27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

23.2.17

Flor brava e fervorosa.

Venho, por estes dias, lembrando a velha Rosa. A tia, tão saudosa. Não tem justificação. Algo ou alguém serviu de mote, mas não encontro um só norte. Como se a morte, a ausência e a saudade precisassem de regulamento. A minha mãe guarda lembranças gratas e sem fim desta mulher. É infindável a necessidade de acolher que a minha mãe suporta, tratando-se de um familiar ou não. Agarrei-lhe, por isso, o gosto pelo outro, a dedicação mesmo à distância. Tomei as memórias desta tia e fi-las minhas. Lembro sempre a tia Rosa. Bonacheirona, o cabelo tão branco, o rosto sedoso, sem medo das palavras, a silhueta dilatada, de riso fácil e audível – nesta característica é impossível não encontrar a minha mãe. Pensar nesta mulher é aludir à natureza, ao campo largo, à vista que não se quer tacanha, ao amor à vida e à verdade dos dias. Imagino-a, catraia, pela serra descalça, entre o verde típico, o castanho vivo e os realces da flora. Dizem-me que fora sempre desordenada, firme, de espírito livre e dona do seu corpo. Com facilidade, dizem-me que fora sempre um bicho fora de época. Vivia depois do tempo, para lá do que os olhos dos outros ainda não viam e da ignorância que não dormia. Não tenho pena desta mulher. Rosa, antes de ser tia ou mãe, foi vida. Real e sentida. Mulher convicta, desde o pé descalço à psique desenvolvida. Recordar a nossa gente é fortalecer. Não lhe deixo pena, fico-me pela saudade, que essa, tal como ela, é eterna.

22.2.17

Em diferido. #55

Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.

21.2.17

Estro que me enche o peito.

Ainda petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia, um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar. Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada. Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração decente.

20.2.17

Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.

Já lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar. As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês, talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar. Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado. Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra, por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora, as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira da escola. Uma vida cheia. Não duvides.

16.2.17

É sempre benfazejo.

Vem aturdido, os nervos em franja, a fazerem das suas. A cara marcada pelo sangue pujante, o coração a bater sem suporte. Vem cheio de dúvidas, tremem as pernas e o joelho parece um balancé. A ansiedade come parte do entendimento. Foges para fora de pé, sem que tenhas sentido. Vem cabisbaixa, nervosa comedida, o rosto pesado. As mãos entrelaçadas, a coluna um tanto dobrada. O receio colhe frutos com maior facilidade. Perdes-te nele sem que te permitas raciocinar. Vem altiva, mostra segurança, os olhos vivos. Os saltos altos não vacilam, os lábios encarnados reforçam a ideia de segurança. Corrigir atitudes não é mentir. É valorizar a capacidade de gestão. A ligação entre o corpo e a cabeça, sem que nenhum te denuncie. Juntam-se, todos três, numa sala de espera que tem jeitos de corredor. A luz irrompe pelos vidros largos. À frente acontece, também à descoberta do olhar, o que os trouxe até aqui. Lá dentro, já está o primeiro da lista. Sentados, desesperam no compasso do tempo. Ele coloca as mãos trémulas sob as pernas que balançam. Ela finge estar ocupada, enquanto, curva, olha para o vazio do ecrã do telemóvel. O dedo sobe e desce e fá-lo vezes sem conta. Ainda neste arco humano, com os pés impreterivelmente sossegados no mesmo lugar. A última a chegar, de perna cruzada, mexe no cabelo solto, toma pequenos goles de água e sorri para quem passa e não se esquece de partilhar os bons dias. Foram, à vez, sendo chamados. Saíram de rosto rosado, peso na respiração, mas o corpo mais bambo. Quão desigual é o corpo e a mente. Perante o desconhecido, o medo irracional, a vontade de vencer e o desespero de falhar, mudam-te imediatamente. E respondes, como não poderia deixar de ser, de formas tão díspares. A bagagem funcional do que vens vivendo tolda-te de igual jeito. Entender o outro fica mais fácil quando dás tréguas à pressa e ficas a observar. Tanto melhor, a ouvir e a falar.

15.2.17

Perorar em favor do bom senso.

Não detesto dar razão ao outro. Senão quando não tem. Mudar de hábitos é a inteligência a exercer a sua função, de ti para ti, é o atrevimento de ser-se fiel a ganhar terreno. Quando assim é, promovo a cumplicidade. A troca de ideias, a conversa sem desgosto, a mente a desprender-se. Não é recente a minha vontade de mudar hábitos. Venho guardando, passo a passo, até que chegue à convergência da razão com a realização. Não aconteceu ontem a minha franca mudança no que respeita à alimentação. Fujo dos fundamentalismos, opto pela saúde e pela verdade dos meus dias. Cedo em todas as ocasiões que justificam e não perdi. Só fortaleci. Pensava nisto, enquanto subia a rua íngreme, na direcção do lugar combinado. À direita, um prédio antigo, mas renovado. Janelas enormes a rodear um dos andares. Cá em baixo, imagino gente a maldizer a imponência da rua, a desistir de lá voltar. Engano-me, acho. Da rua, vislumbro várias pessoas no que avento serem exercícios de Yoga. Isolada, uma mulher de cabelos esbranquiçados, soletrava – e ler, separada e lentamente, parece-me ser a aproximação escrita do que vi - movimentos exímios, elegantes e harmoniosos. Dava o mote, certeira, e os restantes seguiam-lhe. Também numa espécie de arte de ordenar os movimentos. Dediquei-lhes uns segundos, por ver neles, sabedoria. Continuei o meu caminho. À minha espera, alguém de sempre. Gabei o espaço escolhido, a rua buliçosa e o olhar feliz. Como sempre, de resto. Tomamos a refeição, bebemos a melhor companhia e, sem prever, falou-me da sua mais recente paixão: a meditação. Vem sortindo efeito, garante-me. Não duvido. Que já experimentei e, segundo relatos recentes dos que me rodeiam – e não são insuficientes - a contemplação mental ou, se preferirmos, o acto de meditar, está a ganhar terreno. Em muito, pela necessidade de centrar, sossegar e resguardar alguma da sanidade de que não queremos nem podemos desistir. A propósito, também uma senhora grisalha garantiu-me um dia, que as coincidências são quebradiças e, por isso, sujeitam-nos a delinquir. Não detesto dar razão ao outro, mas prefiro ligar rostos a acontecimentos. Senão quando não os encontro.