Surgem,
logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com
o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a
comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser
turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo
indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América
do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às
pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as
saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do
país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino
pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação.
Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da
ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas
irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade
causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste
tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade,
sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido
dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não
esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto
pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os
olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora.
Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas.
Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que
não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em
suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.
16.3.17
15.3.17
Uma canção feita de razão.
Vinha
de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz
e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que,
passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço
a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que
imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os
caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava,
firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos
dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo,
capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos,
é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia
adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o
respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que
temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é
preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer
socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno
de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo,
apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona
de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação
forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo
animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos
estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de
tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me,
desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a
melhor das viagens.
14.3.17
Fadário que levou sumiço.
Pareço
atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos,
a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo,
num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não
chova. Pouso o tablet e agarro no
relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem
sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia
dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os
que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa
estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos
e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas
expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e
garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada
ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo
certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara
professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão
improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já
tenho e é com ganas que guardo.
13.3.17
Procurar entreter-se.
Na
rua acontecem os mais inusitados acontecimentos. Uma guerreia canina, que afugenta
transeuntes como se a maior hecatombe viesse no seu encalço. Com direito a
latidos fortes, dentes afiados e desespero nos olhos, até ao sossego final. Uma
mulher apresenta-se desgovernada, vociferando como se o mundo tivesse mudado. O
seu, pelo menos. Carregada de sacos gastos, cheios de coisas. Chamam-lhe
desabrigada, tonta e incapaz. A mim, inculto social, chamar-lhe-ia mulher sem
norte, consequência de uma vida que terá perdido. Ambienta-se, por ora, aos
novos moldes. À nova realidade. Anda com a passada larga, olha para o céu e
para o chão, vezes que não somos capazes de contar. Até que a perdemos de
vista. Paz é o que me apraz desejar. A calçada portuguesa atraiçoa alguns, elas
imitam a certeza de que estão sobre uma corda tão bamba. As cores ímpares fazem
o resto. Os tuk-tuk parecem flechas
por entre as ruas exíguas. Uma jovem de vestido airoso dá voltinhas à frente do
telemóvel, arrisco que vai sair mais uma publicação no Instagram. A correria habitual é ponto certeiro. Vêem-se
bicicletas, poucas, mas é um sinal da evolução dos dias. Um carteiro grita à
porta de uma loja de comércio local e assoma-se uma senhora de cabelo arrumado
e elevado a instalação. Por cima, janelas velhas, quase trancadas. Imagino a
solidão fechada a sete chaves. Na entrada de um prédio alto, espaço de uma
série de negócios, estão homens com fatos engomados, mulheres de saltos altos.
Trocam ideias na pausa para fumar. Nisto, estou quase a chegar. Sou um deles,
desta sociedade cuja roda não cessa. As pessoas também ficam a ver-me passar.
Atentas ou simplesmente esquecidas.
9.3.17
Medição feita por um instrumento.
Viro
à esquerda por preferir andar do avesso. Hei-de deixar boquiabertos os que me
compõem como um tipo às direitas. Sê-lo-ei, numa base que me rege e que não
descuro, mas fujo, noutros pilares, do cinzentismo, das regras que sufocam. Disseram-me,
há atrasado, que sou um tipo com coluna vertebral – as metáforas são sempre uma
escolha viável – mas que visto uma pele altiva. Disseram-me, outros e mais
informados (não sou tendencioso, apenas factual), que sou um tipo bom – menos trabalho
no que respeita à procura do léxico, o que denuncia a proximidade – e que isso
se reflecte num role inesgotável de razões. Até que sou, em querendo, um
comediante em potência – uma hipérbole tamanha, fora de pé, como se quer. No
trajecto, uma canção feliz, que exige a alegria e o espírito em animação. Que
dispõe o corpo, que o transporta para um começo de dia que augura o melhor. Vozes
há, que mudam as letras. Músicas há que as enriquecem. Suplantam o original
vezes sem conta. É o caso. Aproveito-me dela e magico ideias nada exequíveis e
alienadas. Das que me permitem ruminar largos minutos, desaguando num valente e
despenteado momento de felicidade. Serve o introdutivo para lembrar que somos
todos, um e cada qual, um cabaz psíquica e emocionalmente recheado. Reagimos
conforme o ambiente. Agora um jazz
atencioso, a seguir um rock pesado.
Um fado arranhado, noutra altura um pop
raso. Entro pela porta grande, não me lembro se pela direita ou pela esquerda,
sequer tenho memória de qual dos meus pés pisou o solo primeiro. Está à minha
espera, o rosto ganha uma luz efusiva, respondo da mesma forma. Acena-me, numa
excitação que lhe é característica. Levanta-se, abraça-me e deixamo-nos ficar.
