13.3.17

Procurar entreter-se.

Na rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem o resto. Os tuk-tuk parecem flechas por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos. Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles, desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar. Atentas ou simplesmente esquecidas.

9.3.17

Medição feita por um instrumento.

Viro à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me, há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos conforme o ambiente. Agora um jazz atencioso, a seguir um rock pesado. Um fado arranhado, noutra altura um pop raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda, sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar. É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu. Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.

8.3.17

Em diferido. #56

Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar, sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo, sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas, a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa, que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir. Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso. Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre com a corda toda.

7.3.17

Lida aturada.

Saí logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto, mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante. Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável. Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto. Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção, pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me. Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.

6.3.17

Compleição com carácter de asserção.

Sob a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos, então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos, característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como, conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder, mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.

2.3.17

Entusiasmo matutino.

O dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso. Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.

1.3.17

Ser humano do sexo feminino.

Chega no BMW, com o cabelo arranjado, de longe vê-se que é pintado. O sol ora espreita, ora faz gazeta. Demora a estacionar, o lugar de sempre, a teimosia também. A boca num movimento exacerbado denuncia a chamada. Acena com a mão esquerda, esboça um sorriso largo, provavelmente, num soluço da conversa. O volante gira e torna a girar. Por fim, o carro está no espaço que pretendia ocupar. Primeiro um pé num salto generoso, a seguir o outro. A sola vermelha é a assinatura. Traz o iPhone colado ao rosto, a mala com a marca visível e uns brincos extensos. O perfil alongado e chamativo. Nós, sentados na esplanada a que voltamos com frequência. Pensamentos e afirmações num reboliço. Tão somíticos no palavreado quanto possível. Chega, então, a dona do BMW. Os olhares alheios têm um só destino: a própria. Cumprimenta-nos, um a um, e faz-nos companhia. Desculpa-se pela demora, mas foi culpa da cliente e da nora. É amiga de longa data de uns, conhecida de outros. Amiga da putativa noiva, madrinha se o casório sair. É puro divertimento partilhar o espaço com ela. Animada como poucos, dinâmica, profundamente inteligente e isso reflecte-se, entre outros aspectos, no humor dilacerante. Leis é com ela, capaz de interpretar e fazer por resultar. O corriqueiro quotidiano não lhe escapa e adora fazer parte. Quando regressávamos, em jeito de balanço, lamentávamos os pré-conceitos. Desde logo por ser mulher, bonita, sofisticada. Depois, por ser a prova de que essas características são genuinamente capazes de viver em harmonia com uma vida profissional cheia, difícil e que a realiza. Certamente, há que temer um tanto deste mundo e do outro, nunca as mulheres que o são por inteiro. Sem travestir, sem medo de existir.