Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
16.5.17
11.5.17
Viandantes apaixonados pela arte.
O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
9.5.17
Palanque matinal.
Ora
um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um
aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e
habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a
manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem
pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da
manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e
cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do
arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente
a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos
sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem
as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no
limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um
quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o
púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com
bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo
combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma,
que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e
volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram
desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre
gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os
tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo
como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos
recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.
8.5.17
A minha mãe tem claros olhos.
Consigo
rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente
companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a
educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da
sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito,
é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso
tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de
palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada
um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos.
O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta
por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A
carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de
casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler
uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa
fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar
no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos
esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à
vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los.
Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me
deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos.
Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de
ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e
incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a
barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não
trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e
os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima
em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o
ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.
4.5.17
Sequioso estar.
O
senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um
descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o
generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere
lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é
nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha
enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão.
Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse
escasseou. É tremendo. A idade não limou
todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de
se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando
pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num
desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa
nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio
dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não
esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho
mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora
as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra
de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não
se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida.
Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles
dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente
aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.
2.5.17
Reduzir a vapor.
Não
me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes
queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os
outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido.
Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas.
Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e
letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A
convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à
evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas,
melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente.
Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda.
Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com
firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de
um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora.
Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há
em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades -
que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais
fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e
mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos,
donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E,
consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida.
E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade
de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
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