Os
estendais fascinam e chamam por todos e cada um. Lamento, mas cedo na
generalização. As peças pouco importam, no meu conceito, porque é a janela em
jeito de festividade de longa data que interessa e compõe as vistas. De adornos
vários, com as peças a bebericarem por quem vai passando. O particular suporta
o todo. Andei por aqui e além com a minha máquina fotográfica mais recente.
Brinquei, passeei e guardei alguns resultados que não envergonham. Só para
atalho do compromisso com a experiência. Não perdoo, no entanto, a difusão do
geral, a vulgarização de temas e acções relevantes. A displicência conforme o
alvo, também me incomoda. A banalização dos actos que são, em favor da
democracia, pessoais e intransmissíveis – para aludir aos termos desusados –
confunde. Quem os pratica, desajustados da realidade, factualidade e putativa
nocividade, e quem os assiste. Os últimos, em não compreendendo, são grande
parte do grupo dos inopinados lesados. E leva-se assim, numas mãos trémulas,
pouco inclusivas e nada promotoras do progresso, o mundo. Os tais, que aventam
sair do mesmo lugar, sofrem no imediato da escolha, antes mesmo da saída
efectiva. Agudizam-se os comportamentos xenófobos, tão nefastos, perniciosos e,
não se iludam, humilhantes para a nação, pátria de quem os pratica. Os
discursos atirados para o ar, numa tentativa de que alguém, que não o vento, os
apanhe e limpe. Há resultados, por seu turno, que jamais serão impecáveis. Por
quaisquer tentativas que se sucedam, são maus resultados e que envergonham.
Tanto mais, pela dimensão que têm e pela exposição da fragilidade de quem
proclama firmeza e intelecto. Morre o compromisso, esquece-se a experiência.
Enquanto isso, numa das ruas por onde andei, há estendais sem fim, gente que
fala outra línguas, animais simpáticos e senhoras de idade avançada a
cantarolar. O mundo não gira por acaso. Quem acredita é mais sabedor. Lastimo,
mas cedo, uma vez mais, na generalização.
30.6.16
27.6.16
Em diferido. #50
Início de citação - Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor.
Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e
meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á
brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é
o tipo que já calçou VANS, como se o
mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem
desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como
noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda,
há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados
atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de
cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos
nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque,
primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que
está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum,
sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão
bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.
22.6.16
Lugarejo com raça e no coração o ensejo.
Os
lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso
de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário.
Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é
pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas
mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz
a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores,
soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a
única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de
encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente
em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu
axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da
bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir
as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das
antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma,
vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo
e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas
rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e
carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os
carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece
reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira,
tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço,
apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente
lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e
esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e
pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem
traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma
literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão
encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes,
como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente,
tampouco o passado.
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
8.6.16
Inelutáveis circunstâncias.
Oiço,
de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo?
É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que
vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou
um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado
pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música
segue os tempos de cada um pejado de guilty
pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais
erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música
avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso
maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão
do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande
pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste
alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na
procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que
sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete,
claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais
adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita,
conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música
clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que
quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o
que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o
conhecimento guardar.
6.6.16
Vai indo, como a chama quer.
A
vida roda, os pombos não perdoam. A cidade está num filme de publicidade. Mais
à frente, no jardim de nome bonito, passou um cão pela trela, soltava uns
latidos baixos e avançava nuns pequenos saltos. Era branco e castanho, a fita
encarnada e as orelhas pregadas ao alto, assumindo um modo de viver muito
próprio. Quem o levava, sorria e dizia bom dia. Debaixo do braço, o jornal
matinal. Aqui, na esplanada de primavera, enquanto o café espera, é dona da
mesa o jornal do dia e a leitura em continuada actualização é a única razão da
pausa e do intelecto a questionar a acção. O jornal tem cheiro e mancha as
mãos. Tem no negro a palavra escrita, noutro tom as chamadas de atenção, um ou
outro pormenor. A notícia contou-me alguém, não é morrer na teoria. O quê,
onde, quando. É, sempre que esteja alinhada a razão, a subjectividade porque
não és objecto. A trincada verdade de mãos entrelaçadas com as palavras exactas
e sem excessos. Enfim, o jornalismo é um crédito que, entre ameaças tentadoras
e reflectidas, vai sobrevivendo. O descrédito não assaltou ninguém por acaso,
de rompe sem quaisquer justificações. As pessoas, as entidades, as empresas.
Todas, num rol de dúvidas perpetradas pelo punho de uns tantos. A nação e a sua
soberania ameaçadas em plena claridade. As vozes que se atropelam e a descarga
de culpa que parece infringir a inteligência do povo. Esqueçamos, por ora, a
vergonha. E lembro-me do jornal diário, sempre em casa. E de como um fato
escuro, uma gravata no mesmo tom e uns sapatos limpos combinam com umas meias
pintalgadas, qual dislexia efervescente da cor e um discurso de esquerda.
Assumidamente defensor da ideologia e, sem despromoção para o que acredita,
veementemente simpatizante da vida como ela é. Não confundir ideologia com
religião. Não esquecer que a última pode tomar definições díspares, conforme a
cabeça que a entende. E, no fim, o que conta é a informação. Tenhamos as mãos
tingidas ou não.
2.6.16
Numa espécie de corrida a favor da psique.
Faz
tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o
corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à
vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos
ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam,
foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que
alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes
disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem
experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma
especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias
pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das
juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece
desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas
e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade
no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que
aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos
acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo
menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a
ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se,
tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições
profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou
como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de
alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma
excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a
desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter
razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida
real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo
encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for
verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem,
ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a
fantasia do para sempre.
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