Cheguei
antes da hora, como faço por ser regra. Recebem-me com um sorriso simpático, um
discurso bonito e uma simpatia que parece escassear. Encaminham-me para a sala
de espera. Nesta unidade de saúde os horários parecem feitos para serem
cumpridos. As marcações servem o propósito. Dou as boas tardes a quem já está
sentado, à espera de ouvir o nome e o sobrenome. Devolvem-me a saudação e acho
interessante. Já sentado, fiz-me esquecido do telemóvel e não lhe peguei uma só
vez. O silêncio é cortado, a espaços, pelas pessoas que vêm chegando e que dão
as boas tardes. Pasmo-me e não devia ser preciso. Ainda se cumprimentam as
pessoas que estão e as que ficam. É tão bom. Volta, sempre a seguir, o silêncio
profundo. Só se ouve o som do ar condicionado, tal a ausência de barulho;
sequer um burburinho. Fisgo o relógio, ainda faltam uns rasos minutos para ser
chamado. Olho à minha volta, tudo de cabeça baixa. A namorar com o telemóvel. Só
se mexem as mãos, até os olhos parecem num mergulho sem regresso. Imitam
bonecos autómatos, quase inconscientes, longe da reflexão das vontades. O pior
é que sou um deles. Não sempre, mas algumas vezes. É fácil afundarmo-nos nesse
despropositado e faminto dissipador de tempo. A ver tudo e coisa nenhuma. Ali,
à disposição, segue o mundo fabricado. Por nós, pelos outros. As frases feitas,
cuja minha tolerância às ditas é nula. O regresso do calor, o primeiro dia de
praia do ano, o primeiro banho de mar, as bebidas coloridas, os corpos
reflectidos num qualquer espelho de um qualquer ginásio. Os pequenos-almoços, o
lanche da manhã, o almoço à hora certa e o fora de horas também. O lanche
número um da tarde e o segundo. O jantar, as entradas e a ceia. O cão, os gatos
e os pombos na cidade. A melhor amiga e o amigo que deixa saudades. Viagens
dentro e fora de portas. O mundo cabe ali. E não lhe negamos atenção. Somos uma
amostra de fabricadores de vidas cortadas. Vivemo-las mais ou menos daquele
jeito, cortámo-las à medida de uma rede social, pregamos-lhe um filtro em cima,
com as definições certas, redigimos uma legenda profundamente anedótica, inundamo-la
de cardinais colados a palavras-chave e finalizamos clicando no ‘publicar’.
Boas leituras e bonitas imagens, é o que desejo.
17.5.17
16.5.17
Trabalho preliminar para (a)testar o amor.
Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
11.5.17
Viandantes apaixonados pela arte.
O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
9.5.17
Palanque matinal.
Ora
um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um
aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e
habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a
manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem
pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da
manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e
cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do
arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente
a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos
sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem
as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no
limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um
quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o
púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com
bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo
combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma,
que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e
volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram
desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre
gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os
tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo
como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos
recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.
8.5.17
A minha mãe tem claros olhos.
Consigo
rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente
companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a
educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da
sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito,
é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso
tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de
palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada
um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos.
O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta
por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A
carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de
casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler
uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa
fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar
no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos
esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à
vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los.
Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me
deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos.
Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de
ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e
incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a
barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não
trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e
os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima
em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o
ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.
4.5.17
Sequioso estar.
O
senhor que hoje pede um café. Ontem uma água mineral natural. No outro dia um
descafeinado. O senhor que lê o jornal desportivo agora. Antes leu o
generalista. Lê depois a revista sobre o coração. Passa os olhos, como prefere
lembrar. Correm os minutos em passos curtos, que a demora é feita. Contudo, é
nas letras que se deixa ficar, sem esquecer as imagens. Fica nessa entretenha
enquanto a prosa não lhe rouba tempo. E, caraças, perder tempo é uma desilusão.
