2.10.13

Os “doidos”.

Mentiria se dissesse que, tantas vezes, me centro apenas naquilo que me dizem ou naquilo que oiço. Mentiria, a mim e aos outros. Acontece, outras tantas vezes. Quando, por mero acaso, me cruzo com pessoas que, facilmente, as apelidamos de “doidos”, não resisto ouvi-los para lá disso. Quando aceito. Quando não fujo da correria mundana. Certa noite, literalmente, numa esquina, junto a um prédio amarelo, o rapaz aproximou-se. Viu-nos. Reconheceu alguém. Falou-nos. Falamos-lhe. Sorriu. Sorrimos. Ele e nós. Contou-nos projectos futuros. Não se esqueceu. Amanhã seria dia de trabalho, dizia com ar pesado. Entre isto e o que, mais à frente, assumir-se-iam devaneios e falta de coerência e exactidão, pode, em abono da verdade, não ser eloquência e discurso de “doido”. Os “doidos” que se perdem nos pensamentos. Na verdade, parece-me que, tudo o que nos contou era verdade. Mesmo verdade. Eram projectos reais. Ele sente-os assim. Impossível concretizar? Talvez. Provavelmente. Mas pertencem-lhe, na forma mais íntima e verdadeira. Tão fortes. Os “doidos” somos todos. Uns capazes de sentir e contar. Outros insensíveis e incapazes de projectar.

8 comentários:

  1. completamente !!
    Falo por diversas vezes com os apelidados "doidos" que vivem na rua....
    E se por um lado tantas vezes posso sentir receio de o fazer por medo obviamente, acredita que tenho ouvido historias reais de gente real e sofrida, que cai na vida que nunca escolheu, que não ambicionava viver! gente culta...educada, com estudos.... gente com quem nunca ninguem fala e a quem se vira a cabeça.
    E porque será que temos tendencia a virar a cabeça? ´
    Preconceito..... esse malvado.
    Beijinhos

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    1. Temos, a meu ver, demasiada facilidade em apelidar pessoas e coisas. Talvez se trate de uma defesa, mas não acredito que defenda alguém. Pelo contrário, depaupera e afasta os outros. Chamá-los de doidos, ou de outra coisa qualquer, é um varrer para baixo do tapete. Assim, por ventura, tudo passa por normal e inexistente.
      Gosto de ouvir e conversar. Seja com quem for. E não lhes neguemos a oportunidade de projectar vontades e desejos.
      É... Parece impossível de se ausentar, o fatal preconceito.
      Beijinhos

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  2. (Nota...acabei de ir ao google pesquisar "Depaupera"....ok?? loolll ...)
    Brincadeiras (reais) à parte, concordo em absoluto com o "varrer para baixo do tapete"...é tão mais fácil fazer de conta que é uma realidade inexistente e que em nada se assemelha à nossa... e não podemos estar mais enganados!!
    O "meu" medo no caso é mais por ser mulher, e sem querer parecer convencida por dar "conversa" normal a alguns, já cheguei a ser convidada para me casar e fazer parte do rol de já 5 mulheres com filhos deixados em angola..... já para não falar que nesse maravilhoso dia estava com a minha mãe ao lado...foi um pedido formal digamos!!! ehehheh
    Mas, também já ouvi historias de um piloto de aviões que vive aqui na rua.....perdeu a mulher e os filhos por incompatibilidades e entregou-se ao desespero e ao vinho.....
    E outras tantas assim que tenho escutado....
    Não sou de todo de meter conversa por aí, sou por norma reservada, não me meto na vida alheia e não gosto que se metam na minha....mas gosto, gosto de gente acima de tudo educada, e falo de educação moral....a outra nem sempre traz bons costumes e moralidades...
    beijinhos Real

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    1. Ahah, não acredito! ;)
      A simpatia ganha sempre. No caso, valeu-te um pedido de casamento como já pouco se vê.
      Primeiro que tudo, sem excepções, as pessoas merecem-nos respeito e atenção, até prova em contrário. Engraçado, este rapaz com quem falamos, dissertava acerca da putativa construção de uma casa. Um lar onde iria receber a sua namorada, com quem se virá a casar. Já ouvi um outro, esse conhecido por aqui, que todos os dias nos conta que a sua futura namorada chega no próximo fim-de-semana, sempre. Eu ouço-os com sinceridade, afinal, aquela é verdade deles. E, quem somos nós, para não acreditar?
      Beijinhos

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    2. Todos ainda temos o "direito" de sonhar certo??? e quando o perdermos o que nos resta???

      ( sim, já me estou a imaginar a ser a 6ª mulher, com perspectivas de se aumentar o harém..loolll...foi engraçado sim e ainda assim valeu-lhe a capacidade "enorme" da minha mãe..de estar a achar um piadão à situação!!
      beijinhos

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    3. Restar-nos-á nada.
      Sempre ouvi dizer que, quem sai aos seus não degenera :)

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    4. ehehheh....!!!
      Assim espero!! Sendo ela UMA GRANDE SENHORA....e uma MÃE de mão cheia :)

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