Vim
pela rua, sob um frio nada vulgar, sobre a calçada nacional, com a vontade de
contar mentalmente os pontos de luzes a enfeitar, a cabeça a magicar. Larguei
os sapatos bonitos e os ténis divertidos. Trouxe as botas felizes. Um lenço
farto ao pescoço, o casaco capaz a cobrir o corpo. Vim pela rua secundária, com
as luzinhas a desenhar a época. Hei-de desaguar no largo, logo adiante, cuja
árvore central brilha e agiganta-se. Rodeada, claro, por petizes animados, pais
atentos, amigos em poses peculiares e outros a passar, cúmplices da feitura do
quadro. Sem apressar o passo, cheguei antes da hora marcada. Feitio que, com
gáudio, teimo em não desperdiçar. Recebido com toda a pompa, sem que assim
exigisse a circunstância, respondi com um sorriso comedido. Surge, de entre as
cabeças aglomeradas, aquele que nos junta por ora, e de cara leve, dirige-se a
mim e lança-se num cumprimento efusivo. Fui recebido assim. Depois pela senhora
que enverga um cargo sonante. Depois por este, a seguir por aquele, ainda outro
e outros tantos. A todos e sem excepção, agradeci a amabilidade e as honrosas
palavras. A sala começa a compôr-se, o burburinho não perdoa, os candeeiros
empinocados dão outra dimensão a tudo. E a todos. Num olhar furtivo, encontro
um rosto verdadeiramente cúmplice. A distância que a sala impõe, as conversas
de situação e a comedida emoção, vetaram uma precipitada reacção. Mais adiante,
quando a noite corria longa e prometia roubar largar horas, trocámos um beijo
no rosto com demora. Cedemos no sorriso que denuncia. Dezembro, esta altura do
ano, é um bom acaso para o descaso de, por fim, nos voltarmos a cruzar. À
janela, antevendo a prosa adiada, ficámos sem pressa. Neste embrulho sereno.
Voltei pela rua, contido no mesmo frio pojante, sobre as mesmas pedras da
calçada e, desta feita, com toda a vontade de mentalmente recordar e garantir
que a razão sobrepõe-se a tanto. Até que chegamos a Dezembro, cedemos no
cumprimento e emburulhamo-nos em luzes. Em tantas, quantas a necessidade.
19.12.16
15.9.16
Em diferido. #53
A
calçada contada - Chegada a vacância que do verão
conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas
ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e
catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a
tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do
estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver
passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos
que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que
lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade,
vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva
acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado,
entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai
cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns,
saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua
fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola,
deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já
não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de
hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso
do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela.
Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge
da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a
intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes,
os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e
que se abastece-se na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos
de a ele voltar.
5.9.16
Em tempo de calor.
A
noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente,
disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de
design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns
recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a
cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A
noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo
contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os
medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é
divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca
na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado
resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já
havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam
ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros
incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para
não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o
sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.
22.8.16
Poesia dita e um pacote de leite.
Prendeu-o,
há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e
cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão
cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo
e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso,
dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece
literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece
literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão
que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento,
sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem
mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o
suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a
resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas
cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem
ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta
recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na
silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando
donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas
composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e
internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se
lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma
na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem
senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer
coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante
ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar
no Facebook. Pediu-lhe um contacto.
Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e,
segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos.
Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de
poesia e leite de arroz.
11.8.16
Em diferido. #52
Fumo cheio de vícios - Sem tino, marcam as vidas alheias. Destroem
a terra de todos. Consomem as almas em desespero. Corroem o verde e a paisagem.
Ameaçam as casas vizinhas. Ruins, agem sem pingo de piedade ou respeito. São
ausentes de humanidade, homens piores. São miseravelmente piores. Espalham o
terror nos corpos em luta. Instigam a destruição. Pior, convidam a morte. Gente
que faz pior que os azares da natureza. Que os potencia. Este ano não é
excepção. A maioria dos incêndios que, até agora, vêm deflagrando no nosso país
é, em repetição, obra de despeitados. De gente louca. De gente inqualificável,
de tão má. Os incêndios, este ano, voltaram a matar. Entre todos, o fogo é a
extensão de alguém. Tão ladrão é quem rouba, como quem fica a ver. Uma vez
mais, reforça a miséria e a tristeza. E recuso entender. Recuso, veementemente,
ver para além dos estragos. Para além da fatalidade. Apenas, porque não são
homens, não são pessoas. São reles miseráveis.
8.8.16
Entre o auge da tarde e o final da mesma.
O
ambiente é de férias. Um paraíso tão próximo. As palmeiras quase que cedem à
calma, nada balançam, têm o tom viçoso, envolvem o espaço, compõem a vista e
deixam imaginar o resto. Vêem-se as ondas claras lá ao fundo, a espuma a tecer
borbulhas. As espreguiçadeiras cheias, as cores do verão salpicadas pelo areal.
Aqui, sentados num lugar bonito, numa mesa privilegiada, ladeados pela piscina,
envolvidos pelo frenesim de quem trabalha contrastando com o sossego de quem
descansa. As mesas, tal como a piscina, estão lotadas. Na água, entre mergulhos
desgovernados, salpicos desorientados, saltos invertidos, braçadas e
braçadeiras, óculos de mergulhador e bóias de diversão, risadas fáceis e
chamadas de atenção, estão novos e velhos. Em ameno convívio veranil. Ouvem-se
línguas diferentes, sotaques também. Não falham os fatos de banho, os biquínis,
os calções e, claro, os óculos de sol. Alguns arriscam numa indumentária mais
formal, impecáveis ao fim da tarde. Servem-nos uma bebida fresca e bastante
agradável, outros entreténs a seguir. Falámos tanto, mas não esgotámos prosa.
Ao lado, uma senhora de honrosa idade joga as mãos à cabeça loira sempre que o
neto escapa dos braços do avô e joga-se sem medida para a água. Depois, duas
jovens partilham outra mesa, não se olham, não trocam uma palavra e fumam umas
cigarrilhas e, parece, passam assim a tarde, entre uma aspiração e outra. Chega
ao recinto um senhor cuja espécie de tanga reduzida parece trazer a via láctea
em exposição, a camisa aberta e solta, chama a atenção. Segue caminho, airoso e
divertido. De gente comum também se enche a zona. Em tempo algum são esquecidas
as fotografias para o Facebook e Instagram. Os vídeos animados para o Snapchat, a anunciar que são felizes no
verão. Fomos embora, dali a nada aconteceria um jantar demorado, com gente que
nos importa. Não sem antes me gabarem a camisa. Não faço questão, mas não digo
que não.
2.8.16
Ataviar o verão com a bonita canção.
Solta
uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras.
Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É
impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as
vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do
entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor.
Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o
microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão
acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho,
música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os
primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira
se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto
de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar
todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar
algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente
ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser
um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.
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