Avanças na descoberta e, não poucas vezes, percebes que o interesse
escasseou. É tremendo. A idade não limou
todas as arestas, mas deu-lhe a capacidade de escolher e, em não querendo, de
se perder. Deixou ficar o prazer das conversas. O senhor que toma café quando
pode, que prefere a água quando o coração, o corpo e a cabeça habituam num
desgoverno. O descafeinado para os dias vagos. Médios e castigados por coisa
nenhuma. Sentado na mesa do costume ou noutra qualquer. Os óculos são o auxílio
dos dias. Acena à entrada, qual majestade chegada. Dirige-se aos presentes, não
esquece os bons dias. Diz que não se considera engraçado. Eu discordo. Acho
mesmo que tem a noção toda e, por isso, não perdoa na hora de enviar para fora
as suas estórias animadas. Os aplausos são risadas largas. Finge-se uma amostra
de um anfiteatro por aquelas bandas e não se quer outra coisa. Ser-se feliz não
se compadece com a constante chuva de realidade. Sossegam os dias nesta rotina híbrida.
Vazia de ocupações antigas, cheia de partilhas nada ébrias. Assim vão aqueles
dias. Tão naturais como a vida. Tão efémeras como a mesma. Daqui, um valente
aceno de mão. E boas leituras. Eu fico-me pelo café esfriado.
2.5.17
Reduzir a vapor.
Não
me incomoda. Nem um pouco. Que as ruas se vistam do que os transeuntes lhes
queiram adornar. A servir propósitos vários. Os que me fazem sentido e os
outros. Cartazes largos e letras garrafais. Frases que ganham terreno no ouvido.
Braços levados ao ar. Mãos feitas em punho ou pensadas como finas penas.
Corredores de gente. Vozes sintonizadas. Uníssonos variados. Faixas largas e
letras encarnadas. A cor da pele num convívio que havia de ser replicado. A
convicção a juntar e a servir a comunhão. A pensar a sociedade e a levá-la à
evolução. A firmeza nos passos. A certeza de que agir é, sem sombra de dúvidas,
melhor do que fingir. Tudo isto, claro, encabeçado pela cidadania consciente.
Usar as ruas, sem recorrer a artifícios, para marcar uma posição. Não me incomoda.
Só me castigo por não me ver envolvido numa ou noutra cuja causa apoiei com
firmeza. E volto a teimar com a mesma certeza. Hei-de fazer tombar o rosto de
um ou outro familiar. Com esses desisti, algures, de fazer da prosa uma demora.
Demarco-me da opinião e travo antes de o baralho desmoronar. Contudo, vezes há
em que me esqueço e entro numa guerreia oral – com as devias cordialidades -
que não tem montante nem jusante. Incorro num esboço da minha fácies, mais
fechada e assumidamente zangada, quando a intolerância chega de tipos – homens e
mulheres – com idade para saber distinguir. Pessoas com a minha idade ou menos,
donos de um ruído interno que lhes consome o discernimento. E,
consequentemente, que mutilam a realidade do outro. Lamento a política perdida.
E as mentes cujos donos parecem acéfalos. Não me incomoda, senão a volatilidade
de uns e a carência emocional de outros. À rua o que é do povo.
27.4.17
Inócuas tertúlias e um jardim repensado.
