20.2.17

Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.

Já lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar. As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês, talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar. Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado. Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra, por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora, as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira da escola. Uma vida cheia. Não duvides.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

15.2.17

Perorar em favor do bom senso.

Não detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas no que avento serem exercícios de Yoga. Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios, elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe. Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera, alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz. Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito, garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso, sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.  

14.2.17

Narração histórica.

As letras garrafais de um jornal renomado a lembrar a necessidade de conjugar o amor e o sexo. Esqueceram outros condimentos e deixaram erros ortográficos bem latentes. Ler um romance. Ler sobre o romance alheio. Parece brincadeira de criança, lembrar que ler é jogar com as palavras e as ocasiões. Aludir às memórias mais recônditas e ao presente desnutrido. Como se do outro lado tudo funcionasse sobre um caminho de felicidade eterna. Ainda se escrevem romances e, quer-me parecer, continuam a ter saída. Mesmo que o resumo seja a tragédia. Encontrar noutros, mesmo que fictícios, o amor ou o desamor que já nos acompanha ou que nos deixou, é facilitar a concretização que a necessidade de sentir aguça. Imaginar o outro é menos pedante do que viver o eu. Tiro um café, deixo ficar. Sem mácula, à espera que arrefeça. Dispenso o açúcar, prefiro temperar com a demora. Ligam-me de uma empresa, com voz exagerada, a dar-me os bons dias, a pedir que lhes dispense minutos e responda a um questionário breve. À minha frente, alguém sorri e pisca-me o olho. Pedi que fosse célere, perdi na aposta. De volta, devolvi o sorriso. À minha frente, já de jornal entre as mãos, dizem-me que o amor finge ser tão frágil de abordar que o preferem ao sexo. Desenganem-se as almas iludidas. O amor pesa e não é para menos. Apostam nele por sugerir dispensar tantas armas. Perde o sexo, que não entra na corrida. Tenho dificuldades em aceitar as generalizações, as opiniões superficiais. Há que oferecer tempo ao tempo. Não sei quem ganha, mas fica sempre o sexo como o perdedor precoce. Por fim, entre a prosa matinal susceptível de dissensão, tomo o café temperado.

13.2.17

Ventilar numa segunda-feira qualquer.

Aventar impugnar sobre política é insano. Tão utópico, quanto estimulante. Por força desta incoerência, um destino que não guarda facilidade no trato e na reacção. Mesmo que reduzas o debate à tua sala de estar, ao café de sempre ou ao restaurante que te faz voltar. Ainda que o teu interlocutor seja alguém com quem privas amiúde, a quem ofereces tempo sem peso, por quem nutres fortes e inesgotáveis sentimentos. Noutra escala, muda o terreno, a bancada de espectadores e, se não te perderes, a cabal convicção das palavras. À frente, outros fazedores de opinião - de quem desconheces a rotina, a herança dos afectos, as escolhas que fazem fora deste ambiente - capazes de zelar pelo que acreditam com todas as armas. Se, ao invés de um deles, estiveres na assistência, vais conhecendo vocabulário que se repete, discussões antigas, confrontos que não acrescentam e, lamentavelmente, não poucas vezes, o afastamento do essencial, da troca que importa. Aventar impugnar sobre política é ímprobo, mas tão fundamental. Num mundo vestido às avessas, destemido na discrepância de valores, fraco na condução das potências e desigual como jamais quisemos. Isto lembra-me alguém. Uma mulher tão politizada quanto humana, que não se coíbe de apelidar a política, generalizando, obviamente, como reduto de uma sociedade derribada. Levanto questões, mas não deixo de ter um prazer imenso em ouvi-la. Vê-la de pernas justapostas, mãos incapazes de sossegar e de discurso bonito na ponta da língua. Assim parece fácil. Assim sou capaz de acreditar.

