Nesta rua, a vida é ao contrário, vimos a tia-avó e o homem bom - Nota-se o movimento nas ruas. Diferente, apenas. Nesta rua, repara, está uma loja com nome de senhor bom. Daqueles que lêem livros antigos, contam estórias sem fim, vestem camisas claras e pousam as mãos num balcão de madeira forte. Dos que nos fazem lembrar outros tempos. Lembrar ou, se não te falha a memória, conhecer. Dão-nos cultura que não vivemos, vidas que não conhecemos, opções que não pensamos. Daqueles velhos homens que vivem o trabalho. Que fazem relatos majestosos, que nos fazem pensar. Conta sobre aquele acontecimento que só conhecemos nos livros, dos relatos e da história que vai ficando. Tantas vezes, os homens encarregam-se de adulterar a efeméride para, obviamente, alcançarem altos benefícios ou disfarçarem a realidade factual que lhes é inconveniente. Outra visão. Abre-nos, no fundo, o espectro da discussão. Tudo isto, só pelo nome que vive na cabeceira daquela loja. Depois de entrar, por força da curiosidade, temos uma visão do que já passou. Tal e qual como falávamos antes. A vida acontece ao contrário. Ficámos a saber que, embora, este velho senhor tenha o mesmo nome que está à entrada, não foi ele quem deu nome à casa. É herança de um ascendente que lhe passou o bicho. O nome e o espaço. Continua na lida diária, de pano laranja pelas estantes a passar. Foi bom conhecê-lo. Continuação de boas conversas e, se lhe deixarem, de vendas suficientes. A ver vamos, juventude, a ver vamos. Rematou assim o senhor da loja que tem nome de homem bom. Até qualquer dia, então. Sorrimos e voltámos à rua. Repara, esta rua tem nome de senhora que fica para tia e veste o papel com maestria. Rimos juntos. Isso é a tua memória a falar alto. Lembras-te da tia-avó dos contos? É ela.
31.5.16
30.5.16
No gira-discos da tua casa.
Cruza
as pernas. Descruza as pernas. Volta a cruzá-las. Leva a mão ao cabelo
arranjado, todo puxado. Os olhos já são belos, ficam com a maquilhagem ainda
mais esbeltos. Os sapatos altos na outra mão. É admirável a confusão. O vestido
parece que voa e não tem descanso. Apetece-lhe da boca largar um palavrão.
Pensou no cigarro, mas já lá vai o tempo da iludida sensação. Aquieto-me, à
espera. Invento outro pensamento. Fotografo para passar o tempo. Os lábios
atraentes, no desenho da tentação. Fi-la ficar a preto e branco e liguei o
gira-discos. Tal como o aparelho, o disco do mais vintage. É maravilhoso guardar o retrato. Envia um beijo com a mão
e a postura é atrevida. Assim, neste frenesim, aconteceu neste dia e nos
restantes. Foi amor à primeira. Separação na data verdadeira. Ficámos amigos
para a vida inteira. E não me engano. Que o amor fora apertado e profundamente
sexualizado, mas a amizade é, no mínimo, um prazer danado. Talvez, também por
isto, não neguemos a admiração. E não desmentimos. Amar é partilhar. Mas não
será errado sugerir que amar é admirar. Pisca-me o olho desse jeito. E vamos
morrer com a amizade viçosa, a memória com genica e fruitiva prosa. E que nunca
nos falhe a música boa e o vinho de fina casta.
25.5.16
Intricado destino.
Nas
mãos temos o mundo e sequer pensamos. Evitamos o pensamento, que miséria tão
grande. A distância do outro parece mentira e que ninguém avente desmentir. Na
hora da conversação substituímos os lábios sapientes, quiçá atraentes, pelos
dedos amestrados, quem sabe irritados. Letras garrafais acenaram, faz tempo, a
questão do mundo enviesado. Hoje esperam-lhes parcas linhas num tamanho de
letra ridículo. Talvez fotografias repetidas. Afoitos há, que se fazem ao
caminho íngreme e despojado e atendem à inspiração. Guardar numa gaiola a
exposição da natura, da liberdade. Invertem-se as definições. Entram as
contradições. Somente, se a interpretação dos factos ficar pela rama. Homem ao
mar, gritavam dantes. Bordo fora, pelas águas tomadas pelo terror do frio
adentro. Hoje é razão de ajuntamentos que vociferam impropérios. Como qualquer
acto de exprobração, resume-se à ignominiosa sensação. É gente de fraco
espírito, por só dos deles querer salvação. Na mesa do café, com a segurança e
a liberdade trazidas debaixo do braço, tudo é palavreado fácil e egoísmo na
razão. Quem chega de lá e pisa chão, leva os braços ao coração. Pede ajuda e
salvação. Que a morte fora certa e o destino tem ramo de ficção. Ide, ide. O adágio
repete-se e não engana, a esperança é sempre a última a partir.
23.5.16
Uma manhã qualquer.
O
sol olvidou-se. A ameaça é constante. As meninas da recepção, entre o dedilhar
no teclado com as unhas gigantes e o atendimento que as distrai, choram a
ausência do calor, dos dias grandes e da praia a perder de vista. Já ninguém
tolera a questão. Ameaçam-se os céus e os santos. Adiante, que o que lá vai não
é nosso. Ouvi, assim que passei o corredor iluminado pelas vidraças gigantes.