É,
toda a parede de fundo, de azulejos vestida. Quadrados exactos, fundo branco,
por amarelo e azul riscados. Formam um desenho bonito, a fazer lembrar os de
outros tempos. É um jardim improvisado. Depois das janelas largas, ei-lo
montado. Paredes altas, largas, típicas dos prédios antigos. Vasos amplos, com
flores a condizer. Verde e outros tons de mãos agarradas. Cheira bem, olha as
rosas empinocadas. As cadeiras com almofadas. A mesa comprida e bem caprichada
no arranjo. Descem dos ares luzes várias e vasinhos com ervas efusivas. Temos
direito a bebidas frescas. Na parede pintada a rolo, um espelho redondo, a
imitar os rostos. Fez-se luz e num desassossego tornaram-no eficaz, cheio de
utilidade. Ali, encerrados naquelas medidas nada exageradas, apetece fins de
dia partilhados e noites sem horas. Tempo quente e a lua presente. Olhamos à
volta e está confortável, confiante. Sobre nós o azul do céu. A vizinha do
andar superior não remoca. Bem pelo contrário, assoma-se à janela e, de copo na
mão, sugere o brinde. Quão castiça, a mulher e a acção. Braços ao ar, daqui um
sonoro CHEERS! Temos música de fundo,
sai de uma coluna Marshall, negra e
ainda mais embelezada com dourados e encarnado vinho. “Summer Wine”, a duas vozes, é agora a maestrina do ambiente.
Matraqueamos como é nosso apanágio, entre as risadas sentidas e as bebidas
servidas. Olha ali, sai a fotografia para o Instagram.
Poses, cabelos aconchegados, risos nada forçados. Prefiro as fotografias para
lembrar, sem pelas redes sociais passar. Mas não tenhamos dúvidas, amizade é
viver e partilhar. Esquecendo as moléculas da cobrança. Estar é sinónimo de
respeitar. Muito mais quando temos uma parede azulejada a fazer as honras de
fundo. Olaré!
26.4.17
Efemérides e outras liberdades.
Parece
que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto
e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo
envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda
hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que
não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no
trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros
afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a
por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria
de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar,
processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas,
de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa,
onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem
fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um
sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que
amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de
pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do
mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para
mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia.
Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou
incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz,
intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes.
Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade –
capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos
– é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de
1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube
trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a
sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir
o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não
se repita, mesmo que nos soe impossível.
24.4.17
Fenómenos da sintonia.
Vem
bamboleante, descomprometida, livre e veraneante. Um vestido comprido, nele os
dias felizes desenhados. Flores e flores miudinhas. Deve ter também ramos e
raminhos. As cores fortes, atractivas. O rosto vestido com o sorriso rasgado de
todos os tempos. O cabelo a tocar nos ombros, com a mesma vivacidade e postura.
Uns brincos que fingem ser gigantes, tamanha a moldura. Uns óculos de sol totalmente
retro, a lembrar uns que a minha mãe teve em tempos. Calça uns CONVERSE ALL STAR brancos. Traz uma
alcofa por laços e tecidos bonitos adornada. Acena a este, diz bom dia àquela.
Brotam do cesto vistoso, verdes e outros que tais. Espreitam quem passa. Pede
meia dúzia de ovos caseiros, aconchega-os junto aos primeiros. Agora sim, vê-me
e antes de apressar o passo na minha direcção, deixa fugir o sorriso habitual e
o aceno de mão com vida. Devolvo-os sem esforço. Pousa o cesto requintado e
abraçamo-nos como da última vez. Não vem de longe a minha demora nos exemplos
físicos do afecto. Mas aconteceu com a convicção de que não é obrigação. E de
que não me disponho para qualquer um. Não somos todos iguais, tampouco nos são
todos iguais. Ainda presos no abraço, diz-me que cheiro bem. Avança que mudei
de perfume. Que estou igual, mas mais refinado, que faço-a pensar no maior dos
nossos encontros. Algures no metro, antes de sumirmos por dias. Onde, sem
reflectir, parecia que não teria fim. E, em abono da verdade, não teve.
Sintonizámos, por seu turno, outras estações, mas mantemo-nos ouvintes e
apaixonados por aquela frequência em particular. Vivemo-la de outra
perspectiva. Agora, olhos nos olhos, elogiei-lhe o traje e o bom ar. De quem
está feliz, consciente disso e a fazer por isso. Trocámos ainda palavreado que
não importa transcrever. Por mais tempo que gastemos ou voltas que o mundo
trave, não me canso de elogiar as pessoas que vêm cruzando a minha vida. Neste
ou noutros planos. Tão simplesmente reais e essenciais, que ficam para sempre –
salvaguardando as excelsas excepções. Que merecem o meu afecto. E cujos
encontros nunca são demais. Bons dias.
