Apanho-me
de surpresa, quando se me dirigem, por três vezes, em dois dias seguidos,
pessoas diferentes, ambos os sexos, realçando o meu novo visual. O meu pai
incluído. Em todas elas, fiel ao resultado comum das surpresas, não entendi, no
primeiro impacto, qual o objecto de tamanha diferença e digna de relevante
avaliação. Quero acreditar, positiva. Todos, por fim, acabaram por me colocar
ao corrente. É a barba. Por fazer. Se bem me recordo, de alguns dias. A todos,
a minha resposta, ainda que, balbuciada, foi igual. Não é um novo look, pelo menos, não é propositado. É o
cansaço, até de imaginar, de ter que a barba aparar. Agora, que penso, aparada,
não totalmente desfeita, já ela é hábito. Excede-se uma pessoa, cedendo à
liberdade de não ter obrigações. Ou mudou-me bastante ou, de pessoas atentas e
amantes do pormenor, estou rodeado. Os homens que me ascendem de seguida,
entenda-se o meu pai e o meu avô, são a imagem representada do pincel e lâmina
ou, mais recente, o meu pai, lâmina apenas. Eu, amante de tradições, não querendo
gorá-las nem contrariá-los mas, possivelmente fazendo-o, fico-me pela máquina
de barbear. Há vivências que não acompanhamos. Mudam-se os tempos, mudam-se os
hábitos… de barbear.