que tem as iniciais estampadas. Assim se faz a corrida matinal do contratempo. Ou é acaso. Que, com prejuízo, relegas para outras horas a limpeza do tronco humano. Se acreditares, da alma também. Ainda agora demos o primeiro passo do dia, já vai ameaçando cansar. Chegas e ouves vozes baixas, passos leves e cafés nas mãos. Sorriem com a facilidade de um manequim dentário. Devolves, se o senso te permitir. Na pausa maior, há almoço marcado. Levas a maçã que não te deixa sossegar, os óculos de sol elegantes, o casaco bonito e o perfume preferido. Somos uns quantos, alguns nunca vi. Avançamos numa conversa com passo, tema livre. A paixão de uns, o desamor de outros. Levam-se, estes ritmos, à ficção da exaltação. Que a vida cospe, mas não há como mudar certas vicissitudes. Neste barco, adiante até ao despique da tagarelice. O sexo oposto chama a atenção. O trabalho efectivo ou o desejado em cima da mesa. O olhar atento para com os refugiados. Aqui, ganha espaço o indouto. Não replico se não for caso disso. Se não se aprouver de importância o ser que vocifera alarvidades. Ao fim do dia, com tudo em caminho da pausa. Ganho a certeza de que me venho cansando. De determinadas conversas e de gente salobra. Dá-se a sorte de me rodear de pessoas boas. Uma certeza destrói o putativo. Mesmo que irrompa inopinadamente no nosso sentido.

11.4.16

Apresentar como qualidade habitual.

Ora, vejam lá. A senhora lavadeira nas horas que deveriam ser vagas e cozinheira naquele restaurante a tempo inteiro lê nas horas vazias. Ora, fechem as bocas que o espanto ainda vem a galope. Que não lê as gordas do jornal genérico nem esmiúça as fotografias da revista semanal cujo objectivo é saber da vida alheia. A senhora, de cabelo aloirado, com as raízes a gritar, de avental aos quadrados. Aqui azul, ali branco. Aqui azul, ali branco. À cinta, uma tira de tecido florido. Adelgaça a mesma e faz lembrar a primavera. Põe sobre os ombros, para compor a vestimenta, um casaco de malha. Azul silvestre, avançou. Fala com pressa, a língua não se atrapalha e, se for o caso, ainda trauteia umas canções de Roberto Carlos ou da Dina. Prefere o cancioneiro português e brasileiro, ao invés, das desculpas que Bieber vai gritando em cada esquina. Conhece o pequeno do outro lado, porque a neta ouve a despropósito todo o santo dia. Um ramo de salsa na mão, viçoso e airoso. A mão esquerda leva-a ao brinco que não quer guardar o lugar. Sem que fora preciso perguntar, não guardou a palavra e deixou passar que é dona do seu nariz, vive ali há tanto que já olvidou e com o seu homem se casou. Teve dois filhos e um emprestado, comprou o vestido com o dinheiro que ganhou numa casa de fado. Sonhou ser professora de meninos pequenos, perdeu a sorte e ganhou o palato apurado. Com o casamento, veio o restaurante, foi a menina do balcão, serviu às mesas até ao dia em que a cozinha lhe recheou o coração. Hoje é mãe e avó, ri com gosto e fé, põe as mãos na anca e afinca o pé. Quando a noite já vai perdida, encosta a cabeça no travesseiro alto e lê a companhia de cabeceira. O marido já dorme, ela lê Mario Vargas Llosa. Conheceu-o aquando da atribuição do prémio Nobel. Daqui a pouco é manhã. O sono sumiu-se num nada, há gente para cuidar, roupa para lavar e engomar e um restaurante para comandar. Ora, vejam só. A cozinheira de mão cheia tem na arte a compreensão. Fá-lo tão bem, que gere o tempo de forma a ler depois do serão.

7.4.16

Autêntica cegueira moral.

Bem petiz, aventurei-me no golfe. Tampouco consigo avaliar como é que me deixei levar. Uma certa sobranceria da idade, avessa a desordens que nada me convenciam, batia de fronte com uma outra. A sobranceria de menino bom e de bem aplicar-se nas letras e contas, ajustar-se na cordialidade de ser um bicho social e de comprometer-se com o desporto. Fui longe noutra modalidade, uma vez mais, sem pensar. Nessa, apliquei-me com vontade. Fui desprovido de pensamento, fui sempre na vontade de chegar mais à frente. Ganhei medalhas, títulos e louvores. Para despromoção do que escreve, ganhei sempre ao nível do que me permiti competir. Sempre nivelado pelo campeonato dali. Nunca fui campeão de coisa alguma, sempre jogador nas horas desprendidas. Valeu pela aprendizagem. E, sem desprimor, para a labuta física e intelectual. Nisto andei até ao dia em que, nitidamente, a justiça não morava no lugar certo. Não adianto prosa, por dela não ser merecida. Volto ao mote. Sujeitei-me à ventura. Experimentei o golfe. Os termos e os ensinamentos sem fim. Éramos três. Eu e mais dois amigos. O professor já o conhecia de outros afazeres. O taco certo, a posição enfadonha. Esmoreci ali. E, outra vez, questiono-me como é que permiti ali chegar. O professor era sabedor, aplicado e não deixava de repetir. Até ao dia em que, a comande de superiores, a nós juntou-se um outro miúdo. Da nossa idade, inspirado. Ao contrário de nós, pelo golfe entusiasmado. Apercebi-me, logo cedo, que a atenção dispensada era amplamente díspar. O novo companheiro de golfe vinha ao abrigo de uma instituição. Portanto, sem mensalidade. Bem petiz, aventurei-me no golfe. Não fui além das três aulas. Porque, já naquela idade, a altivez descompensada, já me incomodava. Não sou boa pessoa. Sei bem disso e não proclamo o contrário. Contudo, em tempo algum, hei-de de compactuar com mimetismos de gente acéfala. A sociedade morre aos bocados. Se não a remendamos, perde-se para sempre. Ontem, volvidos estes anos, ouvi alguém relatar, em sofrimento, o preconceito para com a neta. Não interessam os motivos. Caduca um pouco mais a validade da sociedade sempre que alguém não acede ao que lhe pertence. Ao que, por direito, é dela. Marcam-se pessoas. E os imitadores de coisa alguma seguem em frente. Neste caso, falece a crença numa sociedade que convive em harmonia. Já em petiz pensava. O seu a seu dono. Para o bem, assim como, para o mal.

4.4.16

Saúde e alegria sobre rodas.

Alguém que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for. No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto. Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos. Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora, uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou, antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que morrem na calçada e de tomar notas no iPad que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.