Lá
fora, enquanto atravessava a rua, cruzei-me com um autocarro quase vazio. Uma
senhora, com ar pendente, esboçava movimentos com a boca. E a mão fingia
garatujas no ar. Devia levar uma conversa governada de interesse com o senhor
condutor. Toca o telemóvel e a dúvida absorve uns quantos. As massas a
funcionar com as maçãs. Soa e somos o mesmo. Estou numa espécie de fila – um tanto
desordenada, outro tanto desordeira - num lugar cansado, cujo ar está saturado,
com o meu casaco comprido, aos quadrados desenhado, os óculos graduados
colocados, os de sol na gola dobrada do casaco de malha grossa presos.
Desliguei a chamada há instantes, a minha irmã mais nova a trazer novidades, no
seu discurso sempre vestido de pressa, genuíno e de menina travessa. Entre
pensamentos, reparo na senhora que está ao meu lado. Quase inerte, numa apneia
que me permiti diagnosticar. O olhar, quase baço de admiração, está focado -
pasme-se - nas minhas meias. Ou peúgas. Conforme a nação de cada um. Perco-me,
com alguma facilidade, nas nomenclaturas. Nisto, arqueio a sobrancelha, como se
fosse tipo para esse ensaio. Levo, instintiva e imediatamente, os olhos às
ditas. E rio-me. De mim e para mim. Espreitam, dinâmicas e de humor comedido,
entre o que trago calçado e a dobra das calças. Não são as mais atrevidas que
tenho, quis contar-lhe – à senhora, claro – mas fiquei tímido. São mesmo
triviais, talvez a cor lhes torne especiais. Enfim, os nossos olhares cruzaram-se.
E chega, na minha direcção, vinda do fundo da neblina que são aqueles olhos, a
estupefacção. Fiquei na dúvida, tratar-se-ia de vergonha por eu ter percebido o
delito ou, cheia de verdades sobre a arte de bem trajar reprovou as minhas
sossegadas meias. Ou peúgas. Assim levei a manhã, numa ambiguidade sem
precedentes.
19.2.18
1.2.18
Fenómeno da absorção.
Não
fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam,
ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz
afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio
numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e,
num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de
casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto.
Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não
perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé.
Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias.
Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns
recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado.
Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo
volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas
eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das
traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de
prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada
sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até
as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo
que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de
me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou
onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja
com os pés em terra firme.
31.1.18
Prosa do acaso.
O
compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não
são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem
combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem
trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito
abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O
casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que
balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode
tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e
sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz,
corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora,
tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais
houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela,
genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de
inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem
remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou
descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário,
feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços,
estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto
da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto
certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha
inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir.
Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi
atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro
abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos,
até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.
30.1.18
Não adianta retirar em debandada.
Sentámo-nos
na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo
desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de
feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a
melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos
sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais
recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos
menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos
nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos
projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas
trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago
aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas
tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos,
as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos,
caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser
o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e
ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E
monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação.
Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a
comparação do clima. E só pode estar tudo bem.
11.10.17
Em diferido. #60
O
puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim
um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido
por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o
estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por
estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou
por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e
bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam
o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso
rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua
bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos
rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e
visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos
velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as
mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho.
Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado,
ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por
quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também
num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores
coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre
escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com
a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis.
Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante
a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei
irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a
memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado
estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me
ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o
espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou,
repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado
e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais,
para a tábua amparar.
10.10.17
Descalcei as alpergatas.
Conheci-os
algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as
prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem
regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés
descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece
conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de
perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os
gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas
não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e
um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe,
fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era
pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A
simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos
levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e
mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes.
Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos.
Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão.
Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma
bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma
medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas
homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos.
Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao
sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos
aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto
mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das
suas, na época e no ano inteiro.
9.10.17
Conservar em tempos de mudança.
Logo
petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As
que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe
preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa
com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O
cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se
não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se
impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava
quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por
ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico.
Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual.
Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham
outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa
que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os
convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os
seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali.
E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e
desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é,
fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as
contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá
confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O
relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais
inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a
mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero
que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus,
pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que
vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os
gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para
melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não
arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala
com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e
sentir.
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