É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
27.4.17
26.4.17
Efemérides e outras liberdades.
Parece
que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto
e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo
envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda
hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que
não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no
trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros
afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a
por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria
de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar,
processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas,
de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa,
onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem
fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um
sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que
amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de
pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do
mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para
mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia.
Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou
incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz,
intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes.
Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade –
capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos
– é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de
1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube
trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a
sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir
o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não
se repita, mesmo que nos soe impossível.
24.4.17
Fenómenos da sintonia.
Vem
bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os
dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e
raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de
todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura.
Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente
retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma
alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela.
Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede
meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me
e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e
o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e
abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos
físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de
que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são
todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei
de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos
nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem
reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve.
Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e
apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra
perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem
está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que
não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo
trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste
ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre –
salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos
encontros nunca são demais. Bons dias.
20.4.17
Em diferido. #58
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
19.4.17
Espaço com todos os seus corpos e seres.
Acordei
cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre
disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara
repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar
espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel
com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com
escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio
dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida
quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o
mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente,
numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado
de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um
para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso.
Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne,
nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade
da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai.
A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem
pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De
uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos
sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração
para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril
de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas
e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas
não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um
balancé. Que soluço este, minha gente.
18.4.17
Inferências matinais.
Acabei
por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de
apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente,
de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca
estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me –
menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à
leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas.
Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma
perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado.
Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo,
ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus
avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de
honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de
orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria
conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los
longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de
prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários
de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo
nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo,
antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando
ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a
finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.
17.4.17
Nove horas e parcos minutos.
Devo
trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que
se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e
foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a
noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago
os olhos vestidos pelos BOSS de todas
as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS
que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja
bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No
carro, deixo que o jazz desenhe o
ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao
som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou
bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade,
mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o
silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu.
Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos
vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como
sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de
dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que
engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada.
Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex
improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu
a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo
atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)