Escancarou
a janela grande da cozinha, antes havia subido os estores na totalidade. O sol
da manhã a corroer qualquer possibilidade de olhar para além do chão. Os olhos
incapazes de focar dignamente – evitem o sol forte e a ausência de óculos
graduados - reparam na cozinha arrumada, toda limpinha. Sem qualquer rasto das
taças de vinho, tampouco dos acepipes. Ou dos restantes sustentos do
divertimento. Nada a beliscar a noite anterior. Sentado numa cadeira bastante
certinha, numa casa que não é minha, imagino o fim dos dias sobre a minha
cabeça: um cabelo humilhantemente desarrumado. Mas fico-me pela dúvida, evito a
sentença. A silhueta cheia de vida deixa-se sossegar. Encosta-se à bancada de
pedra, escura e fria. Quase sentada sobre a dita. Reparo que me dirige o olhar.
Numa tentativa sem reflexão de focar, cruzámos olhares. E sei que ela riu.
Baixinho, sem alarido. A resposta inequívoca, esbocei um ar nada delicado.
Entrei na dança, rimos juntos. De pernas cruzadas, a saírem de uns calções
curtos, perguntou-me se dormi bem. Tendo em conta o horário, não podia mentir,
dormi o insuficiente. Ela não gostou da almofada. Preferiu lutar contra a
cozinha desarrumada. Agradeci-lhe a simpatia, mas lembrei-lhe que não era
função de um só. Cortou esse caminho e perguntou-me o que eu estava a pensar
fazer durante o dia, uma vez que estava num lugar que não conhecia. Sair, ver,
conhecer, disse-lhe. Ela, sendo também visita, era repetida. Deu-me sugestões.
Ofereceu-me muitas saídas. Mostrou-se disponível para nos acompanhar. Agradeci.
Desenhados os sorrisos, passos de silêncio. Ela, num só salto, desce da bancada,
procura o granulado do seu bulldog francês, enche a taça e renova a água. De
costas, vira a cabeça na minha direcção e deixa fugir que gostou muito do
jantar do ZM. Foi graças a ele que nos conhecemos. Anuí com a cabeça. Sem
travar, perguntou-me se lhe tirava uma fotografia. Gostei do que vi, continuou.
Disponibilizei-me. Ali mesmo, numa cozinha estranha, precocemente cedo, com uma
luz simpática, a fotografar uma estranha bem-parecida. Não é outra coisa. É o
acervo do acaso. Há instantes, uma carta. Prosa bem cosida e um agradecimento
especial. Ainda há quem escreva. Cartas e à mão. E, o melhor dos nossos dias,
sem mácula. Sem um erro ortográfico. Há combinações crepitantes.
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29.5.17
30.3.16
Ainda se dirigem escritos fechados.
Chegou
bonita, requintada, com sabor a curiosidade e adornada com a certeza de que o
conteúdo, em tudo, suplantava o embrulho. Ainda assim, a elegância, tal como me
lembro dela, está, em tudo, desenhada. Chegou esta manhã. Há instantes, numa
pausa, a minha irmã mais velha deu-ma para ler. Não nega o remetente, pensei. É
uma amiga da minha irmã de longa data, tanto que perdi a conta. Eu, na altura
um petiz, julgando-me cheio de prosa e piada naturais, conheci-a. E, sem razão,
entendemo-nos muito bem. A simpatia e maturidade fazem o feitio reluzir. Ela
fê-lo na medida. Lembro-me, numa das vezes, de ficarmos presos numa conversa
sem fim, numa qualquer discoteca lisboeta. De lá até hoje, fomo-nos cruzando
raras vezes. A minha irmã e ela mais, mas não tantas quantas as desejadas. A distância
rouba-nos demasiado, mesmo quando parece ridículo. Nasceu, algures nesta
ausência e tempo corrido, a troca de cartas entre ambas. Em todas, uma
referência a mim e um beijo enviado. Obviamente, peço que a minha irmã lhe faça
chegar as minhas intenções. Esboço, enquanto leio, um sorriso, porque, afinal,
ainda se escreve na língua materna e num português imaculado. Numa folha lisa e
com caneta. Embrulhada num sobrescrito. As memórias assaltam-nos, o presente é
contado e o futuro é imaginado. Agradeço sempre à minha irmã pela partilha. À
amiga também. Numa carta, chegam palavras repletas de simbolismo, que servem
aquilo que nos faz bem e desenham, no mesmo patamar, aquilo que nos incomoda.
Li felicidade na mudança e uma certa mágoa de um presente que lhe deu vida. Um
beijo e a inegável vontade de voltar a cruzar-me contigo, numa prosa e piada
igualmente naturais, com uma pitada de maturidade. E que me perdoes a afoiteza
de outrora e de hoje.
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