Um senhor e uma senhora, que imagino casados, trocavam a prosa sabedora.
Ficámos à espera. Um pequeno rapaz faz birra e garante que não quer estar ali,
o irmão ainda menor brinca com carrinhos no chão e guarda outros tantos na
mochila. A mãe ameaça abandonar o propósito que os mantém ali e seguir para a
escola. A televisão, silenciada, esboça uma apresentadora animada numa conversa
cujo tema revela toda a maestria do conversador matutino. No telemóvel as redes
estão ligadas e no Instagram já se
vêem biquínis coloridos, praias a enquadrar e sumos de cores berrantes,
aludindo, claro, aos últimos cartuchos da anterior época balnear. No Facebook somos todos qualquer coisa,
conforme o dia apeteça. As notícias frescas, os acontecimentos que fervem e não
deixam sossegar. Recebeu-nos com o sorriso rasgado e a amabilidade de sempre.
Não os sabia por aqui, façam favor, adiantou enquanto nos encaminhava. Havia,
por certo, tempo demais que não nos cruzávamos. Daí, a surpresa. Gabo-lhe, sem
cerimónia, os seus bonitos suspensórios. Louvo a aparente extravagância, que do
termo nada tem. É uma mistura do estilo com a vontade. E, contra a última, nada
há a fazer. Num xadrez preto e branco, imitando o tapete de um jogo. Sobre,
imagine-se, uma camisa na cor do vinho. Em simbiose exacta com a gargalhada
característica. Não se engane o povo, o risco é falecer. Tudo o resto, mais
cedo ou mais tarde, há-de chegar e, se não for moda, ficar. Um aperto de mão e
já garantimos a manhã.
16.5.16
O putativo lesado e a sua barba rija.
Vem
de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem
preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem,
numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu
relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade.
A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou
do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da
navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta
revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede
o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o
que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à
mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre
gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto.
Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a
favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já
não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa
do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que
ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a
necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua.
Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No
fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o
intelecto, abusar dos hashtags. Isso
e do português correcto.
18.4.16
Em diferido. #48
Foi
num punhado de ruas que tive esta sorte - Na rua,
singular ou na pluralidade da existência - afastando quaisquer clichés, ainda
assim, deixando-lhes, em jeito de convite, a porta entreaberta - há frases
feitas pelas paredes vazias. Esburacadas, ocas, como já versava a canção.
Aproveita-se a fachada, assim meio desligada da convivência mundana, e
espetam-lhes frases. Algumas, alegram-lhes as vistas. Vestem-nas de imagens e
palavras que se tornam, em levando a atenção à disposição, em tremendas
equações. Mesmo que a matemática te escape, mesmo que a tenhas esgotado num
atrasado e distante ano lectivo. Na rua, ou nessas múltiplas e diversificadas
ruas, vou tendo sorte. Desde a janela escancarada, num primeiro piso antigo,
que deixa as cortinas fugirem com o vento, para espreitar quem passa por baixo,
donde saía, para além do tecido amancebado com a brisa, música boa. Alguns,
sacanas preguiçosos, haviam de apelidá-la de ecléctica. Um bom jazz e logo depois Janis Joplin meio
arranhada. Teve essa rua, pelo menos, naqueles minutos, vida nova. Sequer
imagino se, porventura, é um hábito daquela janela. Mas que soava bem, isso não
desminto. Passando por uma outra, onde desprovida de complexos, uma velha
senhora descia de uma carrinha, e dançava para os companheiros de viagem. Lá
dentro, todos sorriam, aplaudiam e acenavam felizes. Cá fora, no asfalto, os
cabelos brancos, o corpo franzino davam liberdade. Saltava, imitava uma espécie
de dança e ria. Elevando os braços. Uma reveria inqualificável à liberdade, à
vida. Ri-me com ela. Por acreditar na sinceridade. Inacreditavelmente ou talvez
não, fiquei feliz enquanto os via. Continuei e nunca mais esqueci a baixinha
senhora que escolheu viver a vida, sob pena de perder pedaço. Até uma outra
rua, onde, sem que o conhecesse, um jovem senhor acomodou-se ao meu passo e
acompanhou-me rua abaixo. Desnivelado e desenrascado. Pensei. As palavras
trôpegas e dispersas, a conexão inexistente. Vai esperar a namorada que está
para chegar. Comprar uma casa e morar para sempre naquele amor. Anunciou-me que
em tal superfície comercial os computadores portáteis estão a bom preço e numa
outra os telemóveis preferidos são os mais vendidos. Trazia, debaixo do braço,
papéis de publicidade que comprovavam. Bom casamento, amigo. Para ti também,
que deve dar trabalho viver e pensar. Ri-me com ele. É verdade. Cansa, por
demais. Loucos somos todos. E só merece o título se o fizermos sem prejuízo
para a mente. Um viva!
14.4.16
Breviário sobre o espaço e o tempo.
Assomou-se
à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não
abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa
madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o
olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado,
avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O
tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram
entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os
lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro
e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos
do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas
numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar.
Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou
visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara,
mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da
passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos
passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor
com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de
grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da
minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas
impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas
de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o
chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda
me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na
mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre
frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio.
Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos
nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.
Subscrever:
Mensagens (Atom)