20.4.17
Em diferido. #58
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
19.4.17
Espaço com todos os seus corpos e seres.
Acordei
cedo, sem recorrer ao despertador, ainda que o mencionado esteja sempre
disposto para qualquer eventualidade. De resto, como acontece com clara
repetição. Fi-lo na minha cama, larga o suficiente para me esticar e guardar
espaço. Com a luz subtil do televisor esguio a fingir incomodar. O telemóvel
com acumuladas mensagens. A janela bem cerrada, a cortina fina a guardá-la. Com
escassas peças de roupa adormecidas sobre uma cadeira bonita. Sob o silêncio
dos dias, da rua sempre calma, de um país que ainda dorme com a devida
quietação. Mas é uma espécie de ilusão matinal. Depois levanto-me, percorro o
mesmo silêncio, e as verdades jorram pelos ecrãs afora. O mundo corre doente,
numa patologia encriptada, mal pensada. Imagino-o num cinza e branco, mais pesado
de negro, enfiado em dois comboios compridos. Onde os caminhos não se tocam. Um
para lá, outro para cá. Repete-se este movimento sem que saia do mesmo poiso.
Com ares de boomerang, mais uma das entretenhas do Instagram. Com a pesada excepção, é que este último pesca likes e não fica imortalizado na carne,
nas vísceras ou na vida de alguém. Discute-se, a plenos pulmões, a parentalidade
da senhora das bombas. Uns gritam mãe, do outro lado explicam porque são o pai.
A seguir testam-se mísseis e lembram-se as nucleares que guardam na manga. Morrem
pessoas – seres humanos – todos os dias à mercê de uma guerra que não compram. De
uma tentativa de fuga que não vê a luz do dia. Cospem-se perniciosos discursos
sobre os nossos e os outros. E, pasmados, sabemos da existência de um campo de concentração
para homossexuais na Chechénia. Não me engano se lembrar que estamos em Abril
de dois mil e dezassete. Espantam-me os olhos fechados, as conversas desconexas
e, por vezes, odiosas, que venho assistindo por cá. O mundo gira lá longe, mas
não nos esqueçamos, jamais, que vamos embalados na carruagem que mais parece um
balancé. Que soluço este, minha gente.
18.4.17
Inferências matinais.
Acabei
por pousar o livro de páginas generosas sobre o que havia de chamar de mesa de
apoio. Estava, há tempo demais, à espera de um dia. De uma pausa conveniente,
de um lugar perfeito. Agora tem um candeeiro aperaltado, de design arranjado, uma vela com a marca
estampada e um arranjo florar todo primaveril, por companhia. Penitencio-me –
menos do que seria necessário – por não devolver a atenção de outros tempos à
leitura. Atropelo-me, à margem de outros termos, na hora de fazer escolhas.
Surgem opções e razões. Entram numa luta inglória. Fico feito coisa nenhuma
perante o resultado. Não sei outro facto senão que sou eu o único e real culpado.
Não ofendi a decoração pensada, mas adulterei a função do livro. Noutro tempo,
ainda pequeno e sagaz, inventava formas de assaltar a estante da casa dos meus
avós maternos. Vi-a imponente, carregada de enfeites. Os livros tinham lugar de
honra, nas prateleiras cimeiras. Depois de várias e vãs tentativas, o sofá de
orelhas pareceu-me a escada necessária. Queria ler e, mais do que isso, queria
conhecer outros e diferentes enredos, outras palavras e autores. Por sabê-los
longe da minha idade, larguei na procura de lá chegar. Tinham um sem fim de
prosa e poesia. Li novelas de autores nacionais e internacionais. Dicionários
de filosofia e botânica. Um livro bem discreto com bonita poesia erótica, cujo
nome da autora ainda hoje não consigo recordar. Certamente, li fora de tempo,
antes de ter o discernimento necessário. Hoje corro sei lá para onde, deixando
ficar partes fundamentais da engrenagem. Falta-me a agudeza de espírito e a
finura do corpo para voltar à fonte do raciocínio.
