Na
rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta
transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a
latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma
mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O
seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe
desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem
norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos
novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e
para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de
vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas
imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem
o resto. Os tuk-tuk parecem flechas
por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do
telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se
bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à
porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado
e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a
solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma
série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos.
Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles,
desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar.
Atentas ou simplesmente esquecidas.
13.3.17
9.3.17
Medição feita por um instrumento.
Viro
à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me
compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não
descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me,
há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma
escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais
informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho
no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso
se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um
comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No
trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que
dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes
há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original
vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e
alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e
despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos
todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos
conforme o ambiente. Agora um jazz
atencioso, a seguir um rock pesado.
Um fado arranhado, noutra altura um pop
raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda,
sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha
espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa
excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar.
É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me
se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às
prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu.
Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.
8.3.17
Em diferido. #56
Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num
poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do
postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira
que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar,
sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou
ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo,
sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas,
a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa
e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa,
que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os
velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa
improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira
acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de
uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não
perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A
matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir.
Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um
senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à
espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem
eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As
calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres
sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso.
Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito
aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no
joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito
relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e
tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre
com a corda toda.
7.3.17
Lida aturada.
Saí
logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom
e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe
um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros
tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto,
mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante.
Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria
interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável.
Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o
sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto.
Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz
sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas
portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o
senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e
volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção,
pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das
pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos
após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para
que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos
dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me.
Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.
6.3.17
Compleição com carácter de asserção.
Sob
a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes
estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados
a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um
cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira
desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue
fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos,
então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a
primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o
máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos,
característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos
sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com
a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em
cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das
pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como,
conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a
intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que
falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao
carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que
fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder,
mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas
comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.
2.3.17
Entusiasmo matutino.
O
dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai
sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar
insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto
sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira
feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não
havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que
não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já
de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que
recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um
atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso.
Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com
ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me
nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as
ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece
desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da
partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como
fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço
qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.
1.3.17
Ser humano do sexo feminino.
Chega
no BMW, com o cabelo arranjado, de
longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a
estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento
exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso
largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar.
Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto
generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a
marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós,
sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações
num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona
do BMW. Os olhares alheios têm um só
destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se
pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns,
conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É
puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica,
profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor
dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O
corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos,
em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher,
bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são
genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia,
difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do
outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de
existir.
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