Venho,
por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem
justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como
se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe
guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de
acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe,
por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta
tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão
branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso
fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe.
Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se
quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela
serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora.
Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu
corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia
depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da
ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia
ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique
desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me
pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.
23.2.17
22.2.17
Em diferido. #55
Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e
o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos
pormenores. Nos pés levo New Balance,
numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de
assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de
restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração
pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os
copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura,
nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em
tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas.
Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não
termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a
lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca
da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com
teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais.
Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo
atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar
presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido
como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um
valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar.
Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a
lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder
é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica
tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma
companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame
de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos
amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom
par de ténis.
21.2.17
Estro que me enche o peito.
Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
20.2.17
Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.
Já
lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos
num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar.
As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a
chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo
ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado
quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês,
talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar.
Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado.
Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria
possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o
desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de
banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos
a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em
muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra,
por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e
de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora,
as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da
idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda
assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente
relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão
conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a
efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para
manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem
receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos
apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não
mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira
da escola. Uma vida cheia. Não duvides.
16.2.17
É sempre benfazejo.
Vem
aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue
pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas
e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges
para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o
rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe
frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem
altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os
lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é
mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça,
sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem
jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece,
também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o
primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as
mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto,
curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo
vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente
sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo
solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de
partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado,
peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente.
Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de
falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de
formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual
jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a
observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.
15.2.17
Perorar em favor do bom senso.
Não
detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a
inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se
fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de
ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha
vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à
convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca
mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela
saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e
não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção
do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes
a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da
rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas
no que avento serem exercícios de Yoga.
Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e
lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios,
elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe.
Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns
segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera,
alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz.
Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem
prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito,
garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que
me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se
preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela
necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não
queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha
garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso,
sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar
rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.
14.2.17
Narração histórica.
As
letras garrafais de um jornal renomado a lembrar a necessidade de conjugar o
amor e o sexo. Esqueceram outros condimentos e deixaram erros ortográficos bem
latentes. Ler um romance. Ler sobre o romance alheio. Parece brincadeira de criança,
lembrar que ler é jogar com as palavras e as ocasiões. Aludir às memórias mais recônditas
e ao presente desnutrido. Como se do outro lado tudo funcionasse sobre um
caminho de felicidade eterna. Ainda se escrevem romances e, quer-me parecer,
continuam a ter saída. Mesmo que o resumo seja a tragédia. Encontrar noutros,
mesmo que fictícios, o amor ou o desamor que já nos acompanha ou que nos
deixou, é facilitar a concretização que a necessidade de sentir aguça. Imaginar
o outro é menos pedante do que viver o eu. Tiro um café, deixo ficar. Sem
mácula, à espera que arrefeça. Dispenso o açúcar, prefiro temperar com a
demora. Ligam-me de uma empresa, com voz exagerada, a dar-me os bons dias, a
pedir que lhes dispense minutos e responda a um questionário breve. À minha
frente, alguém sorri e pisca-me o olho. Pedi que fosse célere, perdi na aposta.
De volta, devolvi o sorriso. À minha frente, já de jornal entre as mãos,
dizem-me que o amor finge ser tão frágil de abordar que o preferem ao sexo.
Desenganem-se as almas iludidas. O amor pesa e não é para menos. Apostam nele
por sugerir dispensar tantas armas. Perde o sexo, que não entra na corrida.
Tenho dificuldades em aceitar as generalizações, as opiniões superficiais. Há
que oferecer tempo ao tempo. Não sei quem ganha, mas fica sempre o sexo como o
perdedor precoce. Por fim, entre a prosa matinal susceptível de dissensão, tomo
o café temperado.
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