17.4.17
Nove horas e parcos minutos.
Devo
trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que
se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e
foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a
noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago
os olhos vestidos pelos BOSS de todas
as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS
que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja
bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No
carro, deixo que o jazz desenhe o
ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao
som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou
bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade,
mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o
silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu.
Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos
vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como
sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de
dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que
engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada.
Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex
improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu
a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo
atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.
13.4.17
Inaudito soprar daquele lugar.
Acabo
de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve
diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar,
daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes.
Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do
carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar.
As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o
verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e
garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os
pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a
manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho
sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os
lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas
mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e
a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos
feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de
primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os
bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo
do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe
fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às
partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer
as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que
vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas
convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há
sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.
12.4.17
Viveza rara.
Traz
os caracóis vincados, sobre a cabeça todos aconchegados. O cabelo curto ajuda à
composição. Diz que são naturais, fazem-se com a vontade da genética, do
crescimento. Não escapa, sequer, um branco. Todo escuro, enrolado, bastante
sossegado. Aí, o contraste total com o corpo, pequeno mas pejado de energia.
Magra o suficiente, avança. Não se deixa desmentir, dá a certeza de que tem
genica maior do que tantos homens que conhece ou juventude que vê crescer. Veste-se
conforme a confiança. Não me lembro de vê-la de vestido ou saia. Senão numa ou
noutra fotografia antiga. Tampouco com uns saltos altos. Agora é informal no
traje, e vem de longe a postura desbocada no trato. É eloquente e não dispensa
a gargalhada aberta. Magica autênticas instalações sociais. Coloca-as da boca
para fora, sem pensar um tanto de segundo. Emprega-as na vida de quem a rodeia.
Prefere a religião a outros serões. Sobre a temática, já tivemos sérias
discussões. Tão saudáveis quanto construtivas. Lá atrás, afoito, fui um nada rude
e assertivo demais. Senta-se de perna cruzada e conta estórias sem fim. Com
ela, perco-me em gargalhas sucessivas. Rimo-nos juntos. Tal como os
telefonemas, em tempos, tão longos. Não é falso lembrar as horas ao telemóvel.
Fala com tanta vontade que quase não dá sossego à tagarelice, descurando o que
havia de ser uma conversa a dois. Mas até isso lhe oferece graça. Fã assumida
de tecnologia, já lhe conheci um sem número de telemóveis, máquinas
fotográficas e outros gadgets. Uma
fase houve em que a prosa não era outra coisa que não repetida. Estava disposta
a mudar a alimentação. A favor do corpo mais leve e da saúde em pleno. Tirava
todas as dúvidas, lembrava sugestões. Lançou-se na prática de exercício físico
e até o corredor comprido de casa fora a sua sala de movimentar o corpo. O seu
nome rima com alegria. E de outro jeito não era expectável. É uma das minhas
tias. E uma mulher activa.
11.4.17
Combate corpo a corpo.
Chamar-lhe
pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os
primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo.
Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma
massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem
regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos
neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último
nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar
o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às
relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos,
decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da
frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido
andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a
necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho,
assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão
corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita
frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga
o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de
viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É
um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os
sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e
ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor
irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a
prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar
neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera
do brinde.
10.4.17
Mariazinha, a dona da lhaneza.