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

8.2.17

Em diferido. #54

O ano segue - É como se o novo ano tivesse perdido intenção, força no contexto. Desliguei o carro, apaguei, mentalmente, qualquer coisa e saí. O novo ano já arrancou. Guardo ânsias. De ver renascer, na luta crescer. De pensar e conseguir ganhar tempo para ler. Penso no velho do jornal. Tirei-lhe a vista de cima. Não consigo encarrilhar e, por isso, não consigo adiantar a última vez que com ele me cruzei. Factos na mente, dia no esquecimento. Lia as gordas, pensava as mais miúdas. Falava sobre ambas, perguntava-me e esperava a minha opinião. Escutava-o com primorosa atenção. Íamos até à saudável discussão. Bebíamos um café. Ele temperava-o com a água amena. Devolvo o pensamento, volto ao carro. Carrego a máquina fotográfica. Sem utilizar o raciocínio, avanço pela rua. Passo pelo restaurante de boa fama, ar requintado, talheres elegantes, pratos de qualidade e guardanapos de fino pano. Noutra altura, antes do novo ano, dos outros dois também, rimos ali. Entre uma garfada e um vinho escolhido aleatoriamente. Contudo, foi no desassossego doutro lugar, que demos gargalhadas infinitas, tivemos certezas definidas. Enquanto avanço pela rua, neste jogo, toca o telemóvel. A D., eterna amizade, lembra-me por escrito, a ausência e a saudade. Fala-me das escadas do metro, do abraço apertado. Das suas palavras, da nossa verdade. Da incansável vontade. Trocámos beijos quando pediam distância, partilhámos um copo quando chamavam pela desunião. Estivemos largas horas no bar do hotel, quando me inventavam outro destino. Chega um novo ano e, na verdade, tudo acontece como dantes. Só o “casamento do ano”, pelos protagonistas tão ansiado, já lá vai. Tanto alinhavámos, que lhes saiu a sorte grande. Abri as atrevidas comas, consciente da rasa alusão. De lá, o chapéu encarnado, imitando um fatigante pandã. As boas vindas a lembrar o diabo, fingindo risinhos em desformes normas de passerelle. A rua, neste hiato, quase a terminar, o ano a ganhar terreno. Apanho o ensejo certo, fotografei o amor perfeito. Ri-me com eles. Como naquela mesa de restaurante caro, bem mais na mesa singela de lugar com comida. Mais uns passos, chego ao destino. Com tempo, como faço por repetir. A verdade, que dispensa convida a inteligência, velozmente se torna numa metáfora. Lamento o tempo perdido, os livros por ler. Desconfio, no mesmo nível, das caras eternamente paralisadas no modo felizes para sempre. Ou dos corpos que envergam um trench-coat caro, uns sapatos de pele limpa e um relógio vistoso que agem como suínos a céu aberto. A linguagem torta assalta-me depois dos bons dias não serem devolvidos a uma farda que limpa o soalho. O mesmo que os ditos sapatos pisam. O olhar altivo volta-se e sorri para mim. Com o meu casaco de inverno, abstenho-me de qualquer resposta e sigo caminho. Este que escreve, não olha unilateralmente. Rica senhora que de esfregona e balde às costas, leva um prédio nas mãos. Soube, mais adiante, que Maria Rogélia, de seu nome, tem cinquenta e dois anos e uma família feliz. Não tem casacos com nomes inventados, tampouco, marcas exuberantes a cobrirem-lhe a pele. Ganhou o prémio maior, tem uma família de valor. Agradeci-lhe a breve troca de palavras e gabei-lhe a postura. Até qualquer dia, rematou a senhora. Ainda agora começou e, não nos enganemos, nada mudou. O mundo gira, a arrogância vive em apneia, o snobismo ainda ganha investimento e suplanta o conhecimento. A Maria é da limpeza e o Salvador investe na bolsa. Voltei ao carro. E, neste balanço, os quadros. Os meus quadros, com pesar, permanecem em convivência. Sobre o soalho e junto à parede abraçada pelo rodapé. Novo ano, nada mudou. E segue sem parar.