É muito bom. Sentamo-nos, um à frente do outro. Antes de qualquer coisa, perguntou-me
se ainda escrevo, se ainda dedico as minhas pausas, maiores e menores, às
prosas numa folha. Acenei positivamente. Quero ler-te até ao fim, retorquiu.
Certamente há fundo de verdade. As leituras são sempre dos outros.
8.3.17
Em diferido. #56
Breviário sobre o espaço e o tempo - Assomou-se à porta e num
poucochinho de voz lembrou-lhe que tinha esquecido o relógio. Não abusou do
postigo, pintado de branco imaculado. A porta encarnada e gasta, numa madeira
que grita ao sabor da medida interna dos instantes. Ele devolveu-lhe o olhar,
sorriu e num passo de corrida chegou-lhe perto. Toma lá, desnaturado, avançou
ela. Nestes lugares, meio pequenos, ainda se vê o que parece ido. O tempo,
sendo o mesmo, cavalga noutro ritmo. As portas ainda se encontram entreabertas,
a mercearia ainda tem lugar, as senhoras de idade não deixam os lenços em casa
e as batas a proteger a roupa. Ainda escolhem o fato domingueiro e vão à missa,
que o padre é bom homem e a religião ainda comanda os trejeitos do lugar. Os
velhos senhores não dispensam o boné e o chapéu e trocam cartadas numa mesa
improvisada. As varandas e janelas têm suportadas as roupas a secar. Ladeira
acima, com a calçada gigante, leva uma alma, um saco à cinta. Eu sou visita de
uma gente que tem receio, num primeiro contacto, de olhar na cara, mas não
perdoa os bons dias. Vou olhando com calma, especado no centro da passagem. A
matriz é imponente e guarda o centro da vila. Os mais pequenos passam a fugir.
Os carros são poucos, mas estão bem cuidados. Passa um tractor com feno e um
senhor cuja idade parece não o consumir. Imagino-lhe animais de grande porte à
espera. Num jardim, uma estátua. Lembra-me um tio. Irmão da minha avó, homem
eternamente solteiro. Dono de um corpo leve, mas impecavelmente vestido. As
calças vincadas, os sapatos brilhantes, as camisas de bom tecido, os pulôveres
sempre engomados. E, por fim, o chapéu. Sempre o chapéu. E o relógio de bolso.
Sempre a tirar as horas e a dar-lhe corda. Ainda me lembro, no seu jeito
aparentemente rude, sentado na sala, com o relógio na mão e o chapéu pousado no
joelho. Conversámos, era eu um miúdo, sobre frivolidades. Tenho hoje um bonito
relógio de bolso. Herdado, claro. De um tio. Do meu tio. Sair do nosso lugar e
tempo é conhecer e aprender. É aludir aos nossos. Às nossas memórias. E sempre
com a corda toda.
7.3.17
Lida aturada.
Saí
logo cedo, na rua um valente ensaio da primavera que não tarda. Sabe bem o tom
e o som. Oiço um bom dia largo, logo depois o meu nome. Às vezes antecede-lhe
um menino. Como que a cair na tentação de passar conforto nas palavras. Noutros
tempos, o diminutivo era frequente na mistura do verbo. Respondo, meio absorto,
mas com o sorriso de sempre. Hão-de de julgar que hoje é um dia importante.
Porventura, não sei. Veste-se, no entanto, disso. Vou no carro, quase numa lamúria
interna, ao ver as horas num trote. O trânsito ensaia uma fila inesgotável.
Zango-me com a delonga. Não tolero atrasos, demoras sem razão. Larguei o
sossego do lar bem cedo, para esta moda evitar. Mas não justifico o imprevisto.
Encontrar lugar é uma odisseia para a qual não guardo espaço. Garanto em voz
sumida que não me esqueci de nada. Enveredo pelo acesso mais breve, entro pelas
portas largas e diáfanas. No centro, a menina da recepção, num rosa coquete, o
senhor da segurança mostra-se simpático, de mãos postas. Pessoas num vai e
volta. Por fim, quinze minutos antes da hora marcada, dirijo-me à recepção,
pedem o nome. Estão à minha espera, mas vai demorar. Aquieto-me, trato das
pendências, observo a movimentação à volta. Volvidos perto de vinte minutos
após a hora marcada, a recepcionista divertida entrega-me a identificação para
que possa seguir. A senhora aperaltada cumprimenta-me, pede que a siga. Subimos
dois andares no elevador. Agora, por favor, aguarde – disse-me. Sentei-me.
Desta feita, bem mais apoquentado do que aquietado. Enfim.
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