Sento-me
de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias.
Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me
com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus
desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a
liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer
sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do
esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo
com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar.
Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar
com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há
descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a
regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar
pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos
grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais
propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo
depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que
deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais
uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me
maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes
os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os
documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde.
E não merece senão gratidão.
23.5.17
22.5.17
Finos ornatos numa bojuda jarra.
Lembro-me
dos arranjinhos de flores frescas, bonitas, quase certinhas, ainda assim com ar
selvagem e agreste. Com cores que regalavam os olhos ou em tons mais suaves. Lembro-me
das jarras com água limpa. Da mesa redonda, da madeira forte. Do cheiro a natureza.
Sempre com a luz da porta grande a tocar-lhes. Com os cortinados recuados. Na
cozinha, sempre um ramo generoso de alecrim, outro de alfazema. Cheiros bons e
atrevidos. Começada a Primavera, era sabê-las lá. Naquela sala, inventava-se um
palco de criatividade floral. Os quadros grandes numa estranha e imponente posição
de espectador. Era assim, de mãos meticulosas, que os dias giravam com outro
aroma e graça para a vista. Para criar ambiente, para oferecer vida às nossas
vidas, diziam-me. Lá, devo ter evitado a mensagem, bem mais a imagem, devo ter
passado à margem. Mas é memória. Para lembrar que o nosso quotidiano é
relevante, mas jamais será o mais importante. Não é isolado. O mundo e os
acontecimentos. As experiências multiplicam-se fora de nós, do nosso
conhecimento. Correm à semelhança e ao passo do tempo. Bem escasso, tão valioso
que não se deixa vender. Tão especial que tens o direito de escolher. Pensar é
fácil, mirramos no exacto instante de agir. Oferecer – não despender - tempo a
algo ou a alguém é um dos caminhos. Não que nos soe a egoísmo, mas porque é uma
acção bilateral. Ficar, sem contar os movimentos dos ponteiros, a olhar ou a
conversar, é tremendo. Dás-te ao outro, logo à matéria que não te pertence, e
recebes a certeza de que o teu umbigo é francamente frágil, efémero e, em tempo
algum, o dono do mundo. Mesmo sem prestar atenção, sempre achei genuíno e
elegante o ambiente daquele espaço. Ainda mais no dia em que fiz,
acidentalmente, cair a jarra maior. Colhi cada um dos pedaços e trouxe a
certeza de que são os actos que criam laços.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
17.5.17
Concussão deste tempo.
Cheguei
antes da hora, como faço por ser regra. Recebem-me com um sorriso simpático, um
discurso bonito e uma simpatia que parece escassear. Encaminham-me para a sala
de espera. Nesta unidade de saúde os horários parecem feitos para serem
cumpridos. As marcações servem o propósito. Dou as boas tardes a quem já está
sentado, à espera de ouvir o nome e o sobrenome. Devolvem-me a saudação e acho
interessante. Já sentado, fiz-me esquecido do telemóvel e não lhe peguei uma só
vez. O silêncio é cortado, a espaços, pelas pessoas que vêm chegando e que dão
as boas tardes. Pasmo-me e não devia ser preciso. Ainda se cumprimentam as
pessoas que estão e as que ficam. É tão bom. Volta, sempre a seguir, o silêncio
profundo. Só se ouve o som do ar condicionado, tal a ausência de barulho;
sequer um burburinho. Fisgo o relógio, ainda faltam uns rasos minutos para ser
chamado. Olho à minha volta, tudo de cabeça baixa. A namorar com o telemóvel. Só
se mexem as mãos, até os olhos parecem num mergulho sem regresso. Imitam
bonecos autómatos, quase inconscientes, longe da reflexão das vontades. O pior
é que sou um deles. Não sempre, mas algumas vezes. É fácil afundarmo-nos nesse
despropositado e faminto dissipador de tempo. A ver tudo e coisa nenhuma. Ali,
à disposição, segue o mundo fabricado. Por nós, pelos outros. As frases feitas,
cuja minha tolerância às ditas é nula. O regresso do calor, o primeiro dia de
praia do ano, o primeiro banho de mar, as bebidas coloridas, os corpos
reflectidos num qualquer espelho de um qualquer ginásio. Os pequenos-almoços, o
lanche da manhã, o almoço à hora certa e o fora de horas também. O lanche
número um da tarde e o segundo. O jantar, as entradas e a ceia. O cão, os gatos
e os pombos na cidade. A melhor amiga e o amigo que deixa saudades. Viagens
dentro e fora de portas. O mundo cabe ali. E não lhe negamos atenção. Somos uma
amostra de fabricadores de vidas cortadas. Vivemo-las mais ou menos daquele
jeito, cortámo-las à medida de uma rede social, pregamos-lhe um filtro em cima,
com as definições certas, redigimos uma legenda profundamente anedótica, inundamo-la
de cardinais colados a palavras-chave e finalizamos clicando no ‘publicar’.
Boas leituras e bonitas imagens, é o que desejo.
16.5.17
Trabalho preliminar para (a)testar o amor.
Conheço
quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de
laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou
um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é
o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente
para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma
putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos
ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da
sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como
aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois,
galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com
os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta,
inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a
nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro
andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana
dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi
envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais
imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a
primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os
dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos
e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do
amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando
isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um
romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os
moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes
de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me
coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num
qualquer primeiro andar da vida.
11.5.17
Viandantes apaixonados pela arte.
O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
9.5.17
Palanque matinal.
Ora
um beijo, ora um aperto de mão. Agora outro beijo, mais dois ou três. Ainda um
aperto de mão a consolidar a lista. Não são esquecidos os bons dias matinais e
habituais, bem como, os acenos de mão e os sorrisos simpáticos. Assim corre a
manhã. Que se fez longa. Tão madrugadora que se vingou na dor de cabeça que vem
pesando. Não a censuro. Retaliação de gente mal dormida. Antes das oito da
manhã já o seu carro datado, tão vistoso, procurava lugar. Vem de barba rija e
cuidada. O cabelo a combinar. Vem a praguejar, de folhas na mão, cansado do
arranque do dia. Rir é a resposta. Vamos embora. Não fazemos esperar. Há gente
a correr no sentido inverso. Levam calções ou calças curtas. Casacos largos
sobre o corpo ou presos à cintura. Ténis cheios de cor e outros que não servem
as modas. Os ouvidos ligados ao telemóvel. Os olhos no infinito. O foco no
limite. Uma senhora passeia o cão pequenino, lá à frente vem um rapaz com um
quatro patas bem matulão. Numa varanda bem alta alguém gesticula como se o
púlpito do mundo residisse ali. E tem graça. As flores estão arranjadas, com
bom ar. Vem lá outro cão, desta vez, à sua sorte. Nós seguimos em passo
combinado, trocando ideias e proseando sobre muito e acerca de coisa nenhuma,
que somos rapazes para não poupar o léxico. Chegados, ele roça o ofegante e
volta ao praguejo. Lembrei-lhe que já perdemos a conta aos dias que passaram
desde a última actividade física que fosse além de uns passos. Entre
gargalhadas, inventámos que vamos voltar esta semana. Assim se enganam os
tolos. Tal como o saber, as desculpas mundanas não ocupam lugar. É tão certo
como a barriguinha quase saliente que trazes contigo, meu bom amigo. Somos
recebidos com extrema simpatia e, imagine-se, outro par de beijos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)