Tenho
andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça.
Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite.
Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os
meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se
companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que
não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro
de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais.
No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade.
E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do
festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem
classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto,
mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha
com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com
chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e
franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes,
escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo
das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos.
Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar
certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se
sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma
brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e
pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado.
Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me
apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais,
perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso
no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos.
Se quer saber.
12.6.17
31.5.17
Singular.
Desde
petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque
o vivo, porque mo dizem. Os meus, em tempo algum, o fizeram em jeito de atestado
passado. Ou por meio de longos discursos. Antes em conversas trivialmente
assertivas. Ou em acções dignas e saborosas. Às vezes menos, mais agrestes e
azedas. Como tudo aquilo que se prende com a vida. No fundo, funcionou assim e
ainda traz esses jeitos. Um barómetro inexistente fisicamente, mas profundamente
presente. Porventura, todos a moldar a minha posição sobre algumas posturas.
Não me apelido de intransigente, mas habito lá perto um par de vezes. Não
respondo sempre – raramente - com a mesma pronúncia, mas guardo cautela perante
alguns “delitos” (com as devidas comas; nada de superior) que me dirigem.
Comigo não funciona o falso testemunho, a mão leve ou a boca fraca. Em que
circunstância e sob que justificação for. Só porque embeleza o quadro ou varre
para debaixo do tapete a sujidade dos actos. Não tolero, pese embora, algumas
vezes me finja super blasé. Funciona, não desminto. E devolvem-me sorrisos,
nada bonitos, mas bem ardilosos. E os dias seguem. Como deve e tem de ser.
Desde puto que sou conhecedor daquilo que me envolve. Desde logo, na minha
família, na minha casa, nos meus amigos, até nos conhecidos. Essa avaliação não
guarda números. Sentes, mesmo que enquanto o vivas não saibas. Acumulas até
chegar o entendimento. Nesta medida, cabem ainda alguns bens materiais, que não
sendo fundamentais, contribuem para o bem-estar, para a vida mais leve e
despreocupada. Ser-se privilegiado não é uma definição, é uma condição. E,
mesmo assim, parece-me que os parâmetros mudam consoante o proprietário –
perdoem-me a expressão, mas nada é eterno. Ser é tão diferente de parecer. E
eu, em nada diferente, sou muitas coisas que não deixo parecer e pareço outras
tantas que não deixo acontecer. A dada altura reduz-se a importância a zero. Ao
vazio. Que é como deve estar. Sequer me belisca que me vejam altivo e
arrogante, quando não pretendo outra verdade. Sequer me atenta que me vejam de
piada fácil, riso repetido ou discurso menos moderado, quando é essa a minha
sinceridade. Ainda que me chamem privilegiado quando olham de fora, sem
autoridade, a olho nu, pelo que ofereço no correr dos dias. Desde petiz que sei
que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo,
porque mo dizem. Mas em instante algum recorro ao dinheiro quando penso nisso.
A inteligência dos afectos suplanta tudo. E não está à venda. Ou nasces com ela
ou encontra-la numa esquina mais adiante. Caso contrário, é um jogo perdido.
Saiu-me a sorte maior, sou um privilegiado desde o primeiro minuto.
30.5.17
Prerrogativa de alguns.
A
vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também.
Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode
ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes
vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario
finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui
não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir
para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis –
na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas,
porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já
havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um
conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado
com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar
sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem
temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas
já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do
que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais
reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos
tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A
última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de
peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o
encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão
tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita
carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda
das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores
miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no
meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.
29.5.17
Estrepitoso amanhecer.
Escancarou
a janela grande da cozinha, antes havia subido os estores na totalidade. O sol
da manhã a corroer qualquer possibilidade de olhar para além do chão. Os olhos
incapazes de focar dignamente – evitem o sol forte e a ausência de óculos
graduados - reparam na cozinha arrumada, toda limpinha. Sem qualquer rasto das
taças de vinho, tampouco dos acepipes. Ou dos restantes sustentos do
divertimento. Nada a beliscar a noite anterior. Sentado numa cadeira bastante
certinha, numa casa que não é minha, imagino o fim dos dias sobre a minha
cabeça: um cabelo humilhantemente desarrumado. Mas fico-me pela dúvida, evito a
sentença. A silhueta cheia de vida deixa-se sossegar. Encosta-se à bancada de
pedra, escura e fria. Quase sentada sobre a dita. Reparo que me dirige o olhar.
Numa tentativa sem reflexão de focar, cruzámos olhares. E sei que ela riu.
Baixinho, sem alarido. A resposta inequívoca, esbocei um ar nada delicado.
Entrei na dança, rimos juntos. De pernas cruzadas, a saírem de uns calções
curtos, perguntou-me se dormi bem. Tendo em conta o horário, não podia mentir,
dormi o insuficiente. Ela não gostou da almofada. Preferiu lutar contra a
cozinha desarrumada. Agradeci-lhe a simpatia, mas lembrei-lhe que não era
função de um só. Cortou esse caminho e perguntou-me o que eu estava a pensar
fazer durante o dia, uma vez que estava num lugar que não conhecia. Sair, ver,
conhecer, disse-lhe. Ela, sendo também visita, era repetida. Deu-me sugestões.
Ofereceu-me muitas saídas. Mostrou-se disponível para nos acompanhar. Agradeci.
Desenhados os sorrisos, passos de silêncio. Ela, num só salto, desce da bancada,
procura o granulado do seu bulldog francês, enche a taça e renova a água. De
costas, vira a cabeça na minha direcção e deixa fugir que gostou muito do
jantar do ZM. Foi graças a ele que nos conhecemos. Anuí com a cabeça. Sem
travar, perguntou-me se lhe tirava uma fotografia. Gostei do que vi, continuou.
Disponibilizei-me. Ali mesmo, numa cozinha estranha, precocemente cedo, com uma
luz simpática, a fotografar uma estranha bem-parecida. Não é outra coisa. É o
acervo do acaso. Há instantes, uma carta. Prosa bem cosida e um agradecimento
especial. Ainda há quem escreva. Cartas e à mão. E, o melhor dos nossos dias,
sem mácula. Sem um erro ortográfico. Há combinações crepitantes.
25.5.17
Afecto ardente numa 'Vespa'.
Vem
uma Vespa disparada, de azul petróleo
pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro
escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan
clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos
resguardados por uns Dior. Nos pés,
trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com
leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola
às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os
marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro
das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas.
Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os
convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e
médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao
céu. Aplausos. Ela desce da Vespa
azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e
comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como
a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase
envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de
couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com
firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o
lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e
cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa
com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As
vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida,
braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade.
Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão
e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.
24.5.17
Moralmente salutar.
As
desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as
leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas
é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E
esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é
fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido.
Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os
sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a
minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos,
em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão
felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos
novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo
da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é
tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A
diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como
naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque
das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado.
Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que
fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci
naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais
velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por
isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca
passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta
giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar.
Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas,
com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida
parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela
insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o
ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em
seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já
me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada.
Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente
bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo
vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais
felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir
contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.
23.5.17
Moderação dos dias.
Sento-me
de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias.
Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me
com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus
desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a
liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer
sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do
esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo
com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar.
Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar
com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há
descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a
regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar
pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos
grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais
propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo
depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que
deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais
uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me
maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes
os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os
documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde.
E não merece senão gratidão.
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