O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
7.7.16
5.7.16
A um passo dos ditosos.
Estive
há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um
amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a
experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo
dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas
o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura,
acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso,
perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral.
Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no
braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me
perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não
perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não
desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda
mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco
do arrependimento, quase injusto. No Instagram
uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior
que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem
que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas
de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem
entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É
uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou
pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra
foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.
4.7.16
Imaginação com fundamento.
A
hora do almoço chega e somos marionetas do tempo. A manhã levanta e somos
dependentes do frenesim do mesmo. A tarde já vai longa e somos abalroados pelos
maneirismos da série ininterrupta de segundos. Não ousamos sequer pensar o
contrário. As excepções fascinam-me, acreditem. Toma chá, não sei se
imperiosamente às cinco horas da tarde, mas lembra-me os donos da quezília do
momento – os que se deixam toldar pela ideia, tão ultrapassada, da idílica
sobranceria de guardar no espaço de terra rodeado por água, a obsoleta e
falível verdade; contribuiu para isso, como se sabe, a idade avançada e as
fábulas dos votantes - Esta jovem toma chá, traz o português limpo e escorreito
na ponta da língua, tem pequenas sardas desordenadamente espalhadas pelo rosto.
O cabelo claro combina com isso. E não me recordo, como é apanágio, se alguma
vez trocámos impressões sobre o tempo. É portuguesa e o físico quase que a
desmente. Voltamos ao chá, toma-o a que hora lhe aprouver, e traz o sorriso no
rosto, os saltos altos escondidos numa mala, os rasos nos pés e a revista na
mão. Lê a GQ e a VOGUE internacionais, escreve prosa bonita e poesia atrevida. Foi a
menina da praia e do surf, das ondas repentinas e rebeldes. Cruza as pernas e
tem tempo para pensar. Defende a confiança, a entrega e a competência. Maldiz a
rotina, o comodismo, a lista de tarefas e a ficção entre pares. Atrevo-me a
apelidá-la de mulher de sucesso, mas mais importante, mulher de sucessos. Como
não raras vezes lhe atirei. Bem sei, não é sistema para todos, tampouco, para
qualquer um. É, também não desminto, uma privilegiada, com uma bagagem que a permite
ser como e quem é, sem prejuízos de maior. Mas é feliz e é a sombra reluzente
de que há mais para lá da escravidão do tempo. Um livro ao adormecer, ganas ao
levantar, chá ao entardecer e o sonho a insistir, faz por ti. Uma grande parte
e sem espinhas.
30.6.16
Confundir a espécie que prescinde.
Os
estendais fascinam e chamam por todos e cada um. Lamento, mas cedo na
generalização. As peças pouco importam, no meu conceito, porque é a janela em
jeito de festividade de longa data que interessa e compõe as vistas. De adornos
vários, com as peças a bebericarem por quem vai passando. O particular suporta
o todo. Andei por aqui e além com a minha máquina fotográfica mais recente.
Brinquei, passeei e guardei alguns resultados que não envergonham. Só para
atalho do compromisso com a experiência. Não perdoo, no entanto, a difusão do
geral, a vulgarização de temas e acções relevantes. A displicência conforme o
alvo, também me incomoda. A banalização dos actos que são, em favor da
democracia, pessoais e intransmissíveis – para aludir aos termos desusados –
confunde. Quem os pratica, desajustados da realidade, factualidade e putativa
nocividade, e quem os assiste. Os últimos, em não compreendendo, são grande
parte do grupo dos inopinados lesados. E leva-se assim, numas mãos trémulas,
pouco inclusivas e nada promotoras do progresso, o mundo. Os tais, que aventam
sair do mesmo lugar, sofrem no imediato da escolha, antes mesmo da saída
efectiva. Agudizam-se os comportamentos xenófobos, tão nefastos, perniciosos e,
não se iludam, humilhantes para a nação, pátria de quem os pratica. Os
discursos atirados para o ar, numa tentativa de que alguém, que não o vento, os
apanhe e limpe. Há resultados, por seu turno, que jamais serão impecáveis. Por
quaisquer tentativas que se sucedam, são maus resultados e que envergonham.
Tanto mais, pela dimensão que têm e pela exposição da fragilidade de quem
proclama firmeza e intelecto. Morre o compromisso, esquece-se a experiência.
Enquanto isso, numa das ruas por onde andei, há estendais sem fim, gente que
fala outra línguas, animais simpáticos e senhoras de idade avançada a
cantarolar. O mundo não gira por acaso. Quem acredita é mais sabedor. Lastimo,
mas cedo, uma vez mais, na generalização.
27.6.16
Em diferido. #50
Início de citação - Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor.
Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e
meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á
brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é
o tipo que já calçou VANS, como se o
mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem
desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como
noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda,
há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados
atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de
cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos
nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque,
primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que
está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum,
sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão
bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.
22.6.16
Lugarejo com raça e no coração o ensejo.
Os
lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso
de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário.
Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é
pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas
mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz
a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores,
soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a
única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de
encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente
em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu
axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da
bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir
as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das
antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma,
vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo
e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas
rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e
carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os
carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece
reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira,
tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço,
apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente
lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e
esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e
pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem
traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma
literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão
encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes,
como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente,
tampouco o passado.
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
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