28.5.14

O meu amigo C.

Ontem, já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem, depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato, não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes, usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre, treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos, quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta, gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome. Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que os amigos não têm idade.

4 comentários:

  1. Tu....
    Tu vais ser um grande PAI!!
    Porque já és um grande amigo e tens um grande coração!!
    Felizes, dos que te têm, por perto! ;)

    As crianças??? ui
    Tanto, mas tanto se aprende com eles e eu que o diga, que ha quase 7 que fui abençoada com a aprendizagem diária.... pela mão de um...
    Beijinhosssss
    Ate já

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  2. Soltei um sorriso sonoro quando te "ouvi" a falar do teu amigo C. :)

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  3. Nos Entas,
    Obrigado, do peito, pelas tuas palavras! A ver vamos :)
    As crianças são ensinamento puro, sem trejeitos e manias adquiridas. Ensinam-nos e fazem por nos lembrar daquilo que, um sem número de vezes, insistimos em esquecer. Imagino o teu Mini, entre o movimento sucessivo da idade e as conversas que, com o avançar da idade, se tornam um regalo.
    Beijinhos.
    Até já! :)

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  4. Raquel,
    Obrigado, sempre.
    A mim, ofereceste-me, lamechices à margem (ou quase à margem), um valente sorriso. O meu amigo C. ia gostar de te ouvir gargalhar! E perguntar-te, de seguida, do que te rias :)

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