16.5.17

Trabalho preliminar para (a)testar o amor.

Conheço quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois, galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta, inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num qualquer primeiro andar da vida.

11.5.17

Viandantes apaixonados pela arte.

O trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir. Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco, mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino beneficamente traçado.

9.5.17

Palanque matinal.

Ora um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma, que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.

8.5.17

A minha mãe tem claros olhos.

Consigo rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito, é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos. O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los. Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos. Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.

4.5.17

Sequioso estar.

O senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão. Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse escasseou.  É tremendo. A idade não limou todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida. Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.

2.5.17

Reduzir a vapor.

Não me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido. Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas. Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas, melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente. Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda. Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora. Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades - que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos, donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E, consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida. E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.

27.4.17

Inócuas tertúlias e um jardim repensado.

É, toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco, por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um sonoro CHEERS! Temos música de fundo, sai de uma coluna Marshall, negra e ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente. Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram. Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de fundo. Olaré!