As
verduras frescas sobre a bancada. O verde reluzente. Os legumes bem cuidados,
listados, as cores certas e os tamanhos irregulares. Os frutos em harmonia numa
cama dividida, sadios e numa troca, quase lasciva, de olhar. Têm marcas
visíveis, mas é a qualidade e a vontade de comer com certezas. Os orégãos dependurados,
as folhas de louro na mesma carreira. Os limões vivos amancebados com as limas
frescas. O alecrim apresenta-se em arranjos aperaltados. As malaguetas
fervilham em ramos inventados. As batatas têm espaço e as alfaces são amigas das
couves. As aromáticas fazem justiça ao nome. A bancada toda arranjada, sem prosápia
nem falta de maneiras. De lá, ouve-se uma receita de arroz de safio e uma
mezinha para a tosse, e de cá o pedido para que deixe ficar o saco carregado. Apresenta-se
ao serviço, apresso-me a dar-lhe honras de dona da banca, uma senhora de alguma
idade. Um pouco curva, de cabelos esbranquiçados, macérrima, de chapéu a cobrir
a cabeça. Uma bata de xadrez, com apliques de renda branca, a defender a roupa
de sair. Apetece-me dar-lhe os bons dias. E assim fiz. Devolveu-me um sabido e
agradecido bom dia. Com o ar de quem o faz há tantos anos. Logo depois, quase
sem cessar, serviu-me um sorriso gigante. Simpática e dinâmica pergunta o que
quer o freguês. Penitencio-me no vazio dos pensamentos, pois, queria no
imediato, prosa de visitante. Fotografar-lhe se não fosse ousadia. Ouvi-la
conversar. Gabar-lhe os produtos frescos. Sugeriu-me o mel feito pelo senhor
António. De resto, deixou-me à sorte das minhas necessidades. Perguntei-lhe o
nome e contou-me que é Maria. Mariazinha para os antigos. E foi assim que, daí
em diante, me pediu que a tratasse. Deixou-me fotografar o negócio montado, mas
sem que ela se assomasse à objectiva. Respeitei. Trouxe uma fotografia vestida
com a moldura da dona Mariazinha. A imagem na cabeça ao longo da manhã. E um
frasco do mel do senhor António – imagino-o de bigode, não me sei entender.
Logo eu, fraco fã de mel ao natural. Hei-de lá voltar. Nem que seja para lhe
contar.
5.4.17
Portugal numa sala especial.
Prometeram-me,
há tempos, a ida a uma casa de fados. Que ainda não conheço, mas que, dizem-me,
tem a música nacional por todos os lados. Tão travessa, tão sem pressa. Com
guitarras afinadas, vozes nada pensadas. Cordas em concordância, mãos cheias de
elegância. Ensaios de uma tarde inteira ou de uma manhã bem dormida. Poemas
conceituados, outros à hora arranjados. Mesas rústicas e tolhas trabalhadas. Vinho
tinto num jarro de barro, os arranjos florais numa jarra ao centro. O rapaz das
flores chega num carro. Senhores com a música à flor da pele, senhoras com as gargantas
afinadas. Fatos simples e repetidos. Gravatas ora ausentes, ora de tecidos
vividos. Vestidos compridos. Xailes negros sobre as costas e outros coloridos. Gente
com sabedoria, malta que começa agora à luta pela alegria. As mãos voltadas
para o céu cerrado, os olhos num jeito fechado. As paredes vestidas de
lembretes bonitos e ricos. A certeza de que não há lugar a esquecimentos. O
escuro é companhia de toda a hora, as velas não perdem com a demora. Os
clientes pela alma envolvidos oferecem os silêncios devidos. Prometeram-me, há
tempo demais, a ida a esta casa de fado. Já a vejo assim, sequer a pisei.
Espero com ânsias a semana que vem. Hei-de ouvir música boa e ver-me embrulhado
num ambiente que não se repete. Silêncio, vem lá fado. E eu gosto tanto.
4.4.17
O puto do skate e as marcas contadas.
Passou
por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue,
envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e
direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um
boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi
contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia
seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas
queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com
um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a
tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS
todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas
físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia
aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham
as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri
o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao
ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